Os resultados dos testes de ADN feitos à casa e ao carro dos McCann

O quinto episódio do documentário da Netflix sobre o desaparecimento de Maddie McCann traz finalmente o resultado dos testes ADN

Os resultados dos testes de ADN feitos à casa e ao carro dos McCann

O quinto episódio do documentário da Netflix sobre o desaparecimento de Maddie McCann traz finalmente o resultado dos testes ADN

Maddie está desaparecida há 129 dias. Kate e Gerry abandonam Portugal depois de serem constituídos arguidos no caso do desaparecimento da filha Madeleine McCann. O quinto episódio da série da Netflix começa com a aldeia inglesa em Leicester, de onde são naturais os McCann. O casal retorna à casa de sempre, onde estão as coisas de Maddie e onde esperam conseguir dar uma vida normal aos gémeos. Brian Kennedy entra em cena. O multimilionário torna-se mecenas do casal. «Acompanhava a história, como toda a gente. Reparei que os media e o Mundo se tinham virado contra eles», conta o escocês, a maior ajuda financeira de Kate e de Gerry. O homem, que fez fortuna no negócio dos vidros duplos, começa por garantir protecção legal, tentando garantir que estes não seriam levados de volta a Portugal, onde tinham sido constituídos arguidos.

Rogério Alves, então bastonário da Ordem, torna-se advogado dos McCann

Rogério Alves torna-se assim o advogado do casal de britânicos. O português conta que precisou de se encontrar com eles em Londres, em 2007, para os «olhar nos olhos para acreditar na inocência do casal».

Rogério Alves, advogado dos McCann em Portugal

Martin Smith – irlandês que passava férias na Praia da Luz na altura do desaparecimento de Maddie – diz ter visto um homem a carregar uma criança de pijama, não muito longe do Ocean Club. Ao ver as imagens do casal McCann a desembarcar na terra natal, e ao ver Gerry com um dos gémeos ao colo, afirma não ter dúvidas de que foi este o homem que viu na noite do desaparecimento. Smith baseou-se no maneirismo e na forma como Gerry carregava a criança.

Sandra Felgueiras recorda como era mal recebida em ‘casa’ dos McCann, em Inglaterra

O regresso dos McCann ao Reino Unido, depois de constituídos arguidos pela Justiça portuguesa

Mas se os McCann tinham deixado os Media portugueses no aeroporto em Lisboa, quando chegam a casa, ficam debaixo das lentes dos Media britânicos. Mas não só. Também os portugueses seguiram o casal. Sandra Felgueiras foi uma repórteres que seguiu os arguidos até casa deles. A jornalista da RTP recorda como era mal recebida em Rothley, Leicester, e como os moradores desaprovavam a presença de jornalistas. Em casa, os McCann recebiam centenas de cartas. Muitas faziam todo o tipo de acusações, como o facto de terem sido eles a matarem a filha. O casal recorre agora aos serviços de Clarence Mitchel, ex-jornalista, para mediar a relação com a Comunicação Social. O homem, oficial do ministério dos Negócios Estrangeiros, deixa o emprego no Governo para trabalhar a tempo inteiro para os McCann. Justine, conselheira do casal, revela que, àquela data, os McCann tinham especial cuidado com a forma como se apresentavam em público por temerem que Kate fosse vista como demasiado fria e uma mãe pouco carinhosa. As redes sociais estavam nos seus primórdios, mas ainda assim Kate era bastante criticada em plataformas como o Facebook e Twitter.

Gonçalo Amaral garante «manipulação dos resultados» de ADN nos laboratórios britânicos
Justine, primeira relações públicas do casal MacCann

A 10 de setembro de 2007, Gonçalo Amaral elabora um relatório de nove páginas. O documento delineia aquilo que se tornaria a base do caso da Polícia Judiciária contra os McCann. Salienta as provas de ADN e a alegada evidência dos alertas caninos. Bem como as «inconsistências» do testemunho dos McCann e dos amigos que com eles jantavam na noite do desaparecimento. Quando as Autoridades portuguesas se preparavam para entregarem o caso ao Magistrado, recebem finalmente os resultados do ADN da sala de estar do apartamento 5A, perto do sofá onde os cães deram o alerta, e da bagageira do carro alugado pelos McCann, uma Renault Scenic cinzenta.

