Putin: A ascensão do ditador que quer dominar o mundo

Nascido em 7 de outubro de 1952, Vladimir Vladimirovich Putin ascendeu com a facilidade de um sopro à liderança da Rússia. Até aqui ninguém o parou. Alguém conseguirá?

Putin: A ascensão do ditador que quer dominar o mundo

Putin: A ascensão do ditador que quer dominar o mundo

Nascido em 7 de outubro de 1952, Vladimir Vladimirovich Putin ascendeu com a facilidade de um sopro à liderança da Rússia. Até aqui ninguém o parou. Alguém conseguirá?

Vladimir Vladimirovich Putin – o homem que mentiu até ao último momento sobre a invasão da Ucrânia – nasceu em 7 de outubro de 1952 em Leninegrado (rebatizada a pós o fim da URSS como São Petersburgo). Foi oficial de dos serviços secretos russos – no KGB – e político. Foi presidente de 1999 a 2008, passou a primeiro ministro até 2008 e voltou à presidência da Rússia em 2012. Mantém-se no cargo desde então e, com os recentes acontecimentos na Ucrânia, tornou-se muito provavelmente no homem mais odiado do mundo, sendo contestado inclusive no próprio país, com consequências dramáticas para os opositores.

Putin estudou direito na Universidade Estadual de Leninegrado, onde seu tutor foi Anatoly Sobchak, mais tarde um dos principais políticos reformistas do período da Perestroika. Putin serviu 15 anos como oficial de inteligência estrangeira para o KGB (Comité de Segurança do Estado), incluindo seis anos em Dresden, na Alemanha Oriental. Em 1990, aposentou-se do KGB com o posto de tenente-coronel e regressou à Rússia para se tornar pró-reitor da Universidade Estadual de Leninegrado, responsável pelas relações externas da instituição.

Pouco depois, tornou-se conselheiro de Sobchak, o primeiro presidente de câmara democraticamente eleito de São Petersburgo. Rapidamente conquistou a confiança de Sobchak e ficou conhecido pela capacidade de fazer acontecer as ‘coisas’ – em 1994 ascendeu com facilidade ao cargo de vice-presidente da câmara.

Em 1996, mudou-se para Moscovo, onde se juntou à equipa presidencial como vice de Pavel Borodin, o administrador-chefe do Kremlin. Putin aproximou-se do camarada Anatoly Chubais e iniciou a subida nos cargos administrativos. Em julho de 1998 o presidente Boris Yeltsin nomeou-o diretor do Serviço Federal de Segurança (FSB), sucessor doméstico da KGB. Pouco depois, tornou-se secretário do influente Conselho de Segurança. Yeltsin, que procurava um herdeiro para assumir o seu mandato, nomeou-o primeiro-ministro em 1999.

Embora fosse praticamente desconhecido, os índices de aprovação pública de Putin dispararam quando lançou uma operação militar contra rebeldes secessionistas na Chechênia. Cansado de anos dos comportamento errático de Yeltsin, a população russa apreciou a frieza e a determinação de Putin sob pressão. O apoio de Putin a um novo bloco eleitoral, a Unidade, garantiu-lhe sucesso nas eleições parlamentares de desse mesmo ano, 1999, em dezembro.

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Primeiro e segundo mandatos de Putin como presidente da Rússia

Em 31 de dezembro de 1999, Yeltsin anunciou de forma inesperada a renúncia e nomeou Putin como presidente interino. Prometendo reconstruir uma Rússia enfraquecida, o austero e reservado Putin venceu com facilidade as eleições de março de 2000, com cerca de 53% dos votos. Como presidente, procurou acabar com a corrupção e criar uma economia de mercado fortemente regulamentada.

