De onde vem e para onde vai Bruno de Carvalho?

Em dia de eleições para o Sporting pós-presidência que terminou com a destituição e suspensão de Bruno de Carvalho, onde o «presidente em medo» poderá ser alvo de efetiva atenção no futuro?

De onde vem e para onde vai Bruno de Carvalho?

De onde vem e para onde vai Bruno de Carvalho?

Em dia de eleições para o Sporting pós-presidência que terminou com a destituição e suspensão de Bruno de Carvalho, onde o «presidente em medo» poderá ser alvo de efetiva atenção no futuro?

Apaixonado pelo Sporting desde que se lembra, colocando o clube acima e contra tudo e todos. Bruno Miguel Azevedo Gaspar de Carvalho jamais será esquecido na história do desporto português como o 42.º presidente do emblema leonino. Tem 46 anos, nasceu a 8 de fevereiro de 1972 na região de Lourenço Marques, em Moçambique.

É, portanto, do signo aquário. Sinais do zodíaco não parecem mentir quando falamos de Bruno de Carvalho. Por tendência são recetivos à inovação, empenhados, mas são invulgares pela agitação e critica que criam em volta de si.

O sócio n.º15.331 do Sporting – que se encontra atualmente suspenso – tem no currículo uma enorme ligação às áreas da economia/finanças/gestão e desporto. Tem uma licenciatura em gestão pelo Instituto Superior de Gestão da Universidade Lusófona e um mestrado em em Gestão do Desporto de Organizações Desportivas pela Faculdade de Motricidade Humana e pelo Instituto de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa. A par da academia, tem formação de treinador: nível I pela Associação de Futebol de Lisboa e nível II pela UEFA.

A nível familiar – com todos os avanços e recuos nos tribunais com três antigas companheiras e das filhas que teve com cada uma delas – e profissional, Bruno de Carvalho também acumulou várias tarefas ao longo da vida. Esteve ligado entre 1992 e 2008 nas seguintes empresas: Reviloc (Director Comercial – 1992-1994); “Bruno de Carvalho, Revestimentos, Soluções de Interior e Representações Comerciais (sócio-gerente 1996-2009); “Polibuild, Construção Civil” (sócio-gerente 2001-2005) e da “Soluções Atelier, Carpintaria Mecânica” (sócio-gerente 2002-2005). De 2009 a 2013 passou a dedicar-se à Fundação Aragão Pinto, da qual é Presidente do Conselho de Administração.

Simultaneamente era um membro bastante ativo do universo Sporting, pois foi o avô e o pai, segundo várias entrevistas que concede, lhe transmitiram essa paixão desmesurada. Fez parte da principal claque dos «leões», a Juventude Leonina, entre 1985 e 1990, e também da Torcida Verde até, sensivelmente, se candidatar pela primeira vez ao cargo de presidente do Sporting em 2011.

Reunindo as duas vertentes, Bruno de Carvalho tinha e ainda tem uma notória popularidade entre sportinguistas de vários estratos da sociedade. Isso impulsionou Bruno a querer marcar a diferença numa altura em que se ansiava que o Sporting – pelo menos no futebol – demonstrasse outra força perante os rivais mais diretos. No entanto, o clube sempre se mostrou inserido em várias crises internas. Em 2011 concorre às eleições, mas perdeu para Godinho Lopes. Este presidente não conseguiu trazer o sucesso desportivo desejado ao Sporting, bem como não teve pulso para controlar as dívidas que o clube tinha, onde surgem figuras como Álvaro Sobrinho – e a Holdimo que detém percentagem da SAD – e José Maria Ricciardi, banqueiro que teve de mais tarde colaborar na renegociação do que o clube devia.

Nas eleições de 2013, Bruno de Carvalho surge novamente, foi novamente candidato e leva a melhor no sufrágio tornando-se no 42.º presidente do Sporting, com mais de 35% dos votos. Antes, Bruno já era uma figura reconhecida na estrutura do clube. foi vice-presidente da secção de Hóquei em Patins do Sporting, vice-presidente da Associação de Patinagem do Sporting, fundador e presidente da Fundação de Solidariedade Social Aragão Pinto, fundador do website Centenário Sporting, membro ativo dos Leões de Portugal e treinador de crianças em escolas de futebol.

As principais ‘bandeiras’ do trabalho de Bruno de Carvalho foram o alegado regulamento das contas do Sporting que permitiu a construção do Pavilhão João Rocha – inaugurado em junho do ano passado – o reforço desportivo e financeiro nas modalidades e o investimento mais forte no futebol que culminou com a contratação do treinador Jorge Jesus após sair do Benfica em 2015.

Mas terá isso superiorizado a todos os inúmeros casos em que o próprio dirigente se envolveu e causou? As opiniões dividem-se, pois, ainda hoje há quem apoie o agora ex-Presidente do Sporting muito por demonstrar que fará tudo pelo clube, ostentando um discurso sempre ofensivo perante os rivais, quer maiores ou mais pequenos.

