O antes e o depois do cancro: O que muda num doente oncológico

Conheça os testemunhos de uma doente, de uma sobrevivente do cancro e de uma familiar de uma doente oncológica que acabou por falecer.

O antes e o depois do cancro: O que muda num doente oncológico

Conheça os testemunhos de uma doente, de uma sobrevivente do cancro e de uma familiar de uma doente oncológica que acabou por falecer.

O cancro é uma das doenças que mais vidas rouba em Portugal. Segundo dados estatísticos disponibilizados pela Liga Portuguesa Contra o Cancro, em 2018 registaram-se mais de 40 mil novos casos em Portugal. De modo a perceber de que forma esta doença tem mudado, e condicionado, milhões de vidas, falámos com dois especialistas da Liga Portuguesa Contra o Cancro, o Médico de Saúde Pública António Morais e a Psicóloga Sónia Silva.

Neste artigo é explicado de que forma deve ser feita a prevenção do cancro. Ao mesmo tempo, damos a conhecer testemunhos de uma doente e de uma sobrevivente do cancro e ainda de uma familiar de uma doente oncológica, que acabou por falecer. Saiba como se sente um doente diagnosticado com cancro e como deve reagir e ajudar uma pessoa com este problema.

 

Cancro do Esófago com letalidade mais elevada em Portugal

Em 2018, só em Portugal, registaram-se cerca de 28 mil óbitos, dos quais 3800 são resultado de cancro do pulmão e aproximadamente o mesmo número de mortes por cancro do cólon e reto. Ligeiramente mais de mil mortes por cancro do estômago (taxa superior à maioria dos países europeus) e aproximadamente 1600 óbitos por cancro da próstata e sensivelmente o mesmo número para o cancro da mama.

«Todos os anos há um acréscimo no número de novos casos de cancro, todavia a taxa de mortalidade tem-se mantido estável», segundo António Morais.
É ainda importante realçar os cancros com letalidade mais elevada em Portugal, como o esófago, pâncreas e cérebro, cujas estratégias preventivas e curativas carecem de maior desenvolvimento.

 

De que forma deve ser feita a prevenção?

Alimentação, hábitos e comportamentos influenciam a saúde. Se não detém uma alimentação saudável, se consome álcool em excesso, se fuma e se adota hábitos sedentários está a prejudicar a sua saúde e a aumentar o risco de problemas graves. «O tabaco é um dos principais riscos de cancro, doenças cardiovasculares e respiratórias», afirma o médico, acrescentando ainda que, atualmente, «continuamos a ter um aumento no consumo de álcool». Também a obesidade, nomeadamente a obesidade infantil, são questões preocupantes, resultado da «sobrecarga de alimentos e da ausência de exercício físico». Também «os consumos de sal, açúcar e de gordura» têm papel importante na génese de doenças como o cancro.

Depois da abordagem através da prevenção primária – modificação de hábitos, comportamentos e estilos de vida – considera-se fundamental a boa prática em prevenção secundária, sobretudo assente em rastreios oncológicos. O cancro da mama, do colo do útero e do cólon e do reto podem ser diagnosticados antecipadamente.

O cancro do colo do útero, embora possa ser primariamente prevenido pela vacinação, demora anos a instalar-se, podendo ser descoberto a tempo de ser totalmente controlado e até prevenido o seu desenvolvimento. Igualmente o cancro do cólon e do reto tem um tempo de latência longo, podendo ser detetado numa fase muito inicial através de programa de rastreio. O cenário é mais preocupante, uma vez que rouba, por ano, cerca de 3800 vidas e o rastreio tem ainda uma baixa implantação no país.

É importante referir também que, para além dos cuidados de diagnóstico e tratamento, devem ser implementadas medidas de prevenção terciária, assentes numa atuação organizada, rápida e persistente em doentes com cancro, visando a restituição funcional e da qualidade de vida, bem como a reintegração familiar, social e profissional do doente.

Em todo o processo de doença oncológica deve ser tida em conta a aplicação de medidas de prevenção quaternária, em que deve ser sempre ouvido o cidadão, sobrepondo-se à opinião do profissional de saúde, pela decisão sobre tratamentos a que se sujeita.

Descoberto o cancro, como se sente um doente oncológico?

Quando um doente é diagnosticado com cancro, é comum que surjam sentimentos como «medo, incerteza e falta de esperança». Embora cada caso seja um caso, é normal que, inicialmente, existam momentos de «choro e desespero, choque e negação». «É frequente sentir revolta e uma tristeza profunda, sentimentos estes que tendem a diminuir à medida que o doente vai tendo maior perceção de controlo sobre a doença, por exemplo, começa a reconhecer a suas reações aos vários tratamentos e o que o faz sentir-se melhor e pior», explica Sónia Silva.

