Masha Amini e a luta das iranianas pela liberdade desde 1979

As mulheres iranianas lutam contra as restrições desde a Revolução Islâmica em 1979. A morte de Masha Amini lança a nova esperança de que desta vez os protestos terminem de forma diferente.

Masha Amini e a luta das iranianas pela liberdade desde 1979

Masha Amini e a luta das iranianas pela liberdade desde 1979

As mulheres iranianas lutam contra as restrições desde a Revolução Islâmica em 1979. A morte de Masha Amini lança a nova esperança de que desta vez os protestos terminem de forma diferente.

Gritos de “morte ao ditador” e “mulher, vida, liberdade” ecoam pelas ruas do Irão após a morte da mulher de 22 anos Mahsa Amini enquanto estava sob custódia da “polícia da moralidade” em Teerão.

Estes protestos têm ecos em “movimentos de resistência anteriores”, explica a iraniana Pardis Mahdavi, reitora e vice-presidente executiva da Universidade de Montana, nos Estados Unidos da América, onde está refugiada com a família desde a Revolução Iraniana de 1979. “Nas últimas duas décadas, tenho estudado questões de género e política sexual no Irão pós-revolucionário através de um trabalho de campo etnográfico no terreno. Durante cerca de 40 anos, desde a Revolução Iraniana de 11 de fevereiro de 1979, quando o aiatolá Khomeini chegou ao poder, depois de derrubar o xá do Irão Mohammad Reza Pahlavi, “as pessoas ergueram-se contra a brutalidade do regime nas áreas urbanas e rurais”. Hoje, estes protestos têm vindo a ganhar impulso e a atenção internacional, “proporcionando a muitos iranianos – dentro e fora do Irão – vislumbres de esperança”.

A resistência dos islamistas à ocidentalização

O apoio à Revolução surgiu do desejo de muitos iranianos de trazer igualdade e democracia ao Irão, que “criticaram a monarquia como sendo excessivamente divergente da dos Estados Unidos da América e ficaram frustrados com as crescentes diferenças entre ricos e pobres”. “Os islâmicos foram os mais críticos da ocidentalização, que viam como uma violação dos princípios sagrados e e que levavam os iranianos ao erro moral.” Prometeram, por isso, “devolver o Irão aos iranianos e recentrar a cultura iraniana”.

Para isso, o regime islâmico sobrepôs o seu domínio “a tudo o que acreditava estar errado sobre o Ocidente”. No topo da lista de críticas estava o que o regime via como “moral frouxa”. Esta moral frouxa foi exemplificada no “consumo de álcool” e nas mulheres “que usavam minissaias e maquilhagem carregada e exibiam cabelos e as curvas do corpo em público”.

À medida que Khomeini conduzia os islamistas ao poder, nasceu uma nova era de austeridade. Khomeini substituiu o esquadrão policial brutal do xá, SAVAK, por uma Guarda Revolucionária igualmente, “senão mais”, brutal. Acabou por criar “uma nova unidade: a ‘polícia da moralidade'”. Esta será eventualmente “melhor exemplificada na citação de Khomeini pintada em edifícios e outdoors em Teerão: ‘A República Islâmica não é sobre diversão, é sobre moralidade – Não há diversão na República Islâmica do Irão'”.

Fertilidade feminina controlada

A par das mudanças no Irão, Khomeini também conduziu o país numa guerra de uma década com o seu vizinho Iraque. Preocupados com o aumento do número de mortos resultante da Revolução Iraniana, combinado com o aumento do número de soldados necessários para a guerra Irão-Iraque, os islâmicos perceberam  a urgência de “aumentar a população, de acordo com analistas demográficos”. Assim, na década de 1980, Khomeini “instituiu uma série de políticas no Irão para incentivar as famílias a terem mais filhos”.

Como resultado, a taxa de natalidade na década de 1980 aumentou para uma média de 3,5 filhos por família, um crescimento de 30% em relação à década anterior. Dez anos depois, os islâmicos perceberam que o boom populacional precisaria do apoio do governo. A infraestrutura “teria de ser reforçada e mais empregos teriam de ser criados”. O governo protagonizou “uma reviravolta completa e substituiu a sua política por mensagens de planeamento familiar transmitidas na rádio e na televisão, incentivando as famílias a terem menos filhos”. “Cursos de educação sexual e recursos gratuitos de planeamento familiar eram impostos a todos os casais que desejassem casar-se. Em 1994, o número de mulheres sob planeamento familiar aumentou 30% em relação a 1989.”

Quando o novo milénio começou, dois terços da população do país tinha menos de 21 anos. Estes jovens nasceram na República Islâmica do Irão que Khomeini e os islâmicos criaram: “as mulheres passaram a ser obrigadas a usar longos mantos negros da cabeça aos pés, cobrindo cada centímetro e curva do corpo; as pessoas com traços mais violentos eram recrutadas para a polícia da moralidade, com a missão de observar cada movimento e qualquer fio de cabelo que escapasse aos mantos negros”. “Se os jovens fossem encontrados de mãos dadas, a participarem numa festa ou a ler um livro, eram considerados imorais pelos caprichos de um regime implacável.”

