Tanatopraxia: A ‘arte’ de conservar e maquilhar os mortos [Reportagem]

«Vejo o antes e vejo o depois de um corpo. Isso motiva-me», diz-nos Ricardo Morais. Apaixonou-se em 2005 pela ‘arte’ de conservar e maquilhar os mortos e foi para Barcelona tirar o curso de tanatopractor.

Tanatopraxia: A ‘arte’ de conservar e maquilhar os mortos [Reportagem]

«Vejo o antes e vejo o depois de um corpo. Isso motiva-me», diz-nos Ricardo Morais. Apaixonou-se em 2005 pela ‘arte’ de conservar e maquilhar os mortos e foi para Barcelona tirar o curso de tanatopractor.

Naquele dia, Ricardo desabou e chorou que nem um bebé. Não por causa do cheiro dos gases saídos das entranhas nem por ter de lhe extrair o sangue das veias. Não por lhe injetar aquele líquido cor de rosa nem por ter de lhe entupir os orifícios com algodão. Foi porque, em tempos, afirmou que lho faria. Pelas mãos de Ricardo já passaram cerca de 8 mil corpos de todos os tamanhos, cores e feitios. Corpos já sem alma. Mas é aquele que não lhe sai da cabeça. Pertencia a um colega e amigo que o ajudara vezes sem conta nessa tarefa de dignificar o que cá fica. Foi a ele que, um dia, inocente, disse: «Ainda vou tratar de ti, pá!». E tratou. Ricardo Morais tem 11 anos na arte de cuidar dos que morreram. De vida já lá vão 38. Uma mulher e quatro filhas. É sportinguista, homem de Cascais, adepto de uma boa cerveja e tanatopractor, que é como quem diz que lhe cabe deixar um cadáver preparado, conservado e desinfetado para ser depois velado. Seja qual for o seu estado. O termo é tanatopraxia.

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«Vejo o antes e vejo o depois de um corpo. Isso motiva-me»

«Entrei neste ramo em 2005. Trabalhava num armazém e ganhava 550 euros por mês. Fizeram-me a proposta para ir para uma agência funerária por 750. Pensei um bocadinho se aceitava, mas não muito, e fui», recorda-nos. Três anos depois, conheceu um francês e tomou contacto mais direto com a arte da tanatopraxia. Apaixonou-se por ela e foi para Barcelona, Espanha, para tirar o curso. «Andei entre lá e cá durante um ano. A minha filha mais velha já era nascida e claro que é sempre complicado», assume. «Mas o gosto pela profissão também é muito.» Passou 672 horas em estudos e tinha o diploma. Nesta incumbência de dar aparente vida a quem já a perdeu, é o luto da família que mais importa e «o mais gratificante». «Também já perdi familiares e sei o que é estar nessa situação. Quero que um falecido esteja com ar tranquilo e que haja higienização do corpo para que família e amigos possam fazer o velório em segurança», explica Ricardo. «Vejo o antes e vejo o depois de um corpo. Isso motiva-me», garante.

«Agora, é tudo diferente» na arte da tanatopraxia, por causa da covid-19

O que faz passa por, de forma muito resumida, conservar o físico e permitir um «adeus digno». Assim era até surgir a atual pandemia de covid-19. Mas tudo mudou. «Se as pessoas que andam na rua em bando soubessem…», lamenta, recordando «o primeiro covid» que lhe chegou, «vindo do Hospital Amadora-Sintra». «Fartei-me de chorar. Um funeral já é um ato triste. Agora mais ainda. Não há nada… Não há beijos, não há um último carinho. Eu estava habituado a fazer uma coisa e agora é tudo diferente.» Nesta fase em que o novo coronavírus «anda aí», a tanatopraxia não pode realizar-se, salvo quando acontecem autópsias – e, esta, está reservada a casos especiais, como os de crime, exemplifica. Nos restantes, «é ir buscar os corpos, que são metidos, primeiro, em dois sacos e, depois, na urna». «Seguem para a carrinha e vão diretamente para o cemitério. Nem sequer há reconhecimento dos cadáveres», alerta.

