Alentejo ‘abre as portas’ da paz e do futebol a irmãos que fugiram do Afeganistão

Dois irmãos afegãos de uma minoria étnica viram-se obrigados a fugir do seu país, depois da ascensão dos talibãs ao poder, e encontraram no Alentejo paz e uma oportunidade no mundo do futebol.

Alentejo 'abre as portas' da paz e do futebol a irmãos que fugiram do Afeganistão

No Campo João de Sousa Faria e Melo, ‘casa’ do Sporting de Viana do Alentejo, cuja equipa sénior disputa a 1.ª divisão distrital de Évora, prepara-se mais um treino matinal apenas com os jogadores estrangeiros que residem nas instalações do clube.

Esta sessão, que não conta com os portugueses e outros estrangeiros que trabalham ou estudam, inclui, entre brasileiros, cabo-verdianos, canadianos e um colombiano, os dois irmãos afegãos, Obaidullah Esmati, de 22 anos, e Zubaidullah, de 25.

“Gosto muito de Portugal e estou bem aqui. Agora, é o meu país”, afirma à agência Lusa Zubaidullah Esmati, o mais desinibido dos dois irmãos, que, apesar de já pronunciar algumas palavras em português, prefere ainda o inglês.

Envergando a camisola da seleção portuguesa, com o número ‘7’ de Cristino Ronaldo, Zubaid, como habitualmente é tratado, participa no treino, mas a sua função no Sporting de Viana do Alentejo não é a de jogador, mas sim de roupeiro, ainda que sonhe voltar a ser futebolista.

“Estou a ajudar nos treinos com os equipamentos, mas, às vezes, também treino. Eu jogava no Aria Club, em Sheberghan, e, agora, treino porque, se jogar melhor, talvez possa jogar na próxima época” na equipa alentejana, frisa.

Já o irmão Obaidullah integrou, na época passada, o plantel do Sporting de Viana do Alentejo e, este ano, está no Aguiar, clube do mesmo concelho que disputa a 2.ª divisão distrital, para jogar mais vezes.

“Quero ser jogador de futebol, um bom jogador de futebol e, por isso, estou a tentar”, afirma, expressando-se também em inglês, este afegão, que, no seu país, era futebolista profissional do Shadow FC, da Primeira Liga de Mazar-i-Sharif.

Em pleno relvado, no final do treino, os irmãos afegãos recordam à Lusa os tempos em que viveram na sua terra natal e as mudanças que se seguiram à tomada do poder pelos talibãs, em agosto de 2021, que obrigaram a família a sair do país.

“O Afeganistão não é bom para mim nem para a minha família, porque agora são os talibãs que governam”, recorda Zubaid, corroborado pelo irmão mais novo: “Os talibãs não gostam dos Hazara”, sublinha Obaidullah.

Os dois irmãos e a família pertencem à minoria xiita Hazara, que é perseguida e discriminada no Afeganistão, e viviam na zona de Mazar-i-Sharif, no norte do país.

Obaidullah e Zubaidullah estão agora em Portugal com estatuto de refugiados, enquanto os pais e uma irmã mudaram-se para os Estados Unidos e uma outra irmã, o cunhado e dois sobrinhos vão sair do Paquistão para também rumar a Portugal.

“Desde que vim para Portugal, nunca mais vi a minha família, mas espero que um dia nos voltemos a encontrar e vivamos juntos”, diz o irmão mais novo, assinalando que ‘matam as saudades’ todos os dias através do telemóvel.

Sem conhecer Portugal antes, Obaidullah ficou convencido de que seria um bom país para viver, graças ao que viu em vídeos e às informações que recolheu. Em setembro de 2022, chegou a terras lusas e, pouco depois, juntava-se a si o seu irmão Zubaidullah.

Os dois, conta à Lusa o presidente do Sporting de Viana do Alentejo, Rogério Lagarto, foram acolhidos na vila alentejana depois de o clube ter manifestado essa disponibilidade à Federação Portuguesa de Futebol (FPF).

Numa região onde os clubes enfrentam dificuldades para recrutar futebolistas para as suas equipas, o dirigente desportivo afiança que este acolhimento “tem a ver, acima de tudo, com uma questão humanitária”.

“Estas pessoas precisam que alguém as auxilie e ajude, porque é uma questão de vida ou de morte”, realça, sublinhando que a maior retribuição que o clube e os dirigentes podem receber vê-los “viver de forma livre e sem serem perseguidos”.

Com quarto e alimentação assegurados pelo clube, Obaidullah e Zubaidullah já são apreciadores da gastronomia portuguesa, sobretudo do bacalhau, e estão a aprender português através da Internet, uma prioridade para conseguirem encontrar trabalho.

Atentos ao futebol nacional, os dois são apoiantes da seleção portuguesa e admiradores de Cristiano Ronaldo e só divergem no apoio aos clubes portugueses. O irmão mais velho é do Benfica, enquanto o mais novo torce pelo Sporting.

O maior elogio que fazem ao país é ao nível da segurança, como realça Obaidullah: “Temos a verdadeira liberdade”.

*** Sérgio Major (texto) e Nuno Veiga (fotos e vídeo), da agência Lusa ***

SM // JP

By Impala News / Lusa

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