Tudo parecia bem. Dos estádios para internet, o Facebook foi-se tornando a praça pública da sociedade portuguesa e podemos responsabilizar Bruno de Carvalho nisto.

Em 2016 foi acusado pelo presidente do Arouca de lhe ter cuspido no túnel de acesso aos balneários do estádio de Alvalade. As imagens dos túneis são inconclusivas, mostrando claras provocações de Bruno de Carvalho, mas dando a ideia de que este não cospe no presidente do Arouca.

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Em março de 2018, chamou a António Salvador, presidente do Sporting Clube de Braga “labrego, trolha e aldrabão!” e afirmou que este “adora ser o Presidente do Benfica B”, clube que também – a par do FC Porto e Pinto da Costa – foram um dos grandes alvos na rede social. Também este ano, Bruno de Carvalho deixou um post no Facebook aos futebolistas do Sporting depois de perder em Espanha contra o Atlético Madrid na Liga Europa. Os atletas reagiram e ameaçaram fazer greve nos compromissos seguintes. Depois disto, o desagrado entre adeptos com o clube continuou a afetar os jogadores, após o Sporting ter perdido o último jogo do campeonato, na Madeira, frente ao Marítimo, e falhar o acesso à Liga dos Campeões para esta temporada.

Do aeroporto do arquipélago para os incidentes na Academia de Alcochete a 15 de maio e das suspeitas no caso Cashball, deu-se um volte face de muitos sportinguistas para Bruno de Carvalho. O ex-presidente foi ficando mais exposto ao longo dos anos a todos os níveis.

A dezembro de 2017, o Jornal de Negócios contou que Bruno de Carvalho tinha três prédios penhorados pelas finanças. A dívida em causa era superior a um milhão de euros. Mais tarde, em março de 2018, o jornal Correio da Manhã avançou que Bruno de Carvalho tinha elevadas dívidas ao fisco: cerca de 3,3 milhões de euros distribuídos em quatro processos de execução fiscal. A mesma publicação avançou que, em 2008, o ex-dirigente esteve envolvido em processos de atraso no envio das declarações de IRC nos anos 2004, 2005 e 2006 quando era gerente da Polibuild, empresa de construção civil. Um depois foi substituído desse cargo pela mãe, Ana Paula Araújo de Azevedo Gaspar de Carvalho.

Depois de muita polémica, em 23 de junho de 2018 foi realizada uma Assembleia Geral do Sporting, na Altice Arena, no Parque das Nações, em Lisboa, para a destituição da presidência de Bruno de Carvalho. Votaram 14 735 sócios. A favor da destituição votaram 71,36% dos sócios, perante os 28,64% que optaram pela não destituição.

Horas mais tarde, a 24 de Junho, publicou uma mensagem na sua página Facebook afirmando que não mais seria sócio e adepto do Sporting. No entanto, em menos de 14 horas, Bruno de Carvalho voltou atrás com a sua decisão. Bruno de Carvalho afirmou que número de associados esteve sempre em crescendo no Sporting, entusiasmados com a sua gestão. 170 376 sócios, assegurava o dirigente, a 30 de abril de 2018, garantindo que nunca ninguém tinha conseguido reunir tanto consenso à volta de um clube desportivo.

As contas feitas pela Comissão de Gestão que teve de preparar os cadernos para o ato eleitoral de 8 de setembro de 2018 mostram que foi tudo uma farsa. São apenas 90 mil os sócios do Sporting e são pouco mais de 50 mil os que podem votar. Os 80 mil ‘sócios -fantasma’ são sócios que morreram, outros tantos que não pagam quotas há mais de 20 anos, ou mesmo alguns com números repetidos.

O Sporting tem quase metade dos sócios que Bruno de Carvalho apregoou, numa tentativa de mostrar que os sportinguistas jamais se tinham sentido tão próximos do clube.

Apesar disto, e por tecnicamente estar afastado do próximo ato eleitoral no Sporting (o primeiro desde as últimas três eleições que ocorreram, mas ainda há providência cautelar em decisão), Bruno de Carvalho é uma influência forte na decisão de muitos sócios à hora de ir às urnas. Há poucos dias fez questão de dizer o que pensa sobre cada um deles, novamente, na rede social Facebook e não só: também agora no Twitter e Instagram.

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Fonte: Sporting CP
/ Dados sondagem: Record/CM/CMTV

Bruno de Carvalho faz uma analogia caricata a estas eleições. “Estas eleições fazem-me lembrar aqueles serões em famílias onde estão os Tios, os Sobrinhos e os emplastros. Jogam às cartas mas com um baralho viciado e por muito que se baralhe são sempre as mesmas cartas a cada um. Confuso, cada família tem esta constituição e os malabarismos são inerentes à condição se ser humano. É mais forte.” O dia 8 de setembro nas imediações de Alvalade será aquela “noite [em que] o Tio sentou-se à cabeceira e sob a batuta do Sobrinho que não estava presente mas tinha de controlar o jogo”.

