As confissões de uma das primeiras atrizes portuguesas a conquistar Hollywood

Já dançou para Bryan Adams. Contracenou com Collin Farrell e assinou um documento a garantir que não se aproximava de Brad Pitt.

As confissões de uma das primeiras atrizes portuguesas a conquistar Hollywood

Já dançou para Bryan Adams. Contracenou com Collin Farrell e assinou um documento a garantir que não se aproximava de Brad Pitt.

Portugal está na moda. Celebridades como Madonna perdem-se pelos encantos nacionais. E também acontece o inverso. Muitos portugueses conquistam o estrangeiro com o seu talento. É o caso de Daniela Ruah e Sara Sampaio, dois talentos nacionais já adotados pelos norte-americanos. Mas muitos antes disto uma mulher portuguesa conquistava os Estados Unidos da América. Ana Cristina de Oliveira, hoje com 43 anos, chegou, viu e venceu. Descubra as confissões de uma das primeiras atrizes portuguesas a conquistar Hollywood

Como é que a moda surge na sua vida?
Ana Cristina de Oliveira – Foi um acaso. Estavam a fazer um casting para uma marca de cosméticos que nem sei se ainda existe em Portugal. Disseram-me para fazer o casting e acabei por fazer o trabalho sem nunca pensar que seria a minha profissão.

E com apenas 17 anos muda-se para o Japão…
Exato.

Como foi essa experiência para uma adolescente que é filha única?
Hoje em dia as coisas são muito diferentes. Não se pode comparar estar a sair de Portugal com 17 anos em 1991 ou uma adolescente com essa idade agora, em 2015. Em 1991 não havia um restaurante de sushi em Portugal. Nem sequer um McDonald´s. Nos dias que correm continuamos a ter um metro muito pequeno. Além disso vivia numa zona onde nunca precisei de apanhar o metro para onde quer que fosse. Cheguei a Tóquio e tinha sushi e bento boxes à minha frente com coisas que não me eram familiares. Aquela realidade era diferente. Sendo filha única nunca tive de repartir um quarto e tive de o fazer com a Emily, a minha primeira colega de quarto.

A única opção foi crescer depressa…
Claro! Sobreviver ou “morrer” (risos). Era um pouco assim. Se ainda hoje se diz que temos um mercado pequeno no que à moda diz respeito e também televisão, como era em 1991? Ainda hoje se diz que não nos podemos comparar com outros mercados. Quanto mais naquela altura. E chego lá, onde existiam vinte castings por dia. Cheguei a fazer três trabalhos no mesmo dia. Era um ritmo muito intenso.

” Cheguei a fazer três trabalhos no mesmo dia. Era um ritmo muito intenso”

Esse ritmo impediu que existissem quebras em que se fosse abaixo e em que pensasse regressar a Portugal?
Nunca tive um momento assim. Sinto saudades. Ainda hoje tenho saudades da minha mãe e dos amigos quando estou fora. Também me dão saudades enormes de certas comidas.

Por falar em comida, viveu um episódio caricato na sua primeira estadia no Japão…
Sim (risos). No dia de Portugal (10 de junho) estava desesperada para comer qualquer coisa portuguesa. Como podia fazer isso em Tóquio naquela altura? Então tive a lata de ligar para a embaixada portuguesa para saber se ia ser feita alguma festa (risos). Realmente houve festa e fiz-me de convidada. Disse que era menor e que tinha muitas saudades de Portugal. E acabei por ser convidada. Lembro-me de que existiam cozinheiros portugueses e que o prato principal era feijoada. E detestava feijoada até ir para o Japão (risos). Comi aquela feijoada como se fosse a melhor do mundo. Mas nunca tive em nenhum sítio em que desejasse voltar a Portugal para nunca mais voltar a sair de cá.

Esse episódio revela a sua maneira de ser. É assim que lida com as coisas?
Acho que sempre tive um pouco de lata. Sempre fui assim. Se perguntar e se não tiver sorte, não morro por causa disso. Mas se conseguir só por ter perguntado ou tentado, valeu a pena. Não se trata de um tentar maquiavélico. É tentar quando quero algo. Naquele caso era saber se existia uma festa (risos).