«O cancro é visto como uma doença indesejada e, assim que é diagnosticado, representa um momento de crise podendo ser mais tarde entendido como um acontecimento traumático, sendo frequente os doentes referirem «um antes do cancro e um depois do cancro».» A palavra cancro tem um grande peso, uma vez que «é visto como sofrimento», embora seja cada vez menos encarado como «uma sentença de morte».

É importante que o doente conheça um pouco mais e compreenda a sua doença e o tratamento que vai fazer, recorrendo ao médico ao invés de procurar informações que podem ser enganosas, através da Internet.

É necessário que cada doente oncológico «conheça e respeite as suas limitações e necessidades, frequentemente resultantes dos efeitos secundários dos tratamentos, como por exemplo, a maior necessidade de ter momentos de repouso e de desempenhar tarefas de formas lenta». Muito embora o sofrimento emocional e as alterações na imagem corporal provoquem uma redução no interesse em estar com os outros, deve também «evitar o isolamento social», pois o apoio de familiares e amigos é fundamental para o equilíbrio emocional neste período mais crítico. Falar abertamente sobre a situação que se encontra a vivenciar pode ser benéfico, mas cada pessoa tem a sua forma de gerir as suas emoções, pelo que deve ser o doente a abordar o tema.

Testemunhos
Vanda Baleia, 41 anos, doente diagnosticada com Melanoma

Para Vanda o processo de conhecer e lidar com a doença é recente. Diagnosticada com um Melanoma, esta mulher de 41 anos confessa como se sentiu ao receber a notícia e ao ver as mudanças do corpo a acontecer.

«Caiu-me tudo ao chão. Só pensava nos meus filhos. Não liguei muito ao corpo mas tenho alterações principalmente no peito. Está cheio de caroços e o toque não é bonito», conta.

Questionada sobre os medos que sente e a forma como encara o cancro, Vanda refere ter receio de não estar presente para os filhos, de 18 e 15 anos, e a dificuldade de lidar com esta realidade. «Pensar que a vida mudou por completo sem estar à espera e isso é difícil. Há dias em que penso que não vou aguentar, outros em que penso «vamos para a frente». Eu gosto de tudo organizado e esta doença não é assim. Hoje acorda-se de um maneira e amanhã está tudo diferente. E isso mexe comigo», termina.

Filomena Cardoso, 62 anos, sobrevivente de cancro do pulmão

Filomena tinha 45 anos quando lhe foi diagnosticado um cancro no pulmão esquerdo. Não era a primeira vez que lidava com um, uma vez que dois anos antes lhe fora diagnosticado um cancro nas cordas vocais.

Apesar da partida que a vida lhe pregou, esta mulher de 62 anos diz ter reagido com força. «A reação foi de força. Achei que não era comigo, queria acreditar que se tinham enganado. Depois, passado uns dias, foi de muita dor interior, de tentar esconder de todos o meu sofrimento. O ficar sem chão, o não querer partilhar – para que os meus não sofressem – pois não permitia que fossem comigo às consultas. Nem sei o que me ia na alma com esta atitude», afirma.

Entre operações, quimioterapia e radioterapia, Filomena refere que o aumento de peso e as dores fizeram parte do processo doloroso. «Engordei bastante e senti bastantes dores durante muito tempo, mas sempre acreditei que ia superar. Só quem passa sabe entender, não é possível explicar. A dor só se sente», conta. Sobre os medos, também Filomena refere os filhos e o receio de não estar presente no que precisassem. «O meu maior medo foi o de não conseguir ver o meu filho mais novo crescer, acabar os estudos, enfim… não era independente. Tenho outra filha mas, por muito que pensasse, ela já era totalmente independente. Mas foi neles que pensei e pedi força para os acompanhar», acrescenta.

Hoje, passados quase duas décadas, esta mulher confessa que a forma como encara a vida mudou. «Nunca mais voltei a ser a mesma. Fiquei sempre com bastantes dores. Faço há vários anos tratamentos na Unidade da dor e vou vivendo um dia de cada vez. Sou hoje uma pessoa com pouca tolerância para as coisas supérfluas, dou muito valor a cada dia que passa, à vida», confessa, referindo ainda: «Hoje sinto-me grata. Aprendi que a vida está nos pequenos detalhes e no agora, que temos que viver, estar.»

 

Como devem os familiares reagir perante a doença?

Para a especialista, é essencial que exista, na medida do possível, uma «manutenção dos padrões anteriores de relação». Ou seja, não devem ser alterados comportamentos e relações com outras pessoas em resultado da doença. Deve, sim, ser «o doente a dosear a conversa e não a família a fazê-lo». «Não devemos forçar o doente a falar», alerta.