Putin reafirmou rapidamente o controlo sobre as 89 regiões e repúblicas da Rússia, dividindo-as em sete novos distritos federais, cada um chefiado por representantes nomeados por ele. Removeu igualmente o direito dos governadores regionais de se sentarem no Conselho da Federação, a câmara alta do parlamento russo. Putin agiu para reduzir o poder dos financiadores e magnatas dos media impopulares da Rússia – os chamados oligarcas – encerrando vários meios de comunicação e iniciando processos-crime contra várias figuras de relevo. Enfrentou uma situação difícil na Chechênia, principalmente por parte de rebeldes que realizaram ataques terroristas em Moscovo e ataques de guerrilha contra tropas russas nas montanhas da região. Em 2002, Putin declarou o fim da campanha militar, mas as baixas permaneceram altas.

Em 2001, opôs-se fortemente ao presidente dos EUA aquando da decisão de George W. Bush de abandonar o Tratado de Mísseis Antibalísticos de 1972. Em resposta aos ataques de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos, contudo, prometeu a assistência e cooperação russa na campanha liderada pelos EUA contra terroristas e aliados e ofereceu o uso do espaço aéreo da Rússia para entregas humanitárias e ajuda em operações de busca e salvamento. No entanto, juntou-se ao chanceler alemão Gerhard Schröder e ao presidente francês Jacques Chirac, em 2002 e 2003, para se opor aos planos de EUA e Reino Unido de usarem a força para derrubar o governo de Saddam Hussein, no Iraque.

Tomou diretamente as rédeas da economia, que desfrutou de crescimento após uma recessão prolongada na década de 1990, e foi facilmente reeleito em março de 2004. Nas eleições parlamentares de dezembro de 2007, o partido de Putin, o Rússia Unida, conquistou uma esmagadora maioria dos assentos parlamentares. Embora o resultado das eleições tenha sido questionado por observadores internacionais e pelo Partido Comunista da Federação Russa, as eleições confirmaram o poder de Putin. Com disposição constitucional a forçar Putin a renunciar em 2008, escolheu Dmitry Medvedev como sucessor.

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O trabalho de Putin como primeiro-ministro

Assim que Medvedev venceu as eleições presidenciais de março de 2008, com uma vitória esmagadora, Putin anunciou que tinha aceitado o cargo de presidente do partido Rússia Unida. Confirmando as expectativas generalizadas, Medvedev nomeou Putin como primeiro-ministro horas depois de assumir o cargo, em 7 de maio de 2008, e o parlamento confirmou a nomeação no dia seguinte. Embora Medvedev se tenha tornado mais assertivo à medida que o seu mandato progredia, Putin continuava a ser considerado o principal detentor do poder no Kremlin.

Enquanto alguns especulavam que Medvedev poderia concorrer a um segundo mandato, anunciou em setembro de 2011 que ele e Putin trocariam as suas posições institucionais – decisão comunicada antes ainda dos resultados nas urnas. As irregularidades generalizadas nas eleições parlamentares de dezembro de 2011 desencadearam uma onda de protestos populares e Putin enfrentou um movimento de oposição surpreendentemente forte na corrida presidencial. Em 4 de março de 2012, no entanto, foi eleito para um terceiro mandato como presidente da Rússia. Antes de tomar posse, renunciou ao cargo de presidente do Rússia Unida, entregando o controlo do partido a Medvedev. Assumiu o então cargo em 7 de maio de 2012 e um dos seus primeiros atos foi nomear Medvedev como primeiro-ministro.

Terceiro mandato presidencial

O primeiro ano de Putin no regresso ao cargo de presidente foi caracterizado por um esforço amplamente bem-sucedido para sufocar os movimentos de protesto. Os líderes da oposição foram presos e várias organizações não governamentais que recebiam financiamento do exterior foram rotuladas de “agentes estrangeiros”. As tensões com os Estados Unidos aumentaram em junho de 2013, quando Edward Snowden, contratado pela Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA), encontrou refúgio na Rússia depois de revelar a existência de vários programas secretos da NSA.

Snowden foi autorizado a permanecer na Rússia com a condição de que, nas palavras de Putin, parasse de “prejudicar os parceiros americanos”. Após os ataques com armas químicas nos arredores de Damasco, em agosto de 2013, os EUA defenderam a intervenção militar na Guerra Civil síria. Num editorial publicado no The New York Times, Putin pediu “moderação”, e as autoridades norte-americanas e russas intermediaram em conjunto um acordo que resultaria na destruição de armas químicas na Síria.