«Há filhos que não viam os pais há anos e não tiveram oportunidade de os voltar a ver»

O que Ricardo tem feito, porque a sua missão é atenuar o sofrimento, é «tirar uma fotografia à etiqueta» que acompanha e identifica cada corpo. «É uma coisa minha… Mostro aos familiares para que tenham a certeza. É uma maneira de lhes darmos descanso», justifica. A boa intenção não está, no entanto, isenta de riscos, já que «a etiqueta pode vir errada do hospital». É por isso que, apesar de a Direção-Geral de Saúde recomendar a cremação, Ricardo Morais acha mais pertinente não fazê-la. Afinal, «levando um cadáver para o forno, não há hipótese de voltar atrás caso venha a descobrir-se um engano».

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«O meu pai faz pinturas e penteia pessoas mortas»

A preocupação com a família reflete-se em casa, com aquela que é sua. Ricardo não esconde das filhas – de 12, 5, 3 anos e 15 meses – a sua ocupação. Recorda o dia em que teve de ir à escola da mais velha para que todos os alunos apresentassem os pais. «Fiquei apreensivo. Não pelo que faço, porque nisso tenho muito orgulho, mas porque a minha filha podia dizer algo que assustasse os colegas», lembra. Acabou por conversar com a professora, que o descansou. «As crianças sabem comunicar e ela lá terá a maneira dela de explicar.» Assim foi. «O meu pai faz pinturas e penteia pessoas mortas», atirou. Todos as outras meninas ou meninos acharam «normal» e Ricardo teve a prova de estar a fazer um bom trabalho. «Costumo lidar com a morte diante delas de forma natural para que entendam o que é», explana. E conta de imediato o momento de um outro dia que também não esquece. Foi quando levou a filha de 5 anos ao funeral da avó, cujo corpo o neto tinha «preparado». «Gostei tanto de a ver olhar para a urna… Disse-me “Ó pai, parece que está a dormir”. Ela disse “parece” porque ela sabia que não estava», expõe.

O creme hidratante no final

A covid-19 tem tido impacto na quantidade de trabalho e, claro, no ordenado que leva para casa. Apesar de os funerais não terem diminuído, de há dois meses para cá houve uma «queda de 70 a 80 por cento» de serviços de tanatopraxia, extra que, a ser acordado, Ricardo cobra a 450 euros cada. «Depende de cada funerária. Acho que esse é o preço justo. Há quem peça 600, 700 e mil», refere e alerta: para a diferença entre tanatoestética, que consiste apenas na maquilhagem do corpo e que Ricardo também faz, e a tanatopraxia, que «desinfeta o corpo, elimina os cheiros e as alterações físicas pós-morte». «Quando se faz tanatopraxia, raramente é preciso estética, porque os produtos que usamos para a desinfeção já dão um ar bastante normal a um cadáver. Meto apenas um pouco de creme hidratante no final», descreve.

«Acredito muito em espíritos»

E como se encara a morte lidando com ela tão de perto? «Eu não sou religioso», responde-nos, quando colocamos a questão. Mas, depois de alguns segundos de silêncio, sugere: «Acho que qualquer coisa se passa». «No que eu acredito muito é em espíritos», acrescenta. Sem receio do que possam pensar dele, evoca uma das várias «situações engraçadas» por que já passou. «Tinha acabado o curso há pouco tempo e estava na minha sala de trabalho. Tinha três mesas e havia um rádio sempre ligado, para fazer companhia. Nesse dia, o rádio desligava e ligava, desligava e ligava», ri-se. «Eu, em tom de brincadeira, disse ao meu colega para dizer ao sr. António, que era o morto que lá estava, para parar com aquilo. E aquilo parou», narra. A sensibilidade para o esoterismo vem, diz, «de quando era miúdo» e já o levou a procurar quem o ajude a lidar melhor com quem deixa a alma. «Dizem-me que estou protegido, que eles [os espíritos] não me largam. A carga que tenho é deles. Pratico um ato bom. Estou a arranjá-los, não estou a fazer-lhes mal», acredita.

Há, porém, um senão. «Aqueles, normalmente os que perderam a vida pouco tempo antes de me chegarem, culpam-me pela morte deles.»

Reportagem: Ana Filipe Silveira;
Fotos e vídeo: Zito Colaço;
Edição de Vídeo: António Guimarães

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