Dia Mundial da Prematuridade | «O meu milagre tem nome. Chama-se Ema»

Dia Mundial da Prematuridade | «O meu milagre tem nome. Chama-se Ema»

Hoje, no Dia Mundial da Prematuridade, não podemos esquecer que a luta de um prematuro não acaba quando tem alta. Há consultas, exames, tratamentos, mas falha o acompanhamento periódico e domiciliário
Texto de opinião da jornalista Cynthia Valente

Quem não acredita em milagres é porque nunca visitou uma unidade de cuidados neonatais, onde a grande maioria dos bebés internados nasceu prematuramente. E em Portugal nascem 17 «milagres» por dia, o que nos coloca no topo da tabela dos países europeus com a maior taxa de bebés pré-termo (8%). O meu milagre tem nome. Chama-se Ema. Está «quase a fazer quatro anos» – como diz orgulhosamente – e faz jus ao apelido Valente.

Ela, como tantos outros, nasceu e só percebeu que já não estava na barriga da mãe dias depois do parto. Ela, como a Teresinha, o Miguel e tantos outros bebés que partilharam a mesma luta no CMIN (Centro Materno Infantil do Norte) é uma guerreira que travou uma batalha com um final feliz. Uma batalha que não lhe deixou marcas, mas que lhe contarei um dia. Porque a história de cada um dos “nossos prematuros” merece e deve ser contada.

Quando vê as fotografias na incubadora a que chama «caixinha», fá-lo com uma alegria inocente, ainda sem noção de que ali viveu momentos muito duros. Ela e «os outros meninos e meninas» tiveram de aprender os instintos mais básicos de sobrevivência. Um prematuro tem de aprender a respirar, a mamar (não tem reflexo de sucção) e a esperar que o coração e outros órgãos percebam que chegou a hora de trabalharem sozinhos. Têm mesmo de viver «um dia de cada vez».

Os profissionais de saúde que lhe salvaram a vida e que todos os dias repetem, com o mesmo amor e profissionalismo, a mesma rotina milagrosa pedem aos pais que assim o façam e que vivam «um dia de cada vez». Mas chegará o dia em que o pai e a mãe já não contarão as gramas (aquelas 30 diárias tão necessárias para engordar e ir para casa) e poderão dar colo, mimo e amor sem barreiras. Sem incubadora, sem tubos, cateteres, sem máquinas a monitorizar o batimento cardíaco. Nesse dia, tudo o que passaram e que lhes virou o mundo do avesso será apenas um episódio de uma vida repleta de alegrias e de saúde.

Hoje, no Dia Mundial da Prematuridade, não podemos esquecer que a luta de um prematuro não acaba quando tem alta. Há consultas, exames, tratamentos, mas falha o acompanhamento periódico e domiciliário. Levar um prematuro a um centro de saúde para, por exemplo, ser pesado acarreta riscos. Muitos ainda não têm todas as vacinas obrigatórias porque não atingiram o peso necessário para serem ministradas e um simples resfriado pode levar a graves complicações respiratórias. O que é rotineiro para bebé de termo (nascido a partir das 37 semanas) é um desafio para um prematuro. E se a luta não acaba para os bebés quando chegam a casa, a dos pais, também não. Os pais também precisam de colo e de não ouvir frases ou perguntas proibidas. «Tão pequenino que é»; «parece que nasceu agora»; «Quanto pesa?» podem ser trocadas por «posso ajudar?» ou «o bebé é lindo e saudável».


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