Esta geração “nunca conheceu a suposta opulência da monarquia e à medida que os seus membros se tornavam mais frustrados e mais instruídos, as críticas ao passado do Irão incutidas neles pelos islâmicos faziam cada vez menos sentido“.

O desafio à polícia da moralidade

Mohammad Khatami, que assumiu a presidência em agosto de 1997, procurou harmonizar o domínio islâmico com as necessidades de uma população em mudança e de um mundo em modernização. Os jovens, a maioria da população, encontraram a sua voz. Começaram a desafiar a polícia da moralidade, “combatendo os mantos e os lenços negros para trás, milímetro a milímetro, de mãos dadas em público e organizando reuniões espontâneas nas ruas”.

“Entre 2000 e 2007, realizei trabalho de campo etnográfico nas cidades de Teerão, Shiraz, Esfahan e Mashad, seguindo o que os jovens chamavam de Revolução Sexual do Irão. A resistência exigia um regime mais democrático, focado em resolver questões como desemprego e infraestrutura, em vez de policiar os seus corpos”. “Durante a minha investigação no terreno sobre movimentos sexuais e sociais, também tive vários desentendimentos com a polícia da moralidade e eu própria experimentei a sua brutalidade.”

A revolução desses jovens acabou por ser “travada através da linguagem da moralidade, exibindo os seus corpos, as suas escolhas de roupa, maquilhagem e penteados”. “Desafiaram a polícia da moralidade fazendo deslizar para trás os seus lenços, usando camadas de maquilhagem e roupas chamativas, dançando nas ruas e dando as mãos ou beijando-se em público.”

O governo respondeu reprimindo e apertando ainda mais o seu controlo sobre o comportamento moral dos jovens. O crescimento do número de rusgas e de açoites públicos “destinavam-se a enviar uma mensagem forte”. “Mas os jovens persistiram na sua resistência.” Em 2005, quando o candidato conservador Mahmoud Ahmadinejad foi eleito presidente, a revolução sexual “ficou sob grande ameaça”.

“Ao contrário do antecessor, Ahmadinejad “não tinha interesse em encontrar formas de trabalhar com a crescente população jovem do Irão ou em interpretações mais progressistas do Islão”. Por isso, “ordenou à polícia da moralidade reprimisse os jovens, invadindo casas e festas e prendendo mulheres nas ruas que ousassem violar as regras islâmicas”. Os açoites públicos aumentaram, assim como as prisões de académicos, feministas e jornalistas. “Os conservadores queriam enviar uma mensagem.”

Os jovens revolucionários encorajados continuaram a pressionar, exigindo mudanças. “Estes movimentos vieram à tona em 2009 quando, apesar de não receber o voto popular, Ahmadinejad foi reeleito presidente”. Liderados pelos mesmos jovens que resistiram à polícia da moralidade durante a revolução sexual, “um novo movimento nasceu logo após as eleições de 2009 – o ‘Sabze’, ou Movimento Verde“. “As pessoas foram para as ruas do Irão gritar – ‘Onde está o meu voto?’ – e ‘não é o meu presidente’.”

“Um momento catalisador para este movimento foi o assustador assassinato de Neda Agha-Soltan. Foi executada em junho de 2009, simplesmente por estar numa das manifestações onde ocorreu um dos confrontos mais sangrentos entre manifestantes, entre a Guarda Revolucionária e a polícia da moralidade. A sua morte foi gravada e partilhada pelo Mundo.’

No 40.º aniversário da Revolução Iraniana, em 2019, as ruas do Irão estavam novamente vez cheias de resistentes, “muitos dos quais participaram em protestos de rua desde o início dos anos 2000”. “Estes mesmos filhos da revolução e da guerra Irão-Iraque organizaram iniciativas como o #MyStealthyFreedom, que mostrava mulheres fotografando-se sem véus em público no Irão e juntando-se ao movimento global #MeToo.

Exigindo responsabilidade

Em 2019, o desencanto com o regime tinha-se espalhado desde os jovens altamente educados nos centros urbanos até muitas das famílias mais religiosamente devotas em algumas áreas rurais que, antes, tinham sido apoiantes do regime. Os iranianos de todas as origens que enfrentam o aumento dos preços do petróleo e o desemprego como resultado de anos de sanções estavam cada vez mais a perderem a fé no seu governo. “Muitos já não endossavam a retórica sobre a restauração da ordem moral.”

Os protestos de rua de hoje estão ocorrem em mais de 50 cidades de todo o país e atraíram a atenção e o apoio da comunidade internacional. “Estes movimentos são tanto um refrão de protestos passados ​​quanto uma renovação de coragem e de esperança”, constata Pardis Mahdavi.

Tal como no passado, desde 16 de setembro de 2022, que os ativistas saem à rua “para desafiar um regime imerso numa retórica de moralidade duramente interpretada, em vez de governar com as melhores intenções do povo”. “E, como nos protestos de 2009 e de 2019, pedem a responsabilização das deficiências do governo, além de destacarem a pobreza que assola o país – juntamente com a dor do povo.”

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