“Acho que sempre tive um pouco de lata”

Foi a sua primeira experiência fora de Portugal mas nunca mais parou e deixou a sua marca nos principais palcos da moda mundial. Qual o local que guarda com mais encanto e aquele em que a experiência não foi tão boa?
Adorei o Japão. Foi a primeira experiência e hei-de regressar. Los Angeles é especial. LA It´s my lady (risos). Paris foi a cidade que menos me encantou.

E a nível de criadores e marcas. Quais as memórias mais marcantes?
Quando vivi em Nova Iorque trabalhei imenso para a Calvin Klein. Tanto para o C.K. como para a linha Calvin Klein. E nos tempos em que lá vivia era eu e outra manequim que experimentávamos todas as roupas para o alinhamento dos desfiles. Como pessoa adorei o Calvin Klein. Era muito porreiro.

Até que surge o anúncio internacional da Levi’s.
Tinha feito o casting em Los Angeles e depois fui para a Austrália com a minha melhor amiga. Quando lá estava disseram-me para regressar porque estava na fase final do casting.

Tinha noção da dimensão do trabalho?
Não! Mas não pensei muito nisso. Era um casting como outro qualquer. E isto aplica-se a qualquer casting que tenha feito. Existem projetos que as pessoas acreditam que vão ser um fracasso e são grandes sucessos. Nunca se têm a ideia. Por isso é que não pensava muito nisso.

“Como pessoa adorei o Calvin Klein. Era muito porreiro”

Ganhou o trabalho. O anúncio é internacional e um grande sucesso. Ainda se recorda do momento em que viu o anúncio pela primeira vez? Nesse momento é também apenas mais um trabalho?
Adorei fazer esse trabalho porque a equipa era fantástica. Mas consigo abstrair-me das coisas. Tenho quase vergonha de ver aquilo que faço. Aquela sou eu?, pergunto (risos). Não no sentido de me achar muito boa mas é estranho ver-me.

É com esse trabalho que nasce o desejo de representar?
Sim. Estava a viver em Los Angeles e lá tudo gira à volta do cinema. Todas as pessoas estão na indústria. E foi isso que me deu um certo empurrão para ir para uma academia de atores.

É justo dizer que existe um antes e um depois do anúncio da Levi’s?
Não. Foi um marco na minha carreira mas não posso considerar que tenha sido um marco na minha vida. Ajudou-me com outros trabalhos mas nunca senti que tivesse mudado a minha vida.

Existe um pouco a ideia de que as manequins vivem para aquele glamour que evidenciam nos trabalhos de moda. No seu caso é assim?
A minha realidade é outra quando não estou a trabalhar. Tem de ser. São muitos anos. Existem anos em que não tenho paciência para comprar roupa. E se realmente preciso de algo, entro num sítio, escolho o número, vejo em frente ao espelho e vou-me embora. Maquilhagem não tenho por hábito usar. E também não tenho o hábito de fazer manicure.

“Maquilhagem não tenho por hábito usar. E também não tenho o hábito de fazer manicure”

Existe também a ideia de que os bastidores da moda são marcados por excessos de álcool, drogas e mesmo sexo. É um mito ou uma realidade?
É uma realidade que existe para quem quiser. Fala-se disso porque é um mundo com muita exposição. Com uma imagem forte, com manequins em poses sexys, o que leva à fantasia de que aquilo deve ser um bordel cheio de excessos. E as pessoas de outras profissões não consomem droga? Não recorrem a prostitutas de luxo?

É uma ideia que se cria pela exposição mediática, tal como acontece com o rock e mesmo o cinema?
Claro. Sou amiga do Bryan Adams desde que fizemos o videoclip. Ele está no rock há décadas, é vegetariano, não bebe nem fuma. E é uma estrela rock. Conheço manequins que não fumam e que treinam muito. Trabalhei com manequins virgens que eram muito ligadas à religião. O que as pessoas fazem depois é com elas. E isso não é uma realidade exclusiva destes mundos. É a exposição mediática que faz a diferença. Se um CEO de uma empresa que não seja muito importante gastar milhares de euros em droga e prostitutas ninguém quer saber porque isso não vende nada. Há tudo em todo o lado e não se pode julgar. É o mesmo que dizer que só as manequins e atrizes e que fazem cirurgias estéticas.

