Os motivos que levam as vítimas de violência doméstica a não saírem de casa

No nosso país, duas crianças e uma mulher foram mortas em contexto de violência doméstica nos últimos três meses de 2021, ano que terminou com registo de 23 vítimas.

Os motivos que levam as vítimas de violência doméstica a não saírem de casa

Os motivos que levam as vítimas de violência doméstica a não saírem de casa

No nosso país, duas crianças e uma mulher foram mortas em contexto de violência doméstica nos últimos três meses de 2021, ano que terminou com registo de 23 vítimas.

Para quem conheça alguém – um amigo, um colega, um familiar – a sofrer de abusos e violência doméstica, uma das maiores perguntas é por que é que simplesmente não se vão embora? A extensão do controlo coercitivo e os obstáculos práticos para deixar o lar, para além dos complexos que um sobrevivente de abuso tem de desvendar a terceiros, quatro especialistas explicam por que motivo as vítimas podem não pedir ajuda ou sentirem-se incapazes de tomar a decisão de dar o primeiro passo em direção à liberdade.

No nosso país, duas crianças e uma mulher foram mortas em contexto de violência doméstica nos últimos três meses de 2021, ano que terminou com registo de 23 vítimas, menos nove do que em 2020, segundo os dados oficiais mais recentes, de acordo com a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG). As 23 vítimas representam apesar de tudo uma diminuição de 28% face a 2020, ano em que morreram 32 pessoas, e de 34% quando comparado com 2019, em que se registaram 35 homicídios voluntários em contexto de violência doméstica.

Por que é difícil para as vítimas de violência doméstica deixarem o lar

Medo e controlo

“O controlo coercitivo é uma estratégia calculada de dominação”, explica Cassandra Wiener, professora de Direito na Universidade de Londres. “Um agressor “começa por preparar a vítima, ganhando confiança e acesso”, deixando “a vítima com medo”. Por norma, fazem-no “instigando o medo da violência física ou sexual”. “O medo é o que torna as ameaças credíveis.

Vários estudos confirmam que um agressor exercerá controlo “restringindo o acesso à família e aos amigos, a dinheiro e ao transporte, isolando a vítima”, suprimindo-lhe as formas de resistência. A vítima “passa a experimentar ansiedade constante e generalizada” – aquilo a que os psicólogos chamam de estado de sítio. Ao contrário do que muitas vezes pode supor-se – isto é, “que a vítima opta por ficar”; “que tem opções” –, “sair é realmente perigoso”. O controlo continua “mesmo depois de o relacionamento terminar”.

Alojamento, cuidados infantis, apoio e finanças

Para vítimas com filhos, muitas das vezes à urgência de sair de casa sobrepõem-se “barreiras práticas e psicológicas”, diz Michaela Rogers, professora  da Universidade de Sheffield especializada em Serviços Sociais. “O abuso económico significa geralmente que a vítima foi colocada estrategicamente debaixo de dependência financeira” e, nessa posição, “perde a confiança e a noção de que lhe falta conhecimento para gerir as suas próprias finanças e, assim, sustentar-se e aos filhos”. “Sentem culpadas por retirar as crianças aos pais, o lar, os animais de estimação e a escola. Preocupam-se por afastá-los da família e dos amigos.”

Por outro lado, “a obtenção de habitação adequada e nova escola é demasiado demorada”. Com a mudança, pode igualmente passar a haver “falta de vagas em creches a preços acessíveis ou dificuldades de transporte”. Alguns dos sobreviventes de violência doméstica “podem ter de efetuar viagens diárias ao antigo bairro para levar as crianças à escola, o que muitas das vezes acarreta o risco de que cada jornada represente o risco de um reencontro com agressor.

“As vítimas de violência doméstica imigrantes temem outro fator: o da deportação.” Podem falar muito pouco a Língua ou nem sequer falar e, nestes casos, “nem acesso a intérpretes capacitados têm”. Outro fator, psicológico e prático, é a “preocupação da gestão do dia-dia quando não têm rendimentos suficientes que lhes garantam independência ou o direito a benefícios ou acomodações apropriadas financiadas pelo Estado”.