Putin comemorou o 20.º aniversário da adoção da constituição pós-soviética em dezembro de 2013, ordenando a libertação de cerca de 25 mil presos políticos. Num movimento separado, concedeu perdão a Mikhail Khodorkovsky, ex-chefe do conglomerado de petróleo Yukos, que se encontrava preso há mais de uma década por acusações que muitos fora da Rússia alegavam ter motivação política.

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O conflito na Ucrânia e a intervenção síria

Em fevereiro de 2014, quando o governo ucraniano foi derrubado após meses de protestos persistentes, o presidente Viktor Yanukovych fugiu para a Rússia. Recusando-se a reconhecer o governo interino de Kiev como legítimo, Putin solicitou a aprovação parlamentar para enviar tropas para a Ucrânia para salvaguardar os interesses russos. No início de março de 2014, tropas russas e grupos paramilitares pró-russos tinham já assumido o controlo da Crimeia, república autónoma ucraniana cuja população era predominantemente de etnia russa.

Num referendo popular realizado em 16 de março, os habitantes da Crimeia votaram para juntar-se à Rússia e os governos ocidentais introduziram uma série de proibições de viagens e congelamento de bens contra membros do círculo íntimo de Putin. Em 18 de março, Putin, afirmando que a Crimeia sempre fez parte da Rússia, assinou um tratado que incorporava a península à Federação Russa. Nos dias seguintes, mais aliados políticos de Putin foram alvo de sanções económicas pelos EUA e pela UE. Após a ratificação do tratado por pelo parlamento russo, em 21 de março Putin assinou a legislação que formalizou a anexação russa da Crimeia.

Em abril de 2014, grupos armados não identificados, fardados com equipamentos russos, tomaram edifícios do governo em todo o sudeste da Ucrânia, provocando um conflito armado contra o governo de Kiev. Putin referiu-se à região como Novorossiya (“Nova Rússia”), evocando reivindicações da era imperial e, embora todos os sinais apontassem para o envolvimento direto da Rússia na insurgência, Putin negou firmemente ter mão na luta armada.

Em 17 de julho de 2014, o voo MH17 da Malaysia Airlines, que transportava 298 pessoas, caiu no leste da Ucrânia, com evidências esmagadoras a indicarem que tinha sido abatido por um míssil terra-ar de fabrico russa disparado de território controlado pelos rebeldes. Os países ocidentais responderam de novo com sanções e essas medidas, combinadas com a queda dos preços do petróleo, colocaram a economia russa em queda-livre. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) estimou que mais de mil soldados russos estavam a lutar ativamente na Ucrânia quando os líderes russos e ucranianos se reuniram para negociações de cessar-fogo em Minsk, na Bielorrússia, em 5 de setembro. Nos meses seguintes, a violência e os rebeldes pró-Rússia repeliram as forças ucranianas.

Em 12 de fevereiro de 2015, Putin reuniu-se com vários líderes mundiais em Minsk para aprovar um plano de paz de 12 pontos, destinado a acabar com a guerra na Ucrânia. Embora os combates tenham diminuído durante um período, o conflito recomeçou na primavera e, em setembro de 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) estimou que cerca de 8 mil pessoas tinham mortas e que 1,5 milhões foram deslocadas em resultado dos combates.

Em 28 de setembro de 2015, num discurso perante a Assembleia Geral da ONU, Putin apresentou a sua visão da Rússia como uma potência mundial, capaz de projetar a sua influência no exterior, enquanto pintava os Estados Unidos e a NATO como ameaças à segurança global. Dois dias depois, a Rússia tornou-se participante ativo na guerra civil síria, com aviões russos a atingirem alvos próximos das cidades de Homs e de Hama. Embora as autoridades de defesa russas tenham afirmado que os ataques aéreos tinham como alvo tropas e material do Estado Islâmico no Iraque e no Levante, o foco real dos ataques eram na verdade os oponentes do presidente sírio e aliado russo Bashar al-Assad.

