Professor de Beja acusado de assediar alunas ao longo de pelo menos 10 anos

Francisco Limpo Queiroz desmente as acusações que lhe são dirigidas pelas alunas da escola onde continua a lecionar, em Beja. Irina, uma das alegadas vítimas, espera “que alguém faça alguma coisa face a tudo isto”.

Professor de Beja acusado de assediar alunas ao longo de pelo menos 10 anos

Francisco Limpo Queiroz desmente as acusações que lhe são dirigidas pelas alunas da escola onde continua a lecionar, em Beja. Irina, uma das alegadas vítimas, espera “que alguém faça alguma coisa face a tudo isto”.

Francisco Limpo Queirozprofessor de Filosofia de 64 anos na Escola Secundária Diogo de Gouveia, em Beja – está a ser acusado de assédio sexual a alunas, algumas menores. As alegadas vítimas expuseram ao nosso site mensagens que receberam do docente e relatam-nos episódios de abusos verbais que terão sofrido.

As denúncias surgiram no seguimento de uma publicação no Facebook em que o professor responsabiliza o sexo feminino pelo assédio sexual existente, deixando críticas à forma como várias raparigas se apresentam. A propósito de notícias sobre alegados casos de assédio a jovens de Beja por parte de imigrantes, Francisco Limpo Queiroz reage de forma que viria a provocar a reação destas alunas. “A culpa é dos indianos ou das meninas atiradiças?” Além desta questão, o professor recorda ainda um momento em que “ao entrar numa escola” se terá deparado com “uma menina de uns 16 anos, muito maquilhada com um decote excessivo que deixava metade dos seios à mostra”. “Fiz um reparo. Ela ficou atrapalhada.”

As reações à publicação foram de indignação e, colocando este professor na ribalta, instaram as alunas assediadas a falar pela primeira vez. Irina, de 24 anos, foi uma das primeiras a insurgir-se contra o texto. Colocou imagens das mensagens que este docente lhe terá enviado ao longo de 2018, há três anos, enquanto não se viu “obrigada a bloqueá-lo”. “Não acho normal este tipo de publicações, ainda por cima, vindas de um professor de Filosofia. Nunca fui aluna dele, durante os três anos em que frequentei a escola, mas conheço várias que sofreram de assédio por parte deste senhor. Inclusive eu.

“Durante um longo período, fui confrontada com este tipo de mensagens. Admito que na altura ria-me. Depois de ler a publicação dele, percebo a gravidade da situação. Acredito que, tal como eu, muitas outras raparigas passaram ou continuam a passar pelo mesmo. Tenho grande esperança que isto chegue aos ouvidos de muita gente e que alerte a sociedade para este tipo de casos e comentários tão comuns, mas quase nunca abordados. Enquanto culparem as vítimas em vez dos agressores, não teremos este problema resolvido”, pode ler-se no texto a que o Portal Impala teve acesso.

«Você é mesmo linda…»

[“talvez sentisse amor e fugíssemos para Kiev uma semana” – mensagem que Francisco Limpo Queiroz terá enviado para Irina]
“É uma deusa e não posso ter ilusões. Gostava de namorá-la durante um ano”, disse-lhe o docente em abril de 2018. Um mês depois, voltou a enviar mensagens de teor semelhante. “Que pena não a ter visto hoje, ó bela das belas”, “talvez sentisse amor e fugíssemos para Kiev uma semana”. Estas são algumas das mensagens que Irina recebeu de Francisco Limpo Queiroz.

Beatriz Torres tinha em 2016 15 anos. Agora, passados cinco anos, deixa-nos o seu testemunho. Apesar de “não ter sido importunada” nas redes sociais, diz que, sistematicamente, lhe eram dirigidos “comentários pouco próprios” por parte deste docente. “Sempre que se cruzava comigo dizia que ia casar-se comigo porque queria uma menina jovem. Dizia-me ‘você é mesmo linda’…”

Beatriz confessa que o episódio mais inquietante deu-se no baile de finalistas, alguns anos depois dos primeiros comentários que confessa ter recebido. “Foi o pior. Falou o tempo todo comigo a olhar-me para o peito. Foi dos momentos em que me senti mais desconfortável.” Agora com 20 anos, lembra-se de que os comentários aconteciam “em quase todas as aulas”. “Comigo, ele tinha mesmo uma panca. Era sistemático. Toda a gente na turma dizia que ele tinha uma panca comigo.”