Falou de Bryan Adams. Como surgiu a hipótese de fazer o vídeo? Foi mais um casting?
Também foi um casting. É tudo através de casting (risos). Nunca me tive ninguém a bater à porta para perguntar se queria trabalhar (risos). Passa sempre por processos desses. Só quando se atinge um determinado patamar é que os trabalhos são oferecidos. Por norma é sempre um processo com várias etapas que acaba com um “não, obrigado” ou “o trabalho é teu”.

” Nunca me tive ninguém a bater à porta para perguntar se queria trabalhar”

Mencionou a amizade que ainda a une ao cantor. Fez também diversos trabalhos com muitas outras estrelas. É um mundo onde é fácil fazer e manter amizades?
Com uns é fácil e com outros é mais difícil. Tal como com uns nos damos super bem durante os trabalhos mas depois as pessoas acabam por se perder, até porque moram em locais diferentes. Adorei os dias em que trabalhei com o Harrison Ford, que é muito divertido e que me chamava Miss Portugal. Na altura trocámos números mas nem ele me ligava nem eu a ele.

“Harrison Ford, que é muito divertido e que me chamava Miss Portugal”

Além de Harrison Ford, teve trabalhos com Brad Pitt e Benicio Del Toro. Tem também uma cena em Miami Vice onde existe alguma sedução da parte de Colin Farrell. São símbolos masculinos de Hollywood. Como eram essas cenas e as suas amigas metiam-se consigo para saber como eles eram?
Tive sempre mais amigos do que amigas mas pergunta-se sempre. Mesmo os agentes perguntam como foi trabalhar com essas pessoas. Não tive nenhuma má experiência. Não posso dizer que algum desses atores é horrível. Com quem tive menos contacto foi com Brad Pitt pois foi numa altura em que ainda estava casado com Jennifer Aniston e tinha sido publicado algo sobre eles. A equipa teve de assinar um papel que garantia uma certa distância dele. Acredito que tenha sido uma decisão de agentes e não dele.

“A equipa teve de assinar um papel que garantia uma certa distância dele [Brad Pitt]”

Alcançou praticamente tudo aquilo que uma pessoa que trabalha em moda pode ambicionar. Quase que se pode dizer o mesmo em relação à representação. Sente que alcançou aquilo com que muitos apenas sonham?
É o resultado de um conjunto de fatores. E a sorte tem um papel importante. Depois, é também estar no sítio certo à hora certa. É um conjunto de coisas mas tem de existir muita dedicação, paciência e é preciso ter estômago. Todos os sins que me podem ser ditos e que as pessoas recordam destacam-se de milhões de nãos que ouvi. Uns que custaram mais do que outros porque envolvem processos de casting que demoram meses e que acabam com um não. Isso é triste. Um atleta tem como missão chegar aos Jogos Olímpicos onde pode ganhar três medalhas. Em Hollywood não existem medalhas de prata nem de bronze. Só existe o ouro, que é para quem consegue o trabalho. Ninguém quer saber quem foi a segunda melhor.

 

“Todos os sins que me podem ser ditos e que as pessoas recordam destacam-se de milhões de nãos que ouvi”

Sendo uma portuguesa que conquistou o mundo, é um motivo de orgulho ter uma prestação num filme português – Odete – que lhe valeu um prémio internacional?
Sim! Foi um grande marco profissional e também emocional. Ainda hoje sou amiga de pessoas que trabalharam comigo. Um filme não se faz sozinha. Sem aquela equipa toda não teria aquela performance. Foi um filme pesado, rodado à noite e em cemitérios reais. Não era num estúdio onde se fingia estar num cemitério. Lidava-se de perto com uma realidade muito triste. Se não fosse aquela equipa talvez tivesse pegado nas minhas coisas e tivesse ido embora (risos). Adorei o sucesso que o filme teve em Cannes.

Representar é daquelas coisas que quem faz não consegue desistir?
Sim. É como quando se gosta de uma determinada comida super deliciosa com um óptimo aspecto que se quer repetir. Já li guiões que entendi que podiam ser uma excelente experiência e outros em que achei o mesmo e que o resultado não foi nada de extraordinário. Algo que é triste e chato. Mas ninguém faz um filme sozinho e existem diversos fatores que alteram essa experiência. Quero fazer coisas em que essa experiência acabe por ser um bom resultado. Se calhar podia ter trabalhado muito mais mas sempre dei preferência à qualidade e não à quantidade.