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Silenciar os críticos e as ações no Ocidente

Em 27 de fevereiro de 2015, o líder da oposição russa Boris Nemtsov foi assassinado a tiro à vista do Kremlin, poucos dias depois de se ter manifestado contra a intervenção russa na Ucrânia. Nemtsov foi apenas o último crítico de Putin a ser assassinado ou a morrer em circunstâncias suspeitas. Em janeiro de 2016, um inquérito público britânico implicou oficialmente Putin no homicídio do ex-oficial do Serviço de Segurança Federal (FSB; o sucessor da KGB) Alexander Litvinenko, em 2006.

Litvinenko, que se tinha manifestado contra os laços do governo russo com o crime organizado antes e depois de ter desertado para o Reino Unido, foi envenenado com polônio-210 enquanto bebia chá num bar de hotel em Londres. A Grã-Bretanha ordenou a extradição dos dois homens acusados ​​de realizar o assassinato, mas ambos negaram envolvimento e um deles – Andrey Lugovoy – havia sido eleito para a Duma e gozava de imunidade parlamentar de acusação.

Aleksey Navalny, ativista da oposição que alcançou destaque como líder dos movimentos de protesto de 2011, foi repetidamente preso por acusações que os seus apoiantes caracterizaram como politicamente motivadas. Navalny ficou em segundo lugar na corrida para presidente de câmara de Moscovo em 2013, mas o Partido do Progresso foi excluído das eleições subsequentes por “motivos processuais”. Nas eleições legislativas de setembro de 2016, a participação dos eleitores foi de apenas 47,8%, a menor desde o colapso da União Soviética.

A apatia dos eleitores foi atribuída à implementação constante de Putin da chamada “democracia controlada”, sistema pelo qual as estruturas e os procedimentos básicos da democracia foram mantidos, mas o resultado das eleições foi amplamente predeterminado. O partido Rússia Unida de Putin reivindicou a vitória, mas observadores eleitorais documentaram inúmeras irregularidades, incluindo casos de preenchimento de boletins de voto e votações duplicadas. O partido de Navalny foi proibido de apresentar qualquer candidato e o PARNAS de Nemtsov obteve menos de 1% dos votos.

Em 2016, o envolvimento de Putin mudou o equilíbrio de poder na Síria e surgiram evidências de que a Rússia estava a conduzir uma ampla campanha de guerra híbrida destinada a minar o poder e a legitimidade das democracias ocidentais. Muitos dos ataques distorceram a linha entre guerra cibernética e crime cibernético, enquanto outros recordaram o intervencionismo soviético direto da era da Guerra Fria. Caças russos violavam constantemente o espaço aéreo da NATO no Báltico e um par de ataques cibernéticos sofisticados na rede elétrica ucraniana mergulharam centenas de milhares de pessoas na escuridão.

O presidente ucraniano Petro Poroshenko anunciou que o país fora submetido a mais de 6 mil ataques cibernéticos durante um período de dois meses, com praticamente todos os setores da sociedade ucraniana afetados. Poroshenko afirmou que os investigadores ucranianos ligaram a campanha de guerra cibernética aos serviços de segurança russos. Em Montenegro, onde o governo pró-ocidental se preparava para a adesão à NATO, as autoridades evitaram por pouco um plano para assassinar o primeiro-ministro montenegrino Milo Djukanovic e instalar um governo pró-russo. As autoridades montenegrinas descobriram uma conspiração que ligava sérvios nacionalistas, combatentes pró-russos no leste da Ucrânia e, alegadamente, dois agentes dos serviços secretos russos que tinham sido os autores do golpe de estado.

Nos meses anteriores às eleições presidenciais de 2016 nos EUA, uma série de ataques de hackers visaram o Partido Democrata e a sua candidata presidencial, Hillary Clinton. Especialistas em segurança cibernética vincularam os ataques aos serviços secretos russos e, em julho de 2016, milhares de e-mails privados foram publicados pelo WikiLeaks. Em poucos dias, o Federal Bureau of Investigation dos EUA (FBI) abriu uma investigação sobre os esforços russos para influenciar a eleição presidencial.

