Moçambique. Rui nasceu há uma semana, depois de a mãe ter passado dias à fome durante a gravidez

Rui Barson Manuel nasceu há uma semana, depois de a mãe ter passado dias à fome durante a gravidez, escondida no mato, a fugir dos ataques armados em Cabo Delgado, norte de Moçambique.

Moçambique. Rui nasceu há uma semana, depois de a mãe ter passado dias à fome durante a gravidez

Moçambique. Rui nasceu há uma semana, depois de a mãe ter passado dias à fome durante a gravidez

Rui Barson Manuel nasceu há uma semana, depois de a mãe ter passado dias à fome durante a gravidez, escondida no mato, a fugir dos ataques armados em Cabo Delgado, norte de Moçambique.

Rui Barson Manuel nasceu há uma semana, depois de a mãe ter passado dias à fome durante a gravidez, escondida no mato, a fugir dos ataques armados em Cabo Delgado, norte de Moçambique.

“Ficámos três dias no mato, estávamos assim como refugiados, sem comer”, conta o pai, Barson Manuel, 26 anos, professor do ensino básico, que fugiu de Muidumbe com a esposa, Marieta Mateus, na ocasião grávida de seis meses.

Além da insurgência que dura há dois anos e meio, o casal já tinha enfrentado, em 2019, a destruição provocada pelo ciclone Kenneth e agora tem de lidar com a covid-19, sendo que Cabo Delgado é a província moçambicana com maior número total acumulado de infeções pelo novo coronavírus (419 do total nacional de 1.590).

“Pouco mais de um ano após o ciclone Kenneth estamos de volta a Cabo Delgado e, infelizmente, a situação humanitária está pior do que antes”, descreve Daniel Timme, chefe de comunicação da UNICEF em Moçambique.

A região “sofreu com outros eventos extremos”, nomeadamente cheias “entre novembro e fevereiro”, mas a razão principal para a crise humanitária “são os ataques de grupos armados e há mais de 200 mil pessoas a fugir”, num contexto de restrições impostas pela covid-19, acrescenta.

Toda a população e especialmente as crianças “sofreram com estres três choques: ciclone, ataques e covid-19”, diz Amélia Mindu, técnica de nutrição de uma brigada móvel do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), um grupo de profissionais de saúde que viaja de ambulância e vai ao encontro das comunidades mais afastadas em vez de esperar por elas em centros de saúde.

Em menos de uma hora, na povoação de Impire, distrito de Metuge, sul de Cabo Delgado, juntam-se dezenas de mães com as suas crianças – a maioria ainda bebés – para a brigada observar, com pesagem, medição de altura, avaliação à subnutrição, seguindo-se uma consulta, vacinação e entrega da medicamentos numa rotina que inclui a observação das mães e decorre desde manhã até o sol se pôr, num pavilhão empoeirado.

Os profissionais de saúde e ativistas fazem demonstrações de distanciamento social e lavagem das mãos, em macua, a língua local, mas poucos minutos depois é como se tudo já tivesse sido esquecido: mães e crianças formam uma amálgama compacta em redor da brigada móvel.

A província já era um caso humanitário especial, com a desnutrição crónica da população de Cabo Delgado (2,3 milhões de habitantes) a rondar 53%, ou seja, dez pontos acima da média nacional, já de si grave.

Rui, recém-nascido de deslocados dos ataques armados, desafia as probabilidades e prepara-se hoje para a primeira consulta da sua vida, três meses depois de os pais viverem momentos de aflição.

“Fugimos de Muidumbe em abril, estivemos três dias escondidos no mato, sem comer e foi difícil porque ela [Marieta Mateus, a mãe de Barson] estava grávida, já tinha uma barriga grande”, descreve o pai, professor do ensino básico.

“Ela quase nem podia correr, mas conseguimos, assim mesmo, aos empurrões, chegar aqui. Fizemos a pé quase 200 quilómetros” até uma estrada onde uma boleia os conduziu a Impire – local do estágio de Barson pai enquanto docente e onde encontraram abrigo.

Marieta Mateus, sorri, mas prefere não falar. Desvia o olhar, fixa-o no pequeno Barson que segura ao colo, enrolado numa manta e tecido tradicional enquanto espera pelo primeiro cartão de saúde do bebé e pela vacinação.

“Há aqui uma fraqueza [na região] e muito trabalho a fazer, principalmente com as crianças”, refere Carlos Lone, consultor para saúde e nutrição do UNICEF, que acompanha as consultas em Impire.

“As brigadas móveis vão continuar a fazer o seu trabalho”, sublinha, tanto mais que em tempo de pandemia não pode haver aglomerações nos centros de saúde e recai sobre estas equipas a responsabilidade de calcorrear o território.

O distrito de Metuge está colado à capital provincial de Cabo Delgado, Pemba, e é um dos que acolhe cerca de 10% dos 250.000 deslocados da violência armada no resto da província que vive uma situação de crise humanitária.

 

 

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