As alegadas vítimas com quem falámos não têm qualquer dúvida de que existirão “muitas mais raparigas” alvo do professor. Algumas confessam terem ainda “receio de falar” por continuarem a ter Francisco Limpo Queiroz como professor. Uma das jovens revela que chegou a ser “acariciada no cabelo”. Os vários relatos que nos vão chegando convergem em vários pontos. “Gostava de se exibir e de chamar a atenção”, “gostava de se vestir de mulher”, “frequentava os mesmos sítios que nós, bares, cafés”…

Nas aulas de Filosofia, “era costume” ouvi-lo dizer, como viria a reiterar no Facebook (num texto que acabou eliminado), que “as mulheres é que provocavam os homens”. Nas aulas, comentários sobre o uso de decotes e minissaias “eram constantes”. “Dizia-nos nas aulas coisas como o sexo anal ser mau. Dava-nos matéria estranha”, revela uma das ex-alunas.

«Há meses que não deixo de pensar em ti, na tua beleza e doçura maravilhosa»

[“Amo a imensa beleza do seu rosto e do seu pensamento livre. Sim, amo-a” – mensagem que Francisco Limpo Queiroz terá enviado para Rita]
Rita tem 31 anos e também ela é antiga aluna de Francisco Limpo Queiroz. “Com 26 começaram as mensagens”, revelando que sentiu-se constrangida quando recebia no seu perfil de Facebook aquilo que lhe pareceu mais do que simples elogios, tanto que se via impelida a apagá-las de imediato: “Tudo o que ele escrevia para mim andava à volta da Deusa Vénus”. Rita não se recorda de quantas vezes o professor a comparou à deusa conhecida na mitologia romana por representar a Formosura e o Amor.

“Amo a imensa beleza do seu rosto e do seu pensamento livre. Sim, amo-a.” A estas mensagens, seguiram-se “convites para tomar café e o número de telemóvel”, mostra Rita. “Convenci-me (que estupidez a minha) que se ia apaixonar por mim e íamos sair juntos à feira de Castro Verde” é outra das mensagens que a antiga aluna diz ter recebido.

[“Amo-te e quero que sejas minha mulher. Não digas a ninguém” – mensagem que Francisco Limpo Queiroz terá enviado para uma ex-aluna]
Outra ex-aluna, que prefere o anonimato, engrossa o rol de queixas. “És uma pessoa especial”, “há meses que não deixo de pensar em ti, na tua beleza e doçura maravilhosa (por favor, não contes isto a ninguém), não tenho culpa do que sucede. Casava-me contigo em segredo”, insistiu. “Amo-te e quero que sejas minha mulher. Não digas a ninguém.”

Francisco Limpo Queiroz teria formas de tratamento diferentes para raparigas e para rapazes. “Foi meu professor cerca de três meses”, lembra um ex-aluno do curso de Artes. “As meninas bonitas ficavam nas mesas da frente. Fazia questão de as mudar para lá. A nós, rapazes, bastava fazermos algo de que não gostasse e expulsava-nos da sala. Muitas vezes sem falta, para não reclamarmos.”

Professor de Beja nega acusações [ouça o telefonema em baixo]

Contactado pelo Portal de Notícias Impala, Francisco Limpo Queiroz desmente as acusações que lhe são dirigidas. “Isso é tudo falso. Eu nunca tive queixa nenhuma de alunos. Há conversas… enfim. Neste momento, essa acusação deriva de um facto muito simples. É que eu publiquei uma coisa no Facebook a dizer que as meninas deveriam cobrir-se mais e não ser muito ousadas nas roupas. Nada mais tenho a dizer.”

A Escola Secundária Diogo de Gouveia “está a tomar os trâmites que deve tomar de acordo com a lei”, diz, na ausência do diretor, o subdiretor José Manuel Alves Ferro. “Não vou comentar mais nada.” O Ministério da Educação foi contactado, mas remete o assunto para o Gabinete de Comunicação do Sr. Ministro da Educação, de quem aguardamos resposta. Francisco Limpo Queiroz, de 64 anos, “vai reformar-se para o ano e pouco ou nada vai mudar”, teme Irina. “Espero que alguém faça alguma coisa face a tudo isto”, conclui.

Texto: Tomás Cascão [com Luís Martins]
Fotos: Direitos de imagem reservados

Impala Instagram


RELACIONADOS