A pessoa errada | Por que repetimos padrões nas relações?

São muitas as pessoas que sentem ter o ‘dedo podre’ para as relações amorosas e escolhem, de forma sistemática, alguém que ‘não presta’.

A pessoa errada | Por que repetimos padrões nas relações?

A pessoa errada | Por que repetimos padrões nas relações?

São muitas as pessoas que sentem ter o ‘dedo podre’ para as relações amorosas e escolhem, de forma sistemática, alguém que ‘não presta’.

São muitas as pessoas que sentem ter o ‘dedo podre’ para as relações amorosas e escolhem, de forma sistemática, alguém que ‘não presta’. Por norma, tendem a ser «amores que começam com um relacionamento sexual e paixão muito intensos, mas um envolvimento emocional superficial», afirma Catarina Mexia, psicóloga e especialista em Terapia Familiar, dando-lhe seis dicas para fintar esta repetição de padrão.

Quem nunca ouviu um amigo dizer «Só escolho pessoas sem carácter» ou «Não tenho sorte ao amor»? Educação, experiências e valores que cada um vai somando ao longa da vida acabam por determinar a forma como compreendemos e vivenciamos o amor. Mais: as escolhas de parceiros dependem de muitos critérios evolutivos que geram interferência neuro-química. A especialista explica a razão desta tendência.

Como se geram padrões amorosos repetitivos?

Trata-se de amores que começam com um relacionamento sexual e paixão muito intensos, mas um envolvimento emocional superficial. Rapidamente o abandono, a traição, a falta de consideração e, no extremo oposto, a agressão física substituem a ilusão do início. E o amor em que estas pessoas tanto apostaram é rapidamente substituído por sofrimento e desilusão. A auto-imagem faz parte integrante da nossa personalidade e começa a delinear-se na infância. O relacionamento com um adulto significativo e importante para nós – o pai, a mãe, um professor ou um avô – mas que não é capaz de valorizar, respeitar e amar o nosso ser leva-nos a acreditar que não temos valor suficiente para merecer o seu amor. Se durante o nosso crescimento este padrão de relacionamento não se alterar, muito provavelmente viremos a ser adultos com baixa autoestima e auto-imagem. Assim, quando procuramos um parceiro, provavelmente, iremos encontrar alguém com quem iremos repetir a situação infantil.

São consequências do tipo de educação familiar?

As nossas emoções e afectos começam a ser estruturados na primeira infância e essas aprendizagens vão modelar aquilo que reconhecemos no par romântico como adequado para nós. Quando olhamos para o sistema familiar é possível identificar padrões de relacionamento que potenciam o fracasso amoroso. Se, por exemplo, são famílias marcadas há gerações pela desvalorização do homem, por um padrão de relacionamento conflituoso ou pela não expressão de emoções, torna-se mais difícil para esta pessoa desligar-se da herança familiar e construir o seu próprio estilo de relacionamento, uma vez que este foi o sistema de crenças, mitos e rituais aprendido. Por outro lado, por mais disfuncional que seja a nossa família, acabamos por desenvolver uma lealdade familiar inconsciente que favorece a repetição de padrões.

Não fique obcecado com as suas escolhas passadas, mas aprenda com elas

Pode também ser uma situação de conforto ou o chamado hábito?

Na verdade, quem vive este padrão de relacionamento vai-se habituando, com o tempo, a suportar os embates mais terríveis à sua autoestima, acabando por fortalecer a sua capacidade de tolerar desilusões. Assim, vai perpetuando o papel de vítima, continuando a lamentar a falta de sorte e a incapacidade para mudar o destino.

E talvez acabem por desvalorizar alguém que goste, verdadeiramente, delas…

Aqueles que não possuem boa auto-imagem – que não se sentem suficientemente merecedores de dar e de receber amor – atraem frequentemente parceiros que apenas confirmam estas profecias. Quando conseguem alguém que os acarinha e estima, muitas vezes dizem para si mesmos que não estão habituados e, como tal, não sabem lidar com essas atenções. Está assim criada a condição para que a relação não vingue.

Há tendência para achar que o problema não está em nós.

Quando somos educados no sentido da desresponsabilização dos nossos atos e da autocomiseração como consequência de situações ou ações dos outros, nem percebemos que somos agentes ativos na repetição de comportamentos disfuncionais. A auto-reflexão e a aprendizagem para lidar com emoções desconfortáveis são essenciais para iniciar um processo de auto-responsabilização e reconhecimento dos próprios atos e das suas consequências, de tomada de consciência das heranças familiares e, desta forma, quebrar o ciclo que, invariavelmente, conduzirá a uma rutura ou a uma relação disfuncional.

E aquelas pessoas que acham que o defeito só pode ser delas, e não sabem o que fazer?

O autoconhecimento é uma ferramenta essencial. As pessoas que se envolvem neste tipo de relacionamentos caracterizam-se por uma enorme dificuldade em verbalizar – muitas vezes sem saberem – o que as faz felizes, quais os seus objetivos e o que querem da vida. Geralmente, o desejo de agradarem leva-as a centrarem-se nas necessidades e nos anseios do outro, como se a sua existência se justificasse, apenas, em função dele. Os conflitos surgem quando têm início as cobranças. Aquele que julgava ter um amor intenso e desinteressado vê-se confrontado com «fiz tudo por ti e tu nada me deste em troca».

Também existem critérios intelectuais e químicos para que isso aconteça?

Sim. As escolhas de parceiros ainda dependem de muitos critérios evolutivos que geram uma interferência neuroquímica. O cheiro, as características anatomo-fisiológicas percebidas inconscientemente ainda estão relacionadas com a determinação de um bom amante/reprodutor.

Seis formas de ultrapassar estas características

1. Tenha consciência da sua própria história, desde a infância. Por exemplo, perceba se sempre foi um cuidador nas relações. Procure perceber como os padrões disfuncionais dos seus pais afetaram as suas escolhas dos parceiros;
2. Aceite a sua parte no processo. Entenda de que forma o seu comportamento cumpriu um papel na dinâmica da relação;
3. Avalie as suas expetativas sobre relacionamentos amorosos. Se continuar à procura do príncipe encantado, estará constantemente a trabalhar para a decepção. Não existe um parceiro perfeito;
4. Recuse o papel de vítima. Quando você se vê como vítima, as suas ações reforçam a visão negativa de si mesmo. Não fique obcecado com as suas escolhas passadas, mas aprenda com elas;
5. Aprenda a diferenciar atração de relação amorosa. Sexo não é amor, ainda que possam estar relacionados. Verifique se tem valores, objetivos e projetos de vida em comum com as pessoas com quem namora;
6. Pare de comparar os seus relacionamentos com o dos seus pais. Aprenda com o passado, em vez de repeti-lo.

Texto: Carla S. Rodrigues | WiN

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