Especial julgamento | As incoerências no discurso de Rosa Grilo

A primeira audiência deste julgamento contou apenas com o depoimento de Rosa Grilo, que se irá prolongar na próxima sessão, devido a algumas incoerências no seu discurso que impossibilitaram o Tribunal de chegar a conclusões quanto à versão apresentada pela arguida.

Especial julgamento | As incoerências no discurso de Rosa Grilo

A primeira audiência deste julgamento contou apenas com o depoimento de Rosa Grilo, que se irá prolongar na próxima sessão, devido a algumas incoerências no seu discurso que impossibilitaram o Tribunal de chegar a conclusões quanto à versão apresentada pela arguida.

Rosa Grilo e António Joaquim chegaram na manhã desta terça-feira, 10 de setembro, para serem julgados no Tribunal de Loures pela morte de Luís Grilo, marido da suspeita. O julgamento conta com a presença de quatro jurados efetivos e seis suplentes que vão decidir o futuro de Rosa Grilo e do amante. Visivelmente mais magra, a viúva vestia um vestido cor de rosa e António Joaquim um fato azul escuro. Os suspeitos da morte do triatleta viram-se pela primeira vez desde a detenção. Mostravam-se serenos e trocaram olhares ao longo da audiência. Os dois arguidos não dirigiram a palavra um ao outro, uma vez que estão proibidos de manter contacto.

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A primeira audiência deste julgamento contou apenas com o depoimento de Rosa Grilo, que irá prolongar-se na próxima sessão, devido a algumas incoerências no seu discurso que impossibilitaram o Tribunal de chegar a conclusões quanto à versão apresentada pela arguida. Ao longo das declarações, a viúva foi alertada pela juíza Ana Clara Baptista para responder apenas ao que lhe era perguntado.

Rosa Grilo mantém tese dos angolanos

Rosa Grilo afirmou no início do julgamento que reiterava «todas as declarações iniciais no primeiro interrogatório», quando lhe foi aplicada a prisão preventiva, em setembro do ano passado. A mulher do triatleta diz que o marido terá sido morto com dois tiros, à sua frente, por dois angolanos na cozinha, que terão invadido a sua casa em busca de diamantes. No entanto, de acordo com os resultados da autópsia, a vítima só terá sido atingida por um projétil.

As incoerências no discurso da viúva

O discurso de Rosa Grilo baseava-se em algumas suposições, facto que terá irritado a juíza. No dia 16 de julho de 2018, ao final do dia, quando a arguida já tinha regressado de Benavila, onde estavam os alegados diamantes, Rosa Grilo recebeu uma chamada da sobrinha a indicar que iria levar Renato a casa. O menor tinha ido passar o dia à Costa da Caparica com a familiar. Perante este telefonema, a suspeita da morte do triatleta refere que os agressores se demonstraram «assustados, irritados e apressados». A magistrada questiona a arguida por que é que esta não optou por ir ao encontro da sobrinha para evitar que o filho corresse o risco de se deparar com o cenário do crime. Rosa Grilo diz que não sabe e que na altura «não quis levantar suspeitas» e optou por agir «com normalidade». Foi então no período de uma hora que tudo aconteceu. Os agressores, ao não encontrarem os diamantes, mataram Luís Grilo, mandaram Rosa Grilo limpar os vestígios de sangue e fugiram com o cadáver.

Angolanos fogem com o cadáver e Rosa Grilo não pede ajuda

Rosa Grilo conta que, depois de os angolanos terem saído de casa com o cadáver do marido, foi apresentar queixa do seu desaparecimento na polícia, porque «eles (angolanos) mandaram». Apesar de os agressores já não estarem presentes na casa da arguida, esta optou por «obedecer». A presidente do coletivo de juízes manifestou alguma incredulidade perante a versão completa apresentada pela arguida, questionando-a sobre os motivos que a levaram a ter esta atitude e a «atrasar a atuação da polícia», ainda por cima quando se sentia «insegura», tendo a arguida respondido sempre que foi por «medo», alegando que continuava a ser perseguida e controlada pelos homens.