Mais tarde, foi revelado que esta investigação também estava a investigar possíveis ligações entre aqueles atos e a campanha do candidato presidencial republicano, Donald Trump. Trump ironizou, alegando que a Rússia tinha divulgado os e-mails porque Putin gostava dele. Depois, convidou a Rússia a “encontrar os 30 mil e-mails [de Clinton] que desapareceram”. Apesar destas declarações, Trump descartou repetidamente a possibilidade de Putin estar a tentar influenciar a eleição a seu favor.

Depois da inesperada vitória de Trump em novembro de 2016, a atenção passou para ataques cibernéticos e o possível conluio entre a equipa de campanha de Trump e a Rússia. As agências de inteligência dos EUA concluíram que Putin ordenou uma campanha multifacetada para influenciar a eleição e minar a fé nos sistemas democráticos norte-americanos. Barack Obama impôs sanções económicas aos serviços de inteligência russos e expulsou dezenas de supostos agentes da Rússia, mas o presidente eleito Trump continuou a rejeitar as conclusões dos serviços secretos dos EUA. Trump assumiu o cargo em janeiro de 2017 e investigações adicionais foram abertas pelo Congresso dos EUA para examinar a natureza e a extensão da interferência russa nas eleições presidenciais.

Por seu lado, Putin negou a existência de qualquer campanha para influenciar eleições estrangeiras. Em maio de 2017, porém, outro ataque cibernético foi atribuído ao Fancy Bear, grupo ligado ao governo russo que tinha realizado o ataque informático ao Partido Democrata. Em França decorria a segunda volta das eleições presidenciais e passaram à segunda volta o centrista Emmanuel Macron e a candidata de extrema-direita da Frente Nacional, Marine Le Pen. Le Pen já tinha recebido apoio financeiro de um banco ligado ao Kremlin e prometeu pressionar pelo fim do regime de sanções decretado após a anexação da Crimeia pela Rússia.

Poucas horas antes de um apagão dos órgãos de comunicação social na cobertura de notícias relacionadas com a campanha entrar em vigor, uma enorme quantidade de comunicações internas apelidadas de “MacronLeaks” surgiu na Internet. O esforço, contudo, não deu em nada, já que Macron conquistou quase o dobro de votos que Le Pen e tornou-se presidente da França.

Os movimentos estrangeiros de Putin pareciam produzir dividendos significativos entre fronteiras, já que o seu índice de aprovação popular permaneceu consistentemente acima de 80%, apesar da economia lenta da Rússia e da corrupção endémica no governo. Os baixos preços do petróleo e as sanções ocidentais agravaram uma perspetiva financeira já sombria, uma vez que os investidores estrangeiros continuaram relutantes em colocar o capital em risco num país onde os laços pessoais com Putin eram vistos como mais importantes do que o Estado de direito.

Mesmo depois de a Rússia ter emergido de sete trimestres consecutivos de recessão, tanto os salários quanto o consumo permaneceram estagnados em 2017. Estes e outros problemas domésticos pareciam fazer pouco para prejudicar a imagem de Putin e entre quem expressava preocupação nas sondagens, a culpa foi mais frequentemente atribuída ao primeiro-ministro, Dmitry Medvedev, do que ao presidente, Vladimir Putin.

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Ataque de novichok em Salisbury e o relacionamento com Trump

À medida que as eleições de março de 2018 se aproximavam, parecia quase certo que Putin conquistaria um quarto mandato presidencial com ampla margem. Navalny, o rosto da oposição, foi impedido de concorrer e o candidato comunista, Pavel Grudinin, enfrentou críticas incessantes dos media estatais. Duas semanas antes das eleições, Putin tornou-se no foco de um grande incidente internacional, quando Sergei Skripal, ex-oficial dos serviços secretos russos condenado por espionagem a favor do Reino Unido, foi encontrado inconsciente ao lado da filha, em Salisbury, na Inglaterra

Os investigadores detetaram que tinham sido expostos a “novichok”, agente nervoso complexo desenvolvido pelos soviéticos. As autoridades britânicas acusaram Putin de ter ordenado o ataque e a primeira-ministra britânica, Theresa May, expulsou quase duas dúzias de alegados agentes dos serviços secretos russos que trabalhavam no país sob cobertura diplomática.

