Médico italiano: “Não andem aos magotes a fazer compras no supermercado: é o que há de pior”

O médico revela ainda que as terapias farmacológicas para este vírus são poucas, e que a evolução depende principalmente do nosso organismo.

Médico italiano:

Médico italiano: “Não andem aos magotes a fazer compras no supermercado: é o que há de pior”

O médico revela ainda que as terapias farmacológicas para este vírus são poucas, e que a evolução depende principalmente do nosso organismo.

Um médico italiano, Daniele Macchini, que está no centro da pandemia em Itália, no hospital Humanitas Gavazzeni, em Bérgamo, fez um extenso apelo nas redes sociais.

O relato foi escrito a 7 de março e pede fortemente que as pessoas se mantenham em casa para conter a propagação.

“Procurarei, portanto, transmitir às pessoas “estranhas à profissão” e mais distantes da nossa realidade, o que estamos a viver em Bérgamo nestes dias de pandemia do Covid-19”, começa por dizer, revelando que achou que o seu silêncio “não seria de todo responsável”.

“Ainda ouço que há quem se esteja a borrifar para as recomendações e pessoas que se queixam de que já não podem ir ao ginásio nem fazer torneios de vibrante futebol”, escreve, dizendo compreender o “prejuízo económico”.

Quando o vírus ainda não se tinha propagado por Itália, o hospital foi todo reorganizado e o médico recorda como esperava o resultado do primeiro paciente infetado.

“Bom, agora a situação é, por assim dizer, um pouco dramática. Não me ocorrem outras palavras. A guerra, em bom rigor, já rebentou e as batalhas são ininterruptas, dia e noite. Um atrás do outro, os pobres infelizes apresentam-se nas Urgências. Têm algo que é bastante diferente das complicações de uma gripe. Bastará dizer que é uma gripe muito feia. Nestes dois anos aprendi que as pessoas de Bérgamo não vêm às Urgências por nada. Também desta vez se comportaram bem. Seguiram todas as indicações que lhes foram dadas: uma semana ou dez dias em casa com febre sem saírem e sem arriscarem contagiar outras, mas agora já não fazem isso. Não respiram o suficiente, precisam de oxigénio”, escreve.

Espera-se que organismo debele o vírus sozinho

O médico revela ainda que as terapias farmacológicas para este vírus são poucas, e que a evolução depende principalmente do nosso organismo.

“Nós apenas podemos apoiá-lo quando já não se consegue melhor. Espera-se sobretudo que o nosso organismo debele o vírus sozinho, há que dizê-lo. As terapias antivirais para este vírus são experimentais, e todos os dias aprendemos qualquer coisa acerca do comportamento dele. Ficar em casa até que os sintomas piorem não altera o prognóstico da doença”, escreve.

Uma após outra, diz, as enfermarias que tinham sido esvaziadas enchem-se a um ritmo impressionante.

“O Covid-19 causa uma gripe banal em muitas pessoas jovens, mas em muitos idosos (e não só) dá azo a uma autêntica e propriamente dita SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) porque atinge diretamente os alvéolos pulmonares e infeta-os, tornando-os incapazes de desempenharem a sua função”, explica.

Daniele Macchini alerta para o facto de a população idosa ser a mais susceptível ao vírus.

“As enfermarias que antes pareciam fantasmas estão agora saturadas, prontas a procurar dar o melhor pelos doentes, mas exaustas. O pessoal está esgotado. Vi o cansaço em rostos que não sabiam o que isso era, não obstante as cargas de trabalho já massacrantes que tinham. Vi as pessoas permanecerem além do horário que já lhes fora destinado, fazendo horas extraordinárias que eram agora habituais”, diz o médico.

 

Macchini, que à data do texto diz não ver o filho há duas semanas, deixa um apelo para que as pessoas se resguardem o máximo possível e não corram aos supermercados.

“Por isso tende paciência, vós que não podeis ir ao teatro, nem aos museus ou ao ginásio. Procurai ter piedade por aquela miríade de pessoas idosas que podereis exterminar. Não é culpa vossa, eu sei, mas de quem vos mete na cabeça que se está a exagerar, e até este testemunho poderá parecer um autêntico exagero para quem está longe da epidemia, mas, por favor, ouçam-nos, tentem sair de casa só para as coisas indispensáveis. Não andem aos magotes a fazer compras no supermercado: é o que há de pior, porque assim há concentrações e torna-se mais alto o risco de contacto com contagiados que desconhecem sê-lo. Podeis ir lá como fazeis normalmente. Se porventura tiverdes uma máscara normal (mesmo daquelas que se usam para fazer certos trabalhos manuais) colocai-a. Não procureis as FFP2 ou as FFP3. Essas terão de ser usadas por nós, e começamos a estar cansados de o repetir. Já tivemos de optimizar a utilização delas só em certas circunstâncias, como sugeriu recentemente a OMS devido à carência desse material em quase toda a parte.

E sim, graças à escassez de certos dispositivos eu e muitos outros colegas estamos seguramente expostos, não obstante todos os meios de proteção de que dispomos. Alguns de nós já foram contaminados, apesar dos protocolos. Alguns colegas contagiados têm por seu turno familiares contagiados, e alguns dos seus familiares debatem-se já entre a vida e a morte.

Estamos onde os vossos medos vos levariam a criar distância. Procurai criar distâncias. Dizei aos vossos familiares idosos ou que sofrem de outras doenças que fiquem em casa. Ide vós levar-lhes as compras, por favor”.

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