Cidadãos do Mundo | Rui e Marta deixaram tudo pelo sonho e vontade de viajar

Rui Daniel já visitou 143 países e Marta Durán viaja à boleia. Têm 17 anos de diferença, mas uma coisa em comum: a paixão pelas viagens.

Cidadãos do Mundo | Rui e Marta deixaram tudo pelo sonho e vontade de viajar

Rui Daniel já visitou 143 países e Marta Durán viaja à boleia. Têm 17 anos de diferença, mas uma coisa em comum: a paixão pelas viagens.

Rui Daniel já visitou 143 países e Marta Durán viaja à boleia. Têm 17 anos de diferença, mas uma coisa em comum: a paixão pelas viagens.

Rui Daniel lembra-se de cada um dos 143 países que visitou

Rui Daniel, de 41 anos, apanhou malária e foi preso. Tudo porque num momento de epifania trocou o certo – era professor de piano efetivo em Leiria e tinha um bom ordenado – pelo incerto e foi viajar. O viajante lembra-se de cada um dos 143 países que visitou e não há nenhum que substitua o Bangladesh, o seu preferido. «É um dos países mais pobres, mas onde as pessoas estão sempre dispostas a ajudar e até fazem questão de pagar um bilhete de autocarro que pode implicar ficarem sem uma refeição», afirma. Agora, está numa viagem de quatro meses com destino ao Bangladesh. Pelo meio já passou pelo Irão, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Uzbequistão e, neste momento, está na Índia.

Marta já chegou aos 5500 metros numa montanha

Marta Durán, de 24 anos, é também conhecida por ‘boleias da Marta’, nome da página do Instagram, onde partilha as suas rotas. Fez a primeira viagem à boleia pela Suíça, foi enganada em Xangai, deu aulas de Inglês no Nepal, fez um trekking de um mês pelos Himalaias, chegou aos 5500 metros numa montanha e viveu um ano na Guiné Bissau, o país que mais memórias lhe traz e de onde regressou há três meses. «Lá não estive só a viajar. Trabalhei no departamento de comunicação da UNICEF durante seis meses. Depois acabei por ficar em consultoria», conta.

A jovem não tinha data para voltar para Portugal, mas o cansaço da rotina ditou o seu regresso a casa. «Senti a necessidade de voltar, porque na verdade o que eu quero é viajar, não quero estar fixa num sitio durante muito tempo.» Atualmente, mostra a cidade de Lisboa, de onde é natural, aos turistas através de tuk-tuk para angariar dinheiro para a próxima aventura que será «para breve». Ainda não sabe para onde, porque tal como Rui Daniel, Marta não faz planos a longo prazo.

O início | O excesso de tempo livre atirou Rui para outras realidades

Rui Daniel é filho de pais portugueses, mas nasceu no Luxemburgo. Na adolescência veio estudar para terras lusitanas, mas viajar só começou a fazer parte da sua vida quando terminou a licenciatura. No início da carreira dava aulas de piano em Aveiro e tinha três meses de férias. O excesso de tempo livre levou-o a outros mundos. Primeiro na Europa, e depois o resto do mundo. «A primeira grande viagem foi ao Egito. Depois atravessei o deserto do Sinai até Israel.»

Rui Daniel no Egito

Rui fez Senegal-Gâmbia-Guiné-Bissau de bicicleta

Em 2014, fez com um amigo Senegal-Gâmbia-Guiné-Bissau de bicicleta por ser mais «cómodo e barato». «Em África, os transportes só partem quando estão lotados. Na Suazilândia esperei 48 horas por um autocarro para Moçambique.» Esta aventura foi a que mais o marcou. «Foi a que mais gostei e a mais difícil. Apercebi-me que não é preciso muito dinheiro para viajar. Só temos de estar predispostos.» Acampou, dormiu com algumas tribos e no final da viagem ofereceu a bicicleta a um habitante.