“Podia ter trabalhado muito mais mas sempre dei preferência à qualidade e não à quantidade”

Esta aposta na representação passa por Portugal, pelos Estados Unidos ou onde existir uma boa proposta?
É onde for! Tem sido sempre assim. Desde que leia e que goste. Por exemplo, nunca fiz uma telenovela.

É uma experiência a ter em conta caso o projeto seja do seu agrado?
Não sei. Tenho medo (risos).

Como assim?
Tenho um pouco de medo. Para já é o tempo que exige. É como fazer uma série norte-americana. A pessoa assina contrato e o projeto pode durar anos. Isso assusta-me. Se depois do contrato assinado se percebe que é uma desgraça e que assim será até ao fim? Acordar todos os dias a saber que tem de se enfrentar essa realidade todos os dias. É que um filme dura no máximo quatro meses e já com atrasos. Além disso, não existe um guião fixo. Podem existir mudanças no personagem. Estarei à mercê de um grupo de escritores. Depois dão cenas para fazer dali a 15 minutos ou no dia seguinte. E se não gosto disso? Posso estar errada e é algo que ainda não fiz porque tenho um certo receio.

Qual o desafio que não hesitava aceitar?
Nunca fiz nada de época. Adorava fazer.

Portugal é a primeira opção para viver? Ou é difícil escolher entre Portugal e Los Angeles, um local especial para si?
É um bocado cá e lá. É o que tenho feito. Infelizmente cá não existe tanto trabalho a nível de cinema. Séries de televisão aparecem esporadicamente. O que reina é o universo das telenovelas. Voltamos ao mesmo. Não vou dizer que nunca farei mas neste momento assusta-me um bocado e também aquilo que algumas pessoas me contam. Por exemplo, nos Estados Unidos, depois das oito horas de trabalho, um ator recebe horas extra.

“Gostava de ter um avião particular, um barco à vela ou uma lancha e uma casa virada para o mar”. Disse isto quando tinha 29 anos. Como vão estes planos?
Avião particular não. Agora tenho medo (risos). Continuo a adorar barcos e a casa virada para o mar já está tratada (risos).

“Gostava de ter um avião particular, um barco à vela ou uma lancha e uma casa virada para o mar”

Tendo em conta os meios em que tem trabalhado ao longo dos anos, qual é a abordagem dos homens em relação a si?  Ainda por cima já disse ser muito exigente com os homens.
Acho que sim, que sou (risos). Há muitas pessoas que falam no jogo de cintura, em fazer charme e fazer de sonsa. Nunca fui assim. E se não era assim aos vinte, também não sou agora. Nem aqui nem nos Estados Unidos com as grandes estrelas. Por exemplo, no filme Miami Vice onde tive a cena com o Colin Farrell, estava a fazer a cena um pouco à brutamontes com o Colin. O realizador, Michael Mann, teve de cortar a cena diversas vezes. Vinha ter comigo e dizia para olhar para o Colin porque era charmoso e todas as mulheres o adoram (risos). Não sei se é uma defesa que tenho ou se é da minha personalidade.

Algumas mulheres sonham com casamento, vestido de noiva, filhos e família. Partilha destes sonhos?
Nunca pensei como seria o meu casamento. Aliás, poucas pessoas sabem que fui casada durante vinte meses. Não houve vestido, véu e grinalda nem igreja e amigos. Foi no registo de Beverly Hills e depois fui estudar. Não resultou e acabou. Não foram sonhos que me acompanharam. Nunca pensei em nada disso.

Como imagina os próximos cinco anos da sua vida?
Tenho por hábito viver o momento mas sempre a pensar em muitas outras coisas. Mas não faço a mínima ideia. Se há dez anos me dissessem que ia parar para estudar, diria que a pessoa estava maluca. Não faço ideia. Mas sei que estarei sempre os Estados Unidos e Portugal. Isso é uma certeza que tenho.

Texto: Bruno Seruca | WIN

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