Vamos lá falar honestamente de “Amar pelos Dois”

Vamos lá falar honestamente de “Amar pelos Dois”

Este texto remete exclusivamente para a música de Salvador Sobral, “Amar Pelos Dois”. Se ele é esquisito em palco, se tomou drogas, se tem um carrapito à Éder, se usa blazers três números acima, esses são assuntos para as redes sociais.

No meio do histerismo exacerbado com Salvador Sobral e a sua participação no Festival da Eurovisão deste ano, tenho notado que quase ninguém fala da música que o levou ao evento. Aquela balada melancólica, com toques de jazz antigo e perfume à La La Land, de seu nome “Amar pelos Dois”.

Começo por aquilo que me parece óbvio. Há muito tempo que não se ouvia algo semelhante no nosso país. A orquestra dá-lhe o toque hollywoodesco que vimos recente na obra de Damien Chazelle e que pôs Ryan Gosling e Emma Stone a dançar e a cantar no grande ecrã. Esse paralelismo é uma mais-valia para a música do jovem português que fica a ganhar com as emoções ainda latentes de um dos filmes mais polarizados dos últimos anos. Já sabíamos que o amor é lindo. Agora sabemos que podemos amar por dois.

Fluente, encantador, sem devaneios. Salvador Sobral já tinha mostrado os seus dotes vocais com “Excuse Me”, álbum que lançou o ano passado

Pelo meio dos pianos e violinos, a voz de Salvador sobressai com o devido valor. Fluente, encantador, sem devaneios. O jovem já tinha mostrado os seus dotes vocais com Excuse Me, álbum que lançou o ano passado, que pouco sucesso teve no nosso país. Quem ouviu este primeiro trabalho de Salvador não ficou surpreendido com o que o cantor fez no Festival da Canção.

É indiscutível que tem um talento vocal que assenta como uma luva no estilo musical que escolheu para a sua carreira – o jazz – e que, como ele, existem poucos em Portugal. Aliás, o jazz no nosso país é um nicho musical a que muito poucos dão valor ou, arrisco-me a dizer, sabem que existe, está vivo e tem muita gente talentosa.

Agora, não consigo deixar de dizer algo. A letra de Amar Pelos Dois parece algo tirado de um livro de Pedro Chagas Freitas onde a lamechice anda de mãos dadas com a expressão natural de amor.

“Se um dia alguém perguntar por mim / Diz que vivi para te amar / Antes de ti, só existi / Cansado e sem nada para dar.” Bem sei que frases feitas são bem bonitas de se ler – então cantadas parecem gelados de morango no verão –, mas não consigo deixar de sentir que Luísa Sobral (a autora) escreveu uma canção que é um rol de lamechice capaz de aborrecer até o mais aborrecido dos portugueses e tenho a sensação de que nos casamentos que se avizinham vamos ouvir esta música muitas vezes. Assentem nestas palavras.

No meio desta amálgama de “morte por sono”, a canção “Amar Pelos Dois” de Salvador Sobral foi muito bem escolhida para nos representar na Eurovisão

No meio desta amálgama de “morte por sono”, a canção de Salvador Sobral foi muito bem escolhida para nos representar na Eurovisão. Lembro-me de que quando a interpretou cá foram muitos os críticos – os de sofá e outros – que arrasaram o rapaz dizendo exactamente o que escrevi em cima. “É isto que vamos levar para a Eurovisão? Não merecíamos”, li eu. Merecemos sim.

Ao contrário de outras edições, a RTP apostou este ano num formato onde a música ganhou primazia em relação a luzes, coreografias, batidas techno dos anos 90 e efeitos especiais feitos na Amadora. Essa aposta foi claramente vencedora.

Escolhemos levar um cantor com uma música, embora aborrecida soa mais real que tantas outras em anos anteriores, para um festival onde quase tudo é falso. No meio da parafernália de roupas estranhas, luzes que podiam encandear um estádio, batidas irritantes, coreografias com macacos, homens com cabelo que parece uma corda de três metros, escolhemos levar um rapaz que canta bem, em português, com uma música tão simples e básica que automaticamente sai daquilo que é o banal da Eurovisão.

Quando o nível da competição é baixo, não precisamos de muito para nos destacarmos

Quando o nível da competição é baixo, não precisamos de muito para nos destacarmos. E foi isso que fizemos com Amar pelos Dois. Sejamos sinceros, a música não é nada demais. Quando comparada com as restantes adversárias soa a uma ópera de Verdi.

Estamos mais interessados no Salvador como pessoa do que na canção que interpreta. Na camisola a chamar a atenção para os refugiados. Nas caretas que faz quando está à frente de uma câmara de televisão.

Ironicamente, olhamos para Salvador Sobral como olhamos para o Festival da Eurovisão: as músicas não interessam tanto como o espectáculo em si.

Dito isto, espero que agora tenham o condão de ir ouvir Excuse Me.

Filipe Carvalho
Filipe Carvalho


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