Para os sobreviventes que se identificam como LGBTQ+, “existem inúmeras barreiras”, além das anteriormente identificadas. Podem “não reconhecer as experiências como abuso” e podem “temer serem descobertos “e preocupar-se “com a intervenção dos serviços sociais, especialmente em termos de medidas de proteção infantil”. Os indivíduos LGBTQ+ muitas vezes também não conhecem ou pensam que não são elegíveis para os principais serviços de apoio à violência doméstica. Os serviços especializados existem, mas a provisão em todo o país é muito modesta, particularmente nas áreas rurais.

As vítimas com deficiência ou problemas de saúde enfrentam ainda os obstáculos práticos, particularmente em termos de acomodação adequada. Para alguns, o agressor pode ser o próprio cuidador. Aqueles com necessidades múltiplas e complexas (como problemas de saúde mental, uso de substâncias, falta de habitação ou infração) “lutam muitas vezes para ter acesso a serviços de apoio especializados“.

Estigma e vergonha

Alison Gregory, estudiosa em populações traumatizadas e vulneráveis na Universidade de Bristol, “a violência doméstica ocorre em todas as sociedades e classes sociais e culturais. E, no entanto, “apesar das mudanças nos últimos 50 anos, estamos ainda terrivelmente impreparados” para sermos confrontados com a ideia de que este tipo de violência “acontece a pessoas como nós”.

Muitos dos sobreviventes “sentem-se envergonhados por terem sofrido violência” em casa. Podem temer que, ao decidir terminar um relacionamento abusivo, as experiências se tornem “conhecidas por outras pessoas” e que se arrisquem “a expor-se a opiniões e julgamentos externos” – e que, em última análise, serão tratados de forma diferente.

Vários estudos afunilam na certeza de que os sobreviventes “tem como maior preocupação dececionar os pais”. Da mesma forma, terminar um relacionamento abusivo significa para um sobrevivente “ter de confrontar-se com as suas próprias experiências e eventualmente pode mesmo temer ter de reviver interiormente todos os episódios por que passou”.

Amor

Professora catedrática de Sociologia na Universidade de Liverpool, Alison Gregory e Sandra Walklate entendem que “o amor pode ser uma razão incrivelmente poderosa pela qual as pessoas permanecem num relacionamento abusivo”, porque “não sentem que podem fugir ou porque fogem, mas acabam por regressar”. E é, “talvez, uma das razões mais difíceis de entender”. Os resultados de inúmero estudos mostram que “os próprios sobreviventes ficam frustrados porque o amor, a preocupação e o cuidado prestados pelo do agressor os mantiveram presos”.

Uma análise às respostas da campanha #WhyIStayed no Twitter, ocorrida no ano passado, 2021, revela como estes sentimentos “podem ser complexos“. Também “confirmam da poderosa influência que os comentários sociais sobre relacionamentos, casamento e família têm” sobre as vítimas, exemplificados em frases como “O casamento é para sempre”, “Eu não queria fugir apenas porque passámos por um momento difícil” e “As crianças precisam de um pai”.

Além do mais, o estudo revela “de igual forma o poder que as expectativas sociais sobre o romance e o amor exercem”. “A primeira vez que ele nos bate, dizemos para connosco que foi um incidente isolado, que ele está arrependido, e perdoamos, e a vida volta ao normal”, comentou outra das mulheres cujo juízo sobre a violência doméstica é distorcido. Este perdão “decorre do desejo da vítima para manter o relacionamento, como sendo o objetivo primordial da vida, mesmo à custa da própria segurança”.

Os agressores, por outro lado, “podem ser suficientemente astutos e habilidosos quando se trata de manipular os sentimentos de amor da vítima”. “Terão como premissa manipulações coercivas com ‘Se tu me amasses, farias…’. Também usam os sentimentos de cuidado e preocupação das vítimas para tentar impedi-los de sair, normalmente recorrendo a ameaças de que se mutilarão ou mesmo que se matarão” quando contrariados nas suas vontades. Os agressores “sabem que o pensamento de um dano potencial ao causará sofrimento à vítima” e possivelmente “sentimentos de culpa (ainda que “o sobrevivente não tenha feito nada de mal”).

As vítimas podem ser questionadas por amigos, familiares e profissionais e em larga maioria das ocasiões optam pelo silêncio, sem resposta a questões do tipo “Como é que podes amá-lo depois de tudo o que ele te fez”, o que também representa um perigo real. “Os sentimentos residuais, por si só, são perigosos. O amor é um forte motivador e, se não dermos permissão para que ele seja expresso, corremos o risco de alienar as vítimas e isolá-las ainda mais – que é exatamente o que os agressores querem.

 

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