João Benedito, 37.7% – BdC não poupa nas críticas aos “métodos” do histórico guarda redes de futsal do Sporting, onde apresenta como trunfos várias figuras que o apoiam como Peter Schmeichel e foi pedir “inspiração” ao Bayern de Munique quando já fortemente criticou o clube. Além disso, Bruno de Carvalho acusa-o de hipocrisia no Facebook: “Quanto a mim Benedito disse-me pessoalmente e por mensagens, quando ele ainda jogava, que quando perdiam queria que eu fosse ao balneário “mandar vir com eles”, que eles precisavam e era melhor do que me verem de má cara… Agora como bom hipócrita diz que ele quer fazer diferente e não como eu fazia pois eu interferia muito… Eu fazia com que ganhassem muito, isso sim. Era um farol que com a exigência de Atitude e Compromisso fez-nos ganhar muitos títulos. Não lhe saiu bem e foi um tiro no pé direito.”

Frederico Varandas 36,2% – Chefe do departamento clínico do futebol do Sporting até à última temporada, Bruno de Carvalho alonga-se bem mais especialmente sobre o que aconteceu na Academia em maio. “Varandas, o emplastro dos pensos rápidos e da “guerra” de bastidores, também foi apresentando os seus trunfos […] Mas Varandas tem lançado trunfos atrás de trunfos. Foi buscar a “mãe” de 20 anos de horror no Clube. Os pais eram os presidentes do CD e ele como Presidente “eterno” da MAG Rogério Alves era a mãe. Esse sim teve todos os motivos para fazer, nesses 20 anos, o que acabou por acertar com Jaime Marta Soares fazer-me a mim. Claro que depois de acordos com todos os seus famosos clientes. Mas Varandas jogou um trunfo pesado, foi buscar Miguel Albuquerque para dizer “não valho” nada, nunca liguei nenhuma às modalidades, bem como às equipas médicas que supostamente liderava para as mesmas, mas pelo menos este ganha e leva atrás alguns crentes… Miguel Albuquerque usado quebra todas as regras de funcionário mas até percebo pois a “necessidade” faz o “engenho”. Mas a Varandas saiu um resto de jogo pobre… Jogou tudo mas o bluff começa a não resultar. Está mais que percebido que Varandas escondeu-se durante os acontecimentos de Alcochete mas no final fez um vídeo a rir-se e a pedir para filmarem as fivelas, sendo que esse vídeo mais a foto da cabeça de Bas Dost saiu 5 minutos depois para a CM. As desculpas em cada Núcleo que vai, têm com resposta, o riso ou o desprezo. Não “colam” as mentiras. Jogou tudo, ficou sem jogo para continuar.”

José Maria Ricciardi 14,4% – “Quem oferece e quem aceita… Lesou quase todos os portugueses, quando saiu, empurrado da Haitong, os chineses descobriram que o prejuízo afinal era o triplo do que ele dizia. Perdeu, por ordens do Banco de Portugal, a licença de poder ser banqueiro… mas diz que foi o melhor de 2016… o melhor amigo do Tio é o [Álvaro] Sobrinho. O Tio não teve filhos e por e isso é muito chegado ao Sobrinho.”

Dias Ferreira 7% – O “às de trunfo. Um institucionalista por natureza, tendo já saído de um programa de TV aos empurrões a um dos colegas e abandonando outro a meio. Uma forma vintage de escrever no Facebook posts criticáveis mas com a máxima “uma imagem vale mais que mil palavras”. Ele não escreve, envergonha em directo e ao vivo. Contrariado sai de uma sala esteja quem tiver. O Senhor diplomacia! Mas havia que fazer uma equipa e vai buscar dois trunfos ex-Bruno […] Foi-lhe dada a oportunidade de ficar responsável por algumas Modalidades nomeadamente o Andebol [no tempo da liderança de BdC] Aceitou a tarefa mas nada fez. É o ser mais falante mas menos actuaste que já vi. Constantemente a mandar prints de textos de outros sobre filosofia mas trabalhar ficava para os outros.”

Rui Jorge Rego 1,7% – “tem um programa cheio de chavões comuns e escolhe para liderar a SAD um sócio do Sporting que é do Benfica… Paulo Lopo. Mas isso no nosso Clube até não é virgem… Vieira foi sócio pelo menos 11 anos… por causa das costas… este deverá ter outra causa medicinal.”

Fernando Tavares Pereira 1,6% – “aquele emplastro bonzinho que todos gostam. É ”querido” […] paga para as pessoas estarem presentes nos seus almoços e jantares… Apenas quer tirar, estragar o meu jogo, retirando-me cartas sem eu ver, dizem “fontes próximas” pois sabe que nunca ganhará, nem de perto, mas, tem uma missão a cumprir neste jogo ensaiado ao milímetro.

Pedro Madeira Rodrigues, entretanto, desistiu da sua candidatura para apoiar Ricciardi.

Com isto, fechou-se um ciclo no Sporting se Bruno de Carvalho estiver efetivamente afastado de toda a atividade do clube de Alvalade até como adepto? Para onde irá Bruno com ou sem o Sporting?

Texto: Francisco Correia | Fotos: DR

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