Enfermeiros no limite : «Existem turnos em que só apetece chorar. Não temos condições»

Rodrigo Mareco, enfermeiro no Hospital Prof. Doutor Fernando da Fonseca (HFF), dirige-se ao Presidente do Conselho de Administração numa longa carta aberta

Enfermeiros no limite : «Existem turnos em que só apetece chorar. Não temos condições»

Depois de enfermeiros nos hospitais de Faro, Guimarães e Leiria denunciarem falta de condições na urgência, é a vez de o Hospital Prof. Doutor Fernando da Fonseca (HFF) (também conhecido como Amadora-Sintra) ganhar também voz. A falta de profissionais é denunciada por um enfermeiro que escreve uma carta aberta ao Presidente do Conselho de Administração do hospital.

«Sou Enfermeiro no Serviço de Urgência Geral do HFF, local onde eu, os meus colegas e grande parte dos profissionais de saúde nos dedicamos de forma exímia aos doentes e suas famílias. Sim, cada turno é vivido da forma mais agressiva que possa imaginar. A dedicação é de corpo e alma, numa correria frenética para tentar não falhar nas dezenas de procedimentos que temos de realizar, não esquecendo a gestão de prioridades e trabalho em equipa, que são fundamentais num serviço hospitalar com tamanha complexidade como uma Urgência Geral», começa por dizer.

Rodrigo Mareco diz-se cansado. Física e mentalmente. Em época de epidemia da gripe, o caso agrava-se. Imagens como a do hospital de Leiria repetem-se por todo o país e os enfermeiros exaltam-se. Numa longa descrição das funções de um enfermeiro, Rodrigo sustenta que o baixo número de profissionais de enfermagem incapacita o hospital de responder devidamente às necessidades dos doentes e suas famílias. Por turno, são cerca de 20 enfermeiros a lidar com um números de internados que nesta altura excede os 100, mesmo que apenas exista capacidade para 50.

«No Serviço de Urgência do HFF vive-se o caos: Centenas de doentes em área ambulatória; Temos de espera para observação médica que excedem em muito o preconizado; Doentes em macas em todos os corredores possíveis, muitas vezes longe do local onde serão observados; Incapacidade de dar resposta, em tempo útil e digno, às necessidades dos doentes e familiares; Escassez de profissionais de saúde, nomeadamente Enfermeiros e Auxiliares de Acção Médica; Utentes internados pura e simplesmente num corredor dentro do SO e muitos outros, no famoso “SO5”, que atinge mais de 20 doentes, simplesmente deitados em macas, a centímetros uns dos outros, que são, supostamente, cuidados por 2 enfermeiros, que não conseguem de todo realizar uma prestação de cuidados digna», pode ler-se.

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«Existem turnos em que só apetece chorar. Não temos condições, não conseguimos tratar dos doentes da forma como eles merecem, nem das famílias que os acompanham e nos olham desesperadamente», escreve Rodrigo, num relato emocionante.

Rodrigo refere que o número de enfermeiros nas urgências é exactamente o mesmo que nos restantes meses do ano, em que a epidemia da gripe não se faz sentir.

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Não sendo reforçado o número de profissionais de saúde, Rodrigo afirma que os enfermeiros são obrigados a seguir turno, trabalhando por vezes 10h a mais, sem remunerações. O número de doentes internados em locais inadequados aumenta, tal como os tempos de espera (pulseira amarela chegam a 10 horas).

O nosso site sabe que esta carta -para além de partilhada nas redes sociais- foi esta manhã de dia 10 entregue à administração do hospital que já respondeu via e-mail. Contactado pelo nosso site, Rodrigo conta-nos que lhe foi respondido que a carta seria partilhada com toda a administração, que esta se iria reunir, e tomar um parecer em breve.

Texto: Marta Amorim Fotos: DR

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