A disputa diplomática não tinha diminuído quando os russos foram chamados às urnas em 18 de março de 2018. A data foi, não por coincidência, o quarto aniversário da anexação da república autónoma ucraniana da Crimeia, forçada pela Rússia, evento que marcou um aumento na popularidade doméstica de Putin.

Como se esperava, Putin reivindicou a maioria esmagadora dos votos numa eleição que a agência independente de fiscalização Golos caracterizou como “repleta de irregularidades”. Putin desejava uma participação maior do que a da sua vitória eleitoral de 2012 e o preenchimento de boletins de voto foi constatado em vários locais. A campanha de Putin apelidou o resultado como uma “vitória incrível”.

Em 16 de julho de 2018, recém-saído do sucesso da receção pela Rússia do Campeonato do Mundo de futebol, Putin realizou uma reunião de cúpula em Helsínquia com Trump, que tinham conduzido discussões na cúpula do Grupo dos 20 (G20) em Hamburgo, na Alemanha, e no encontro de Cooperação Económica Ásia-Pacífico em Da Nang, no Vietname, em 2017. O encontro na Finlândia marcou o primeiro encontro formal entre Putin e Trump, no final da visita do presidente norte-americano à Europa, na qual agitou as relações com os tradicionais aliados europeus dos Estados Unidos. Embora alguns observadores questionassem se seria capaz de estar à altura das discussões com um homólogo tão experiente e cauteloso quanto Putin, Trump disse que achava que o encontro com Putin seria o “mais fácil” de todos.

Depois de Putin ter deixado Trump à espera, por chegar atrasado, reuniram sozinhos (apenas com a presença de tradutores) cerca de duas horas e depois, mais brevemente, na presença de assessores. Na conferência de imprensa que se seguiu, Putin negou mais uma vez qualquer interferência russa nas eleições presidenciais de 2016 nos EUA. Trump levantou então inesperadas ondas de choque quando, em resposta à pergunta de um jornalista, afirmou que confiava mais na negação de Putin do que nas conclusões das suas próprias agências de investigação, que uns dias antes tinham resultado na acusação do Departamento de Justiça dos EUA a 12 agentes de serviços secretos russos pela intromissão nas eleições.

Além disso, dada a oportunidade de condenar ações russas transgressoras, Trump culpou os próprios Estados Unidos da América pelo relacionamento tenso com a Rússia. Trump aplaudiu também a oferta de Putin de permitir que investigadores dos EUA entrevistassem os agentes russos em troca do acesso da Rússia a alvos norte-americanos nas investigações russas.

Questionado por um jornalista norte-americano se ele tinha favorecido Trump nas eleições, Putin disse que sim, por causa do desejo expresso de Trump por melhores relações com a Rússia. Quando questionado se a Rússia tinha “kompromat” (informação comprometedora) sobre Trump, Putin apontou para o Fórum Económico de São Petersburgo e acenou com a impossibilidade de obter material comprometedor sobre cada um dos mais de 500 empresários americanos de “alto nível”. Também disse que não tinha tido conhecimento da presença de Trump em Moscovo durante uma visita anterior.

Vários analistas políticos com presença na imprensa foram unânimes em considerar que, de facto, Putin não negou explicitamente ter kompromat relacionado com Trump. A imprensa russa celebrou a cimeira bilateral como um enorme sucesso para Putin. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, descreveu o resultado da cúpula como “melhor do que super”. A resposta nos Estados Unidos foi principalmente de choque e vários republicanos juntaram-se mesmo aos democratas para condenar fortemente o desempenho de Trump.

