Síndrome de Münchhausen | Dee Dee fingiu que a filha estava doente durante 23 anos

A história de Dee Dee e Gyspy é sobre uma mãe que abusou física e mentalmente da filha durante 23 anos até ter um fim trágico

Síndrome de Münchhausen | Dee Dee fingiu que a filha estava doente durante 23 anos

A história de Dee Dee e Gyspy é sobre uma mãe que abusou física e mentalmente da filha durante 23 anos até ter um fim trágico

A história de Dee Dee e Gyspy é sobre uma mãe que abusou física e mentalmente da filha. A síndrome de Münchhausen by proxy é um transtorno factício imposto a outro, uma variante da síndrome de Münchhausen. Considerada uma doença mental, foi originalmente descrita em 1977 por Sir Roy Meadow, pediatra, que a definiu como sendo uma forma de abuso infantil onde os cuidadores provocam de forma deliberada a existência de uma doença em crianças, atraindo a atenção para si mesmas. Se a pessoa tem esse comportamento consigo mesma, trata-se da síndrome de Münchausen; se os sintomas pertencem a outra pessoa, trata-se da síndrome de Münchausen by proxy.

Em 85% dos casos, a mãe é o perpetrador da violência contra a criança, e a taxa de mortalidade entre as vítimas é bastante elevado.

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O caso mais polémico é, possivelmente, o de Gypsy Rose Blanchard e Dee Dee, a mãe. Natural de Lafourche Parish, Louisiana, Dee Dee (Clauddine Blanchard era o seu nome verdadeiro) cresceu numa cidade chamada Golden Meadow com cinco irmãos. Conheceu o pai de Gyspy nas escola e namoraram entre quatro a seis meses. Quando ela engravidou, ele tinha 17 e ela 24. Casaram. Mas ele descobriu não estar apaixonado por ela e separou-se.

Gypsy Rose nasceu a 27 de julho de 1997, logo depois da separação, e as doenças (ou invenções de doenças por parte da mãe), começaram logo aos 3 meses. Com problemas tanto com a família como com a polícia, mudou-se com a filha para Slidell e ali viveram em casas do Governo. Em 2005, Slidell foi atingida pelo furacão Katrina e as duas sobreviveram, embora tivessem perdido a casa. Procuraram abrigo em Covington, num sítio para pessoas com necessidades especiais, e ali conheceram uma médica da região dos Ozarks, que sugeriu que estas se mudassem para o Missouri.

Alugaram uma casa na cidade de Aurora, e ali moraram até março de 2008, quando se mudaram para a casa construída pela Habitat for Humanity, em Springfield. A casa tinha adaptações especiais para a menina doente. Uma rampa na entrada e uma banheira de hidromassagem especial para ajudar com os músculos de Gypsy.

As doenças de Gyspsy multiplicavam-se. Asma, epilepsia, problemas de aprendizagem, apneia do sono, distrofia muscular, alergia ao açúcar e leucemia. A menina andava de cadeira de rodas, tinha o cabelo rapado  e era alimentada por um tubo. Estudava em casa porque, segundo a mãe, jamais conseguiria acompanhar os colegas e tinha a idade mental de uma criança de sete anos. A menina andava sempre vestida de princesa e usava perucas para esconder a cabeça rapada. A sua favorita era a da Cinderela.

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De acordo com os registos, de 2005 a 2014, Dee Dee levou a filha ao hospital mais de 100 vezes. Foi submetida a várias cirurgias oculares, gastrointestinais e até lhe retiraram as glândulas salivares.

“Tiraram-me as glândulas salivares porque a minha mãe dizia que eu me babava. Tinha um tubo de alimentação na minha barriga, fiz várias operações aos olhos, tanto ao direito como ao esquerdo. Operações às orelhas, biópsias aos músculos para perceber porque é que as minhas pernas não funcionavam, uma operação para deixar de vomitar. Eu acreditei que tinha essas doenças todas, exceto que sabia que podia andar e comer.”

O pai de Gyspy, que voltou a casar e ter filhos, continuava a enviar todos os meses uma pensão para a filha e era enrolado nesta teia de mentiras, desconhecendo que a filha, afinal, era perfeitamente saudável.  Gyspy não sabia sequer a sua idade verdadeira. No dia em que completou 18 anos, o pai ligou para a filha para a congratular e Dee Dee pediu-lhe para mentir, fazendo-a acreditar que tinha 14. Dee Dee segurava constantemente a mãe da filha, apertando-a cada vez que esta dizia ou fazia algo que não devia. Esta era apenas uma das formas que a mulher tinha para controlar a filha.