O tribunal perguntou ainda à arguida se não se lembrou que a arma do arguido, que se encontrava na garagem e que foi descoberta pelos supostos criminosos, quando aí foram procurar os diamantes, poderia conter impressões digitais da pessoa que matou o seu marido. Uma prova, segundo a presidente do coletivo de juízes, que «poderia dar a possibilidade de identificar quem matou o marido». Rosa Grilo respondeu que «não se lembrou».

Para a arguida, a arma do crime foi uma das que estava na posse dos três alegados autores do homicídio, e não a de António Joaquim, contrariando a acusação do Ministério Público, que atribui a António Joaquim a autoria do disparo sobre a vítima na presença da arguida.

Filho fica sozinho em casa com assassino

No momento em que Rosa foi à polícia participar o alegado desaparecimento do marido, o filho terá ficado em casa sozinho com o homem que terá matado Luís Grilo, que se encontrava escondido no escritório, no piso superior, sem o conhecimento do menor. «Quando regressei da polícia, por volta da meia noite, perguntei ao meu filho se alguém tinha batido à porta», conta Rosa Grilo. O jovem terá respondido que «não». Renato não terá também reparado na saída do agressor, uma vez que, segundo a arguida, o menor se encontrava na sala a jogar computador com a porta fechada. A juíza pergunta à arguida por que é que deixou o filho em casa sozinho com um assassino e questionou também o facto de ter demorado quatro horas na polícia. «Fiz o que me mandaram. Na polícia, disse que tinha de ir para casa, mas tive de esperar pelo auto», afirmou a arguida.

A arma de António Joaquim

A arguida explicou que levou a arma para a sua habitação «às escondidas» da casa de António Joaquim, para se sentir «mais segura», na sequência de uma conversa que teve com o marido, durante a qual Luís Grilo lhe terá dito que tinha feito «um disparate» relacionado com a entrega de diamantes e na qual teria um papel de intermediário. «Quando restituí a arma ao António [Joaquim] não lhe contei o que se passou. Não queria envolver mais ninguém, colocar mais ninguém em perigo», justificou Rosa Grilo, admitindo hoje que devia ter contado ao arguido o que se tinha passado assim como denunciar o crime às autoridades.

Três dias após o homicídio de Luís Grilo, o arguido António Joaquim dormiu na casa de Rosa Grilo pois a arguida «estava com medo». «Mas aí estava a colocar o António em risco?», questionou a presidente do coletivo de juízes. «Não pensei nisso», respondeu a arguida.

Os angolanos estavam ou não armados?

Na primeira parte da audiência, Rosa Grilo terá apenas mencionado que o individuo branco, ao entrar em casa com os outros indivíduos angolanos, ter-lhe-à tapado a boca com uma mão e agredido com a outra. Não revelou se os indivíduos estavam ou não armados. No entanto, na parte da tarde, afirma que «todos eles estavam armados» e que a ameaçaram com a arma quando entraram na casa do triatleta. A juíza demonstrou dúvidas em relação à afirmação de Rosa Grilo. «Mas havia um deles que não tinha arma», pergunta Ana Clara Baptista. «Porquê?», pergunta Rosa Grilo. A magistrada sorriu e diz: «A senhora disse que o individuo branco lhe tapou a boca com uma mão e lhe agrediu com a outra. Como é que podia ter uma arma?». Rosa Grilo justificou que apenas se terá «apercebido da arma do indivíduo branco mais tarde».

Roupa com sangue

Rosa Grilo terá afirmado no interrogatório da polícia que terá lavado a roupa que tinha vestida no momento em que o marido morreu. «Tinha pouco sangue, porque Luís Grilo caiu com a cabeça para cima de mim e não sujou muito. Quando o levaram para o carro, limpei a roupa no imediato», afirmou na altura. Esta tarde, na segunda parte da audiência, Rosa Grilo afirma que terá trocado de roupa e que no interrogatório «queria referir-se à limpeza do chão e não da roupa».

Rosa Grilo terá de responder na próxima audiência, marcada para dia 17 de setembro, aos jurados, Ministério Público e aos advogados de defesa. António Joaquim ainda não falou, mas continua a defender que não sabe o que aconteceu.

Texto: Jéssica dos Santos com Lusa | Fotos: Marco Fonseca e Redes Sociais

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