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Alterações à Consituição e o ataque à Ucrânia

Com atletas impedidos de competir internacionalmente devido a um enorme esquema de doping patrocinado pelo Estado, a suspensão indefinida do G8 e as muitas sanções económicas tornaram a Rússia numa espécie de pária no cenário global. Apesar de tudo, a estatura pessoal Putin não diminuiu. Com o Reino Unido a lutar para concluir um acordo de saída da União Europeia, a chanceler alemã Angela Merkel (nos último dias de mandato e líder de facto da Europa) e os governos da Polónia e da Hungria com práticas cada vez mais autoritárias, Putin enfrentou um Ocidente que parecia incapaz de encontrar a sua direção.

Em oposição a este pano de fundo, Putin gabava-se de uma expansão robusta do poder militar russo, particularmente no campo de armas altamente tecnológicas. Em dezembro de 2019, abordou a histórica disputa por armamento entre os EUA e a União Soviética. Temos hoje uma situação única na História moderna: eles estão a tentar alcançar-nos.”

Em janeiro de 2020, Putin anunciou a intenção de modificar a Constituição russa, de forma a eliminar o limite de mandatos presidenciais, abrindo caminho para que permanecesse indefinidamente no cargo. Medvedev renunciou prontamente ao cargo de primeiro-ministro, afirmando que um novo governo daria a Putin “a oportunidade de tomar todas e quaisquer decisões necessárias”.

As mudanças constitucionais propostas foram aprovadas à velocidade da luz, mas Putin agendou um referendo nacional sobre o assunto, movimento que os críticos descreveram como pouco mais do que “teatro político”. A votação estava originalmente agendada para abril, mas foi adiada para julho devido à pandemia de covid-19. Sem qualquer surpresa, o resultado foi uma afirmação esmagadora da agenda de Putin, embora alguns grupos de oposição tenham alertado para o facto de que não ter existido qualquer intervenção de observadores independentes do processo eleitoral.

Em 20 de agosto, Navalny ficou gravemente doente durante um voo desde a cidade siberiana de Tomsk e análises posteriores confirmaram que havia sido exposto a um novichok (veneno). Navalny foi levado para a Alemanha para recuperar-se e, um mês depois, os candidatos da oposição tiveram um desempenho surpreendentemente elevado nas eleições locais realizadas na área onde Navalny estava em campanha. O Kremlin negou o envolvimento no envenenamento, mas os protestos tornaram-se cada vez mais difíceis de ignorar, já que o ataque a Navalny representava apenas o mais recente de uma longa série de atentados contra a vida dos críticos de Putin.

No final de 2021, Putin ordenou um aumento maciço de forças russas ao longo da fronteira ucraniana, com unidades adicionais despachadas para a Bielorrússia, ostensivamente para envolver-se em exercícios conjuntos com os militares locais. Os governos ocidentais manifestaram preocupação sobre o que parecia ser uma iminente invasão russa, mas Putin negou tais planos. Em fevereiro de 2022, cerca de 190 mil soldados russos estavam prontos para atacar a Ucrânia a partir de bases avançadas na Rússia, na Crimeia ocupada pelos russos, na Bielorrússia e no enclave separatista da Transnístria, na Moldávia, apoiado pela Rússia.

Além disso, unidades anfíbias foram enviadas para o Mar Negro sob o pretexto de exercícios navais previamente programados. Em 21 de fevereiro, Putin reconheceu a independência das autoproclamadas repúblicas populares de Donetsk e Luhansk, anulando efetivamente o acordo de paz de Minsk de 2015. Nas primeiras horas da manhã de 24 de fevereiro, Putin anunciou o início de uma “operação militar especial” e registaram-se as primeiras explosões em cidades da Ucrânia. Volodymyr Zelensky – presidente ucraniano – prometeu que o seu país se defenderia. Os líderes ocidentais condenaram o ataque – não provocado – e lançaram rápidas e severas sanções contra a Rússia. Se são suficientes para travar a ânsia de Putin em dominar o mundo logo se verá. Mas até aqui, na verdade, nada o travou.

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