Gypsy tornou-se conhecida não só entre amigos e família. Dee Dee era mãe solteira e sensibilizou muita gente enquanto única cuidadora de uma criança com (supostamente) tantos problemas. Problemas esses que foram inventados e mantidos como farsa até aos 19 anos de Gyspy. Dee Dee não trabalhava para cuidar da filha a tempo inteiro.

Dee Dee arranjava dinheiro de mil e uma formas. Em algumas noites de verão, a mulher projetava filmes na parede exterior da casa e cobrava pelas pipocas e pelas bebidas. Ainda assim era mais barato do que ir ao cinema e o dinheiro arrecadado era para os tratamentos de Gypsy. Também era normal mãe e filha ganharem viagens à Disney, e chegaram a conhecer a cantora de country Miranda Lambert através da fundação Make-a-Wish.

«Ela disse-me que tinha cancro e rapava-me o cabelo dizendo: ‘Ele vai cair de qualquer forma, portanto vamos mantê-lo bonito e aparado’. Ela disse-me que eu não conseguia comer e precisava de um tubo de alimentação», contou Gypsy num programa do ID Documentary.

Mas não foi fácil para Dee Dee manter a farsa. À medida que crescia, Gyspy apercebe-se que, pelo menos, consegue andar e comer, não necessitando nem do tubo de alimentação, nem da cadeira de rodas. Em entrevista à HBO, a jovem recorda que tinha de mudar o tubo pelo menos de seis em seis meses e que o processo era extremamente doloroso.

Ainda que Dee Dee já desconfiasse não padecer de nenhuma doença, a mãe mantinha-a demasiado vigiada para que a filha se pudesse libertar das mentiras.

A primeira vez que  Gyspy tentou fugir, apanhou boleia de um estranho para casa de um homem que tinha conhecido numa convenção de sci-fi. Em menos de quatro horas Dee Dee tinha encontrado a filha. «Nessa noite, quando chegámos a casa, ela esmagou o meu telemóvel e computador com um martelo e disse-me que se eu voltasse a fazer algo do género que me esmagava os dedos», conta Gyspy no documentário da HBO. A mãe acorrentou-a à cama e passou a dormir com ela, vigiando-a ainda mais.

Mais tarde, foi na Internet que encontrou ‘salvação’. E o amor. Achava ela. Ia para o computador enquanto a mãe dormia, acabou por conhecer Nick Godejohn no site ChristianSingles.com e não mais quis viver a vida de farsa que descobrira viver. Mantiveram uma relação à distância, durante três anos e Gyspsy acabou por lhe contar a vida de enclaustramento que levava. Ambos católicos, queriam casar e já tinham até nome para os filhos. A junho de 2015, já Gypsy tinha 23 anos, Nick aceitou a sugestão da namorada e esfaqueou Dee Dee nas costas. Gyspsy Rose manteve-se na casa de banho, com as mãos a tapar os ouvidos, mas ainda assim ouvia os gritos da mãe. Perpetrado o crime,  fugiram para o Wisconsin, onde ele vivia.

Quando a polícia a descobriu, ainda sem saber que estava envolvida na morte da mãe, ficaram estupefactos porque ela não estava a usar a cadeira de rodas há alguns dias. E também não tinha por perto nem os medicamentos nem a máquina de oxigénio. Gypsy revelou às autoridades que não era uma pessoa doente e que tinha sido tudo uma grande mentira da mãe.

Confrontados, os vizinhos não queriam acreditar.

Gypsy e Nick foram presos e acusados do homicídio de Dee Dee. Ela foi condenada a dez anos de prisão no Chillicothe Correctional Center, Missouri . Nick, de 29 anos, foi condenado a prisão perpétua. Quando ela sair, em 2023, terá 32 anos.

A história de Gypsy Rose Blanchard é contada na série The Act, da Hulu, que chegou a 20 de março à HBO. Patricia Arquette interpreta  Dee Dee e Joey King, Gypsy.

As atrizes da série The Act

Não é possível, neste caso, provar que Dee Dee sofria de síndrome de Münchhausen by proxy uma vez que esta morreu sem se poder fazer um diagnóstico.

 

 

 


 

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