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Uma após outra, apontam as amostraa de ADN como sendo «escassas», «demasiado complexas» e «inconclusivas». «Insuficientes para tirar conclusões». Desta forma, não há correspondência ao ADN de Madeleine. Mais ainda, não havia vestígios de sangue no apartamento nem no carro. Gonçalo Amaral garante que ter havido «manipulação dos resultados». «Quem levou a que isso acontecesse não lhe sei dizer, porque não estou no Reino Unido.» O inspector afastado do caso coloca ainda a possibilidade de o corpo poder ter estado «congelado em alguma arca ou em algum sítio e ter sido, mais tarde, transportado na bagageira do carro», alugado pelo McCann 25 dias após do desaparecimento de Madeleine.

A maré inverte-se

Depois de meses dados como culpados, os McCann apontam agora inconsistências no caso em que foram constituídos arguidos. A Opinião Pública conhece um revés e Kate e Gerry deixam de ser considerados culpados. «Tenho muitas fontes na PJ e falei com muita gente de lá. Disseram-me que encontraram fortes provas dentro de um carro. Quando li o relatório todo, senti que me tinham mentido. Aquela não era a verdade. As minha fontes internas mentira-me», assegura hoje Sandra Felgueiras, criticando as Autoridades portuguesas. O relatório focava-se em três amostras, duas delas da sala de estar do apartamento de férias e a terceira do carro Renault Scenic. O resultado da primeira amostra indica a possível existência de algum ADN de Madeleine. Correspondia a vários elementos da impressão genética da menina, mas não a todos. Era especialmente difícil determinar, com base no que ali estava, se a amostra de ADN tinha vindo de mais do que uma pessoa. Tão-pouco era possível determinar que tipo de fluido a teria originado. «A segunda amostra era demasiado complexa para determinar, sequer, resultados. E não havia provas de que continha o ADN de Madeleine», afirma a coautora do livro À Procura de Madeleine.

«Ouça, temos provas e o nosso traduziu apenas os primeiros parágrafos»

O ADN encontrado no carro teve correspondência de apenas 15 das 20 que deveria ter. «Isto pode parecer conclusivo, mas há que relembrar que o ADN de Madeleine é uma mistura do ADN do pai e da mãe. O ADN do Renault pode ter pertencido a todos os membros da família McCann», afirma a mesma mulher.  Jim Gamble garante que os investigadores portugueses «tomaram isto como a derradeira prova». Sandra Felgueiras recorda ter ligado a Gonçalo Amaral e de lhe colocar várias questões. «O que é isto? O sangue encontrado no apartamento e no carro dos McCann pode ser de qualquer pessoa, porque a amostra é pequena. E o último parágrafo dizia exactamente isso», afirma. «Como podem falar de algo tão sério, de um crime, negligenciando esses aspectos completamente fulcrais ao entendimento do caso?» Gonçalo Amaral atira culpas para um tradutor. «Ouça, temos provas. E o nosso tradutor não traduziu tudo. Traduziu apenas os primeiros parágrafos.» Felgueiras diz ter acreditado naquele momento que a intenção «por detrás daqueles agentes não era honesta».

Sandra Felgueiras no Algarve durante a cobertura do caso Maddie

Nesta fase, também os Smith – que afirmavam ter visto Gerry a carregar o corpo de uma criança – retiram o depoimento. Dizem acreditar ter visto outra pessoa. Anthony Summers volta a lembrar a teoria de que os pais de Madeleine a tivessem sedado. Para tal, refere que os gémeos estiveram «seis horas sem acordar nem fazer sons» enquanto o apartamento era invadido por dezenas de pessoas. No entanto, Kate afirmava que poderiam ter sido sedadas pelo raptor. Mais uma vez, as Autoridades portuguesas são criticadas. Brian Kennedy, o mecenas, diz que a teoria de que os pais eram culpados foi «levantada para não afetar o turismo da zona».

O afastamento de Gonçalo Amaral

Em finais de Outubro, Gonçalo Amaral faz uma chamada telefónica. Comenta com um membro da Imprensa que as «autoridades britânicas caíram na cantiga dos McCann e que faziam o que eles queriam». Acaba por ser afastado da investigação. No seu lugar fica Paulo Rebelo. No entanto, há um relato, afirma Anthony, de que o então primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, fez uma chamada a dizer que queria ter a certeza de que Amaral era demitido.  «Graças a Deus que Gonçalo Amaral foi substituído pelo outro agente. Na minha opinião, não fez o seu trabalho como devia. Deixou que jornalistas, como eu, achassem que os McCann estavam envolvidos», diz Sandra Felgueiras, afirmando ainda que se sente envergonhada por «ter feito parte disto».

Texto: Marta Amorim | Fotos: Impala e D.R

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