Foi preso em Singapura porque queria poupar dinheiro

Foi preso em Singapura porque queria poupar dinheiro. Abasteceu-se de cigarros na Malásia por serem mais baratos. Ao entrar em Singapura, prenderam-no por suspeita de tráfico e, depois de várias tentativas, conseguiu explicar a situação e levou uma declaração escrita em como estava autorizado a fumar tabaco malaio na Cidade-Estado. Ao longo das viagens, Rui Daniel tem vindo a somar aventuras. Já viu muitas realidades diferentes, mas não esquece a hospitalidade dos iranianos e a autenticidade africana.

«A primeira vez que estive no Irão não paguei nada. Se tinha sede ofereciam-me água, deram-me teto e comida durante três semanas. Nunca ninguém me interpelou com segundas intenções. Não pediam nada em troca.» Esta hospitalidade estendeu-se na Guiné-Bissau, Palestina, Sudão, Iraque e Paquistão. «Esses países que as pessoas dizem ser perigosos.»

«Não é impossível viajar sem dinheiro»

Rui Daniel frisa que «não é impossível viajar sem dinheiro». «Até há pouco tempo ficava muito irritado quando me diziam que eu viajava porque era rico. O que as pessoas não sabem é que eu durmo na rua e em estações de comboio.» Rui quer viver como as pessoas dos países por onde passou. Através destas experiências, começou a dar valor às «pequenas coisas como a luz e à água». «Muitas vezes tinha de percorrer quilómetros para ir buscar um balde de água que tinha de dar para eu tomar banho e cozinhar.»

«Se fosse rico, não teria histórias para contar»

Hoje, Rui Daniel considera-se rico, porque tem «um teto, uma cama e condições para viver. «As pessoas do Ocidente queixam-se de barriga cheia. Há uns anos só se ouvia dizer que Portugal estava em crise. Se fossemos dizer isso a outros povos, a primeira coisa que perguntariam seria: ‘Há quanto tempo é que não comem?’», explica. «Fico feliz por não ser rico, porque provavelmente optava por ficar sempre em hotéis e resorts e não teria histórias para contar», conclui.

Marta visitou 11 países da Europa sozinha e à boleia

Marta é licenciada em comunicação social e foi durante a universidade que «ganhou o bichinho das viagens». Fez voluntariado em África e um intercâmbio em Macau. No final do curso, e sem saber o que haveria de fazer, agarrou numa mochila e visitou 11 países da Europa sozinha e à boleia. «Foi aí o arranque» para o que seria o início de uma forma de viver que leva no presente e pretende ter no futuro.

O primeiro destino foi Suíça, porque era «o voo mais barato». «Fui logo para o país mais caro, mas tinha lá imensos emigrantes portugueses que me acolheram.» Marta não esconde que dar o primeiro passo é «difícil». «Quanto entrei no avião tremia por todos os lados, porque não sabia o que é que ia fazer, nem o que me esperava.» Mas as coisas depois foram «surgindo». A partir daí, fez todas as viagens à boleia, método que encontrou «para poupar algum dinheiro e conhecer os locais». «Eu viajo para conhecer pessoas de outro mundo, para conhecer outras culturas, religiões, ideias e modos de vida.»

 

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As aventuras que viraram histórias

A jovem viaja com um orçamento estipulado. Faz couchsurfing (dormir em casa de outras pessoas a custo zero), acampa ou aproveitava as ofertas das pessoas que lhe davam boleia. Nunca recusou nenhuma, mas teve momentos mais «atribulados». «Tive uma situação em que o homem que me estava a dar boleia com segundas intenções. Comecei aos berros para ele me deixar na estação de serviço e lá cedeu. Por acaso não tinha nenhuma arma.» Apesar desta peripécia, Marta diz que «viajar à boleia não é perigoso». Para se precaver de situações menos positivas, Marta nunca andava à boleia de calções, e tenta sempre pedir em estações de serviço para ter um contacto mais direto com as pessoas. «Não é perigoso viajar, mesmo sendo mulher. É preciso é ter outros cuidados.»