É essencial que se evitem pressões e frases tais como «não te preocupes, isso não é nada» ou «tens de ser forte e lutar». Devemos «estar e ser presentes na vida do doente, mostrando disponibilidade para ouvir as verbalizações de medos e preocupações, sem interrupções ou juízos de valor. A família deve promover um espírito de luta e de adesão às recomendações médicas, e aconselhar e apelar à manutenção da esperança e de uma atitude otimista, no sentido de esperar (e trabalhar para obter) resultados positivos», refere a psicóloga.

A «comparação com os outros» deve também ser evitada, pois pode criar expectativas demasiado irrealistas e cada caso é um caso e as formas de encarar o problema são distintas. O mais importante é, antes, «energizar o doente para aceitação da doença e adesão ao tratamento» e «mostrar-lhe que não está sozinho». Por exemplo, quando este se dirige a uma consulta médica é imperativo que não o faça sozinho.

Testemunho
Mariana Freire, 24 anos, perdeu a mãe vítima de Mieloma Múltiplo

Mariana tinha 16 anos quando soube que a mãe, Margarida tinha sido diagnosticada com um Mieloma Múltiplo. «Choque» é a palavra que usa para descrever aquilo que sentiu. «Foi um choque muito grande. Parece que de repente tudo pára à nossa volta. O primeiro pensamento é sempre “e agora?”. Conhecemos a doença, sabemos que existe mas achamos que só acontece aos outros. Os primeiros pensamentos são sempre muito pessimistas. Mas rapidamente senti que tinha que respirar fundo e reagir. A minha mãe precisava de mim e eu tinha que ser forte por mim e, principalmente, por ela», afirma.

Para esta jovem de 24 anos não foi fácil lidar com o sofrimento e as constantes mudanças físicas da mãe, referindo que «foi emocionalmente muito desgastante». «Era horrível ver todas aquelas coisas a acontecer e não poder fazer nada. Tinha um sentimento de impotência enorme. Houve fases em que fui buscar forças onde não sabia que existiam, houve outras em que me ia muito abaixo mas nessas alturas tentava sempre que ela não se apercebesse. Era viver um dia de cada vez», acrescenta.

Sobre o medo de perder a progenitora, Mariana conta que foi a primeira coisa em que pensou, «que ia ficar sem ela», mas que teve sempre esperança de dias melhores. «Enchi-me de fé e de esperança. Ela era tão forte que era impossível não vencer. Mas perto do fim… começámos a contar cada dia como uma benção por ainda a termos presente. Todas as noites pedia só mais um dia. Até que depois o sofrimento dela já era tão grande que já pedia a Deus que fizesse o que fosse melhor para ela. Por mais que me doesse…», confessa.

Apesar da força que sabia ser caraterística da mãe, esta menina de 24 anos olha para trás sempre com muito orgulho da mãe que o cancro lhe tirou. Aos olhos de Mariana, Margarida «manteve sempre uma vontade de viver enorme» e mesmo com «a falta de cabelo, o inchaço, o rosto deformado nunca deixou de cuidar de si». «Gostava de passear, de apreciar as pequenas coisas da vida. E protegia-me a mim e à minha irmã da dor que sabia que tudo isto nos estava a causar. Dava sempre a entender que estava tudo bem, mesmo não estando. Foi uma super guerreira, uma super Mulher e uma super Mãe», termina.

Ajudas prestadas pela Liga Portuguesa Contra o Cancro

A Liga Portuguesa Contra o Cancro disponibiliza, há cerca de uma década, consultas gratuitas de psico-oncologia para doentes e familiares. Segundo a psicóloga, os pedidos de ajuda são feitos na fase de tratamento, sendo muitos os pedidos após o final dos tratamentos, na fase de «sobrevivência alargada». No entanto, a intervenção é mais eficaz quanto mais cedo se iniciar, idealmente, após o diagnóstico de cancro.

Em 2018, foram realizadas cerca de 7600 consultas de psico-oncologia. Entre 2015 e 2018, realizaram-se cerca de 20 mil consultas.
A Liga ajuda também numa perspetiva de apoio social, nomeadamente doentes carenciados. Pagamento de transportes para as unidades hospitalares, medicação e ajudas técnicas, por exemplo na aquisição de próteses e materiais ortopédicos, cadeira de rodas ou cama articulada, são alguns dos apoios prestados.

De 2015 a 2017, foram dados mais de 2 milhões de euros a doentes com carências socio-económicas. Cerca de 55 mil doentes beneficiaram deste tipo de apoios. É ainda de referir a ajuda dos voluntários da Liga Portuguesa Contra o Cancro, como na alimentação, no apoio emocional, no alívio do cuidador, fazendo companhia, entre outras ajudas. Estes voluntários são, muitos deles, «sobreviventes do cancro».

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Texto: Marisa Simões | WIN

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