Praga de pombos no centro de Lisboa cria «problema de saúde pública»

«Centenas de pombos» concentram-se numa zona residencial de Lisboa devido à existência de um ‘pombal ilegal’. Desamparados pela Câmara Municipal de Lisboa e pela Delegação de Saúde, o «terror» de quem lida com a situação há dez anos.

Praga de pombos no centro de Lisboa cria «problema de saúde pública»

«Centenas de pombos» concentram-se numa zona residencial de Lisboa devido à existência de um ‘pombal ilegal’. Desamparados pela Câmara Municipal de Lisboa e pela Delegação de Saúde, o «terror» de quem lida com a situação há dez anos.

Centenas de pombos nos parapeitos. Fachadas sujas. Telhados infestados de excrementos.Janelas fechadas. Mármores com dejetos. Vizinhos com medo de falar e um desespero «imensurável». Foi este o cenário que o Portal de Notícias presenciou quando visitou um edifício em Alvalade, no centro de Lisboa.

Ao tentar falar com alguns dos moradores sobre o número abismal dos animais que ali se encontravam, é notável a frustração e a hesitação em falar «com medo de piorar a situação». «Quando se vê centenas de pombos em cima do telhado e nas varandas dos andares… é uma coisa muito assustadora», começa por explicar-nos um dos vizinhos.

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A grande afluência de pombos nas cidades – Columba Livia – pode trazer graves problemas de saúde pública e é disso mesmo que os vizinhos se queixam. O contacto com fezes, ectoparasitas e penas pode causar problemas alérgicos a nível respiratório e outros. Podem ainda transmitir doenças como Salmonelose, Criptococose e Ornitose – especialmente aos grupos mais vulneráveis da população (crianças, idosos e imunodeprimidos).

Caso disso é Joana – nome fictício para proteger a identidade de um queixoso – que vive num prédio no centro de Lisboa rodeada de «centenas de pombos», uma vez que a proprietária de alguns desses andares, o 2.º e 3.º, decidiu transformar apartamentos num autêntico pombal.

«Fui ao médico, fiz exames a tudo e não havia maneira de descobrir o que se passava. Até que me perguntou se tinha contacto com pássaros. Contei-lhe a situação e ele disse-me “Deixe de ter pássaros, que deixa de ter isso”», conta. A situação leva a que tenha de tomar medicação para, em vão, mitigar problemas respiratórios. «Não me faz nada. Ainda esta noite tossi tanto, tanto. É uma desgraça», revela, assumindo que não muda de casa porque «a reforma não chega para pagar mais».

Ao entrar na casa de Joana, todos os acessos ao exterior estão fechados. Não há ponta de ar, nem raio de sol que entre pela casa e é com tristeza que nos conta. «Não posso estender roupa. Não podia fazer comida, porque caíam dejetos. Tive de tapar a parte do exaustor. Não posso ir à janela. Tem de estar sempre tudo fechado, para não entrar pombos. Uma vez deixei um bocadinho aberto e quando cheguei a casa estava cheia de porcaria.»

A situação dura há cerca de dez anos. Já foram feitas várias queixas junto das entidades responsáveis. «A primeira queixa que fiz foi à Delegação de Saúde Pública, em 2010. Depois, tive conhecimento de que já existiam sinalizações camarárias relativamente a isto», conta Rodrigo – também nome fictício –, outro dos principais afetados pela praga de pombos.

«Caem dejetos e pedaços de pombos mortos»

Além das questões de saúde, o «problema» torna a vivência intolerável no prédio, onde num único apartamento vivem «centenas de pombos». «Tenho um logradouro e não posso utilizá-lo. Está permanentemente infestado de dejetos. Tenho filhos e não posso deixá-los ir para lá. Mármores e parapeitos estão cheios de dejetos. A chaminé da cozinha tem de estar totalmente selada, se não caem dejetos e pedaços de pombos mortos» em cima dos alimentos, explica.«Isto é complicado para a saúde das pessoas e não só. Em termos morais também.»

Além de Rodrigo, também outro morador afetado refere que foram feitas «várias queixas à Polícia Municipal, à Câmara Municipal de Lisboa e à Delegação de Saúde». No entanto, a proprietária da ‘casa-pombal’ – que terá «entre 60 a 70 anos – torna o contacto impossível. «Tem a caixa de correio selada com fita adesiva, o que impossibilita a colocação de correio. A Polícia Municipal tenta visar a senhora, mas vão fardados e ela não abre a porta. Constou que, numa das ações, a senhora foi julgada e sancionada. Mas o que é certo é que, meses depois, a situação voltou ao mesmo.» A Polícia camarária também já terá «alimentado os pombos» com milho tratado e apanhado «meia dúzia, mas os outros fogem e reproduzem-se», conta o vizinho.

João não tem dúvidas de como se concentram tantos pombos neste bairro de Lisboa. «A pessoa tem dentro de casa os recipientes para alimentar os bichos. Alimenta-os de manhã, bem cedo. Depois, ao final do dia, a senhora abre as janelas para que possam ser alimentados novamente. Nas traseiras do prédio, entram a seu bel-prazer. As janelas estão sempre abertas.»

«Incómodo e mau-estar.» É desta forma que o vizinho carateriza a situação que vive. «As ruas estão mais sujas. Foi feita uma lavagem ao telhado do edifício onde o excremento do pombo era mais do que muito. As pessoas não podem chegar-se à janela. Têm de ter cuidado ao estender a roupa e a passear na zona. Os moradores são afetados pelo cantarolar dos pombos, que, no silêncio da noite, incomoda muito», salienta.

«Tem um discurso incoerente e desadaptado à realidade»

Rodrigo já tentou falar com a responsável pela situação. Revela que a proprietária do ‘pombal’ ilegal tem «claras dificuldades de relacionamento interpessoal». «Tem dificuldades em ajustar-se a uma convivência de vizinhança estruturante. Não é possível falar com ela. Os vários contactos deixam de ser plausíveis a partir do momento em que ela defende que é importante e existência do ‘pombal’. É um discurso incoerente e desadaptado da realidade», explica, salientando que deve haver «mecanismos que sancionem estas práticas».

Também Joana se mostra frustrada e sem esperança de que a situação algum dia venha a melhorar. «Não interessa falar ou queixar. Ela não abre a porta quando as autoridades vêm. Depois paga as multas e pronto. Fica tudo bem», desabafa.

A situação arrasta-se há cerca de dez anos e, apesar das várias queixas e de a Câmara Municipal já ter tomado medidas, não há à vista um ponto final para este «terror», como caraterizam os vizinhos. Devido à última queixa apresentada por Rodrigo, foram ouvidas várias pessoas pela Divisão de Investigação Criminal da Polícia e a proprietária dos apartamentos que acolhem e alimentam a praga de pombos foi «destituída de administradora do prédio». «Há uma nova administração a tomar diligências», suspira. O Portal de Notícias entrou em contacto com a Câmara Municipal de Lisboa e com a Delegação de Saúde Regional de Lisboa e Vale do Tejo e não obteve resposta de qualquer destes organismos responsáveis pela saúde pública dos cidadãos.

Texto: Sílvia Abreu | Fotos: DR e Helena Morais

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