 

Marta foi vítima de uma fraude em Xangai

A viajar, Marta passou a «confiar mais nas pessoas». «Mas também sou muito desconfiada. Viajar é uma aprendizagem. Há erros que cometi no passado, que não voltarão a acontecer.» Como é o caso de Xangai. Marta estava a sair do metro com uma amiga e um grupo de jovens chineses perguntaram-lhes se queriam provar chás. «Entrámos num sítio um bocado dúbio e chegaram umas senhoras a fazer chá e provamos», começa por contar. No final da amostra, apresentaram-lhe a conta. «Cada chá custava 25 euros. Fiquei abismada. Queria poupar dinheiro e não me apercebi de que estava a ser enganada. Tive de pagar e quando cheguei a casa fui pesquisar e percebi que era um esquema para enganar turistas», explica.

Marta na Muralha da China

Marrocos | «Ele começou a ficar agressivo e apontou-nos uma faca»

Em Marrocos, que chegou à boleia a partir de Lisboa, Marta estava com um rapaz espanhol que conheceu durante a viagem e decidiram pedir indicações. «Estivemos 10 minutos a caminhar, e às tantas o homem que nos ajudou pára, diz-nos onde é o nosso destino, e pede-nos dinheiro. Só tinha algumas moedas. Ele começou a ficar agressivo e apontou-nos uma faca.» A jovem deu as poucas moedas que tinha e «por sorte» o homem foi-se embora.

Marta no deserto Sahara, em Marrocos

A hospitalidade na Guiné-Bissau

Estas são três das experiências menos positivas pelas quais Marta passou, embora guarde mais histórias boas. Como é o exemplo da viagem de carro que fez na Guiné com uns amigos. «Ficamos presos no meio da lama e apareceu um homem de mota que chamou amigos para o ajudar. Foram buscar um camião para rebocar o carro e não me pediram nada no final.»

Marta na Guiné-Bissau, onde estagiou no departamento de Comunicação da UNICEF

As viagens mudaram a forma como Marta vê a vida

As viagens mudaram a forma como Marta vê a vida. «Não há uma linha certa para se viver na nossa sociedade. Quero tentar viver isto das viagens.» Não é algo momentâneo. A jovem quer levar este estilo de vida para o futuro. «Se fosse um devaneio já o teria sentido e já estaria a trabalhar na minha área. A minha ideia é liderar viagens, porque tenho muitos pedidos de pessoas que querem viajar comigo.»

Sobre o futuro, Marta é assertiva: «Não quero ser a mais rica do cemitério»

Planos não faltam, mas apenas a curto prazo. «Não penso muito no futuro em termos de trabalho, casamento e filhos. O que é o futuro? Não quero ser a mais rica do cemitério. Tenho 24 anos, como é que vou pensar para daqui a 40 anos?»

A família de Marta já se habituou ao seu estilo de vida. «Se estiveres confiante das tuas decisões, está tudo bem.» Como passa muito tempo fora, Marta não esconde que é «difícil» manter relações. «Chego cá e já não sei quem são realmente os meus amigos, porque eles habituaram-se à minha ausência. O meu círculo de amigos reduziu-se, mas também ganhei novos amigos nas viagens». Os temas de conversa e as metas entre Marta e os amigos são diferentes. «Quando estou com eles falam de trabalho, namorados, carros que compraram, rendas da casas e acabam por ser temas com os quais não me identifico.»

«Portugal é a minha casa»

Cada partida e regresso deixa-lhe ansiedade. «Mas eu gosto muito de voltar», ainda que «por pouco tempo». «Sou uma cidadã do mundo, mas Portugal é a minha casa. É aqui que tenho as minhas raízes.» Marta é uma «miúda sonhadora» que quer «concretizar sonhos». «Não quero colocá-los em gavetas, nem quero inspirar ninguém. Quero que as pessoas partam para a ação.»

Texto: Jéssica dos Santos | Fotos: Instagram ; WiN

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