Infertilidade | Médico português é a nova esperança para milhares de mulheres

A endometriose afeta cerca de 10 por cento das mulheres em idade reprodutiva e o seu diagnóstico vem, muitas vezes, associado a “sentença” de que que era infértil. O que, afinal, não é verdade e podem ter filhos, sim!

Apesar de a endometriose ser uma doença tipicamente feminina, muitas mulheres só têm conhecimento da sua existência pela boca do ginecologista. Foi o que aconteceu a Gabriela Marques, de 35 anos. Viveu quase uma década convencida de que era infértil.

O médico “foi peremptório ao afirmar que tinha endometriose e que não poderia ter filhos”

“Aos 15 anos, as dores menstruais eram de tal maneira fortes que chegava a desmaiar. Fui ao médico e depois de alguns exames ele foi peremptório. Eu tinha endometriose e não poderia ter filhos”, conta ao nosso site. Passou a tomar a pílula para controlar a dor e lutou contra o estado de tristeza por saber que nunca iria ser mãe.

Gabriela ganhou coragem e marcou consulta com outro ginecologista, que lhe devolveu os sonhos

“Tudo mudou quando conheci o meu marido. Contei-lhe que não podia ter filhos. Ele aceitou, mas anos mais tarde, quando decidimos casar, pediu-me para ouvir uma segunda opinião”, explica. Gabriela ganhou coragem e marcou consulta com outro ginecologista, que lhe devolveu os sonhos.

“Estava à espera do resultado de umas análises e descobri que estava grávida. Foi uma grande surpresa”

“Disse-me que tinha endometriose, mas que poderia ter filhos. Quando estava ainda à espera do resultado de umas análises descobri que estava grávida. Foi uma grande surpresa, pois íamos iniciar um tratamento de fertilidade”, recorda.

Joaquim Gonçalves, ginecologista, obstetra e sub-especialista em medicina da reprodução
Joaquim Gonçalves, ginecologista, obstetra e sub-especialista em medicina da reprodução

Joaquim Gonçalves – ginecologista, obstetra e sub-especialista em medicina da reprodução – sublinha a necessidade de “desmistificar a doença”. “Ter endometriose é limitante para a ferlilidade, mas não causa obrigatoriamente esterilidade”, elucida, ressalvando que, “nos estádios 1 e 2 (os menos graves dos 4 que caracterizam a doença), muitas mulheres podem não saber que têm endometriose e eventualmente engravidar, sem recorrerem a tratamento”.

“Muitas mulheres podem não saber que têm endometriose e eventualmente engravidar, sem recorrerem a tratamento” – Joaquim Gonçalves

“A endometriose consiste na presença ectópica do endométrio, que em vez de estar circunscrita apenas à cavidade uterina, se apresenta noutros locais do organismo, predominantemente na zona pélvica (útero, ovário, trompas)”, explica. Segundo o especialista, a  endometriose pode, embora raramente, afetar órgãos mais distantes, como o pulmão, o nariz ou até o umbigo.

“A dor da endometriose é fortemente limitativa para a paciente, causando forte impacto nos diversos aspetos da vida da mulher, como, por exemplo, no ato sexual”

A doença não é, contudo, fatal, mas é “nos estádios mais avançados, muito incapacitante”. “A dor da endometriose é fortemente limitativa para a paciente, causando forte impacto nos diversos aspetos da vida da mulher, como, por exemplo no ato sexual”, refere.

Gabriela foi mãe pela segunda vez ano e meio depois do nascimento do primeiro filho, já com recurso a tratamento de fertilidade

Este foi o primeiro sintoma que Gabriela Marques identificou, mas teve “a sorte” de não sofrer outras perturbações. “No meu caso, o foco da doença está apenas num ovário e só quando menstruo é que sinto dores, que passam com analgésicos e anti-inflamatórios”, diz. Gabiela foi mãe pela segunda vez ano e meio depois do nascimento do primeiro filho, já com recurso a tratamento de fertilidade.

“Quis falar sobre o meu caso porque vivi erradamente em sofrimento por achar que era infértil. Existe um estigma muito grande da doença e pouca informação”

“Quis falar sobre o meu caso porque vivi erradamente em sofrimento por achar que era infértil. Existe um estigma muito grande da doença e pouca informação, tanto por parte das mulheres, como por parte dos médicos de família. É verdade que a fertilidade se altera, mas não é impossível engravidar. Eu tenho dois filhos. Mas é urgente uma sensibilização sobre a doença e os seus sintomas para que as mulheres saibam do que se trata e possam procurar ajuda numa fase precoce do seu aparecimento”, sublinha.

“É fundamental que as mulheres sejam orientadas precocemente, sempre que exista suspeição clínica da patologia”

A opinião também é partilhada pelo especialista Joaquim Gonçalves. O ginecologista obstetra, coordenador da Obstetrícia e Ginecologia do Hospital Lusíadas Porto e diretor do Centro de Estudos de Infertilidade, Fertilidade e Esterilidade (CEI), no Porto, acredita ser urgente “a divulgação e a sensibilização para a doença”. “É fundamental que as mulheres sejam orientadas precocemente, sempre que exista suspeição clínica da patologia”, conclui.

Doença de origem desconhecida

A origem da endometriose ainda não conhecida e é, por isso, motivo de controvérsia. A causa continua enigmática. “Ainda não há uma explicação única. Acredita-se que, por trás, possa existir uma multiplicidade de fatores: genéticos, hormonais, imunológicos e a mais divulgada teoria do refluxo do endométrio, mas não há ainda certezas”, explica Joaquim Gonçalves.

Para o diagnóstico, é importante a história clínica e o estudo complementar por ecografia, ressonância magnética e laparoscopia. Mas para que se torne definitivo, “apenas uma biópsia é conclusiva”. “O clínico deve saber ouvir a paciente e estar atento a sintomas que possam parecer  irrelevantes, mas que são um alerta para a doença, como sangramentos do nariz, por exemplo”, termina.

A endometriose só se manifesta quando as mulheres menstruam e termina quando  entram em menopausa.

Texto: Cynthia Valente | Impala.pt

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