Ao morrermos a vida passa-nos realmente diante dos olhos?

Diante da morte, a vida passa-nos realmente diante dos olhos? O neurocientesta cognitivo Guillaume Thierry leva-nos numa fascinante viagem sobre até quando estamos conscientes quando morremos.

Ao morrermos a vida passa-nos realmente diante dos olhos?

Ao morrermos a vida passa-nos realmente diante dos olhos?

Diante da morte, a vida passa-nos realmente diante dos olhos? O neurocientesta cognitivo Guillaume Thierry leva-nos numa fascinante viagem sobre até quando estamos conscientes quando morremos.

Guillaume Thierry, professor de Neurociência Cognitiva da Universidade de Bangor, no Reino Unido, leva-nos através de um relato elucidativo sobre até quando estamos conscientes após a morte e se, diante dela, a vida nos passa realmente perante os olhos. “A primeira vez que ultrapassei o puro horror do conceito de morte e me perguntei sobre como seria a experiência de morrer, tinha cerca de 15 anos”, enquadra o neurocientista. “Tinha acabado de descobrir aspetos horríveis da revolução francesa de como as cabeças eram separadas do corpo por uma guilhotina.”

“As palavras de que me lembro até hoje foram as últimas de Georges Danton em 5 de abril de 1794, que supostamente disse ao seu carrasco: ‘Mostre a minha cabeça ao povo, porque vale a pena ver’.” Anos depois, quando se tornou neurocientista cognitivo, Thierry começou a perguntar-se “até que ponto um cérebro subitamente separado do corpo ainda podia perceber o seu ambiente e, talvez, pensar”. “Danton queria que a sua cabeça fosse mostrada, mas será que ele podia ver ou ouvir as pessoas? Estaria consciente, mesmo por um breve momento? Como é que o cérebro dele desligou?”

“Teria sobrado alguma coisa da mente do meu irmão que lhe permitisse ouvir a minha voz e gerar pensamentos, cinco horas depois de ele ter falecido?” – Guillaume Thierry, neurocientesta cognitivo da Universidade de Bangor

Em 14 de junho de 2021, , difoi “violentamente colocado perante estas perguntas”. “Parti para Marselha [França], depois de chamado a Avignon pela minha mãe porque o meu irmão estava em estado crítico, poucos dias depois de ser subitamente diagnosticado com cancro de pulmão terminal. Quando aterrei, disseram-me que o meu irmão havia falecido há quatro horas. Uma hora depois, encontrei-o perfeitamente imóvel e lindo, com a cabeça levemente virada para o lado, como se estivesse em profundo estado de sono. Só que ele já não respirava e estava frio ao toque”, recorda.

“Não importa o quanto me recusei a acreditar naquele dia, e durante os vários meses que se seguiram: a mente extraordinariamente brilhante e criativa do meu irmão tinha evaporado, apenas para permanecer palpável nas obras de arte que ele deixou para trás. No entanto, no último momento que me foi dado para passar com o corpo sem vida dele num quarto de hospital, senti vontade de falar com ele.”

“E falei com ele, apesar dos meus 25 anos a estudar o cérebro humano e sabendo perfeitamente que cerca de seis minutos depois de o coração parar e o suprimento de sangue ao cérebro ser interrompido, o cérebro essencialmente morre. A partir daí, a deterioração chega a um ponto sem retorno e a consciência central – a nossa capacidade de sentir que estamos aqui e agora e de reconhecer que os pensamentos que temos são próprios – perde-se”, constata. Apesar dos conhecimentos cientificamente provados, Thierry questionou-se – “Teria sobrado alguma coisa da mente do meu irmão que lhe permitisse ouvir a minha voz e gerar pensamentos, cinco horas depois” de o irmão ter falecido?

Experiências científicas sobre a morte

Ao longo de anos, têm sido realizadas várias experiências científicas na tentativa de entender os relatos de pessoas que tiveram uma experiência de quase morte. Tal evento tem sido associado a experiências fora do corpo, sensação de profunda felicidade, chamamento, visão de uma luz apelativa, mas também explosões profundas de ansiedade ou completo vazio e silêncio. Uma limitação importante dos estudos que analisam estas experiências é o fato de elas se “concentrarem muito na natureza das próprias experiências e de, muitas vezes, ignorarem o contexto que as precede”.

Algumas pessoas, submetidas à anestesia ou que se envolveram num acidente repentino que levou à perda instantânea de consciência “têm pouco terreno para sentir ansiedade profunda quando o cérebro começa a desligar-se”. Por outro lado, “alguém com histórico prolongado de doença grave pode ter mais oportunidades de ter uma viagem difícil”, distingue Guillaume Thierry”.

“Não é fácil obter permissão para estudar o que realmente acontece no cérebro” durante os nossos últimos momentos de vida. Mas um artigo recente examinou a atividade elétrica cerebral num homem de 87 anos que sofreu um ferimento na cabeça na sequência de uma queda, tendo falecido após uma série de ataques epiléticos e paragem cardíaca. Embora esta tenha sido a primeira publicação com dados recolhidos durante a transição da vida para a morte, “o artigo é altamente especulativo quando se trata de possíveis ‘experiências da mente’ que acompanham a transição para a morte”, adverte o neurocientesta cognitivo.

Os investigadores descobriram que algumas ondas cerebrais, as alfa e as gama, “mudaram de padrão mesmo depois de o sangue ter parado de fluir para o cérebro”. Foi por isso possível concluir que “dado que a união cruzada entre as atividades alfa e gama está envolvida nos processos cognitivos e na recuperação da memória em indivíduos saudáveis, é intrigante especular que tal atividade poderia apoiar uma última ‘recordação da vida’ que pode ocorrer no estado de quase morte”.

No entanto, “esta união não é incomum no cérebro saudável – e não significa necessariamente que a vida está a passar-nos perante os olhos”, adverte Thierry. “Além disso, o estudo não respondeu à minha pergunta básica: quanto tempo leva após a interrupção do fornecimento de oxigénio ao cérebro para que a atividade neural essencial desapareça? O estudo relatou apenas a atividade cerebral registada durante um período de cerca de 15 minutos, incluindo alguns minutos após a morte.”

Em ratos, experiências estabeleceram que, após alguns segundos, a consciência é perdida. E após 40 segundos, grande maioria da atividade neural desapareceu. Alguns estudos também mostraram que este desligamento do cérebro é acompanhado por uma libertação de serotonina, substância química associada à excitação e a sentimentos de felicidade.

“Mas e nós? Se os seres humanos podem ser ressuscitados após seis, sete, oito ou até dez minutos em casos extremos, teoricamente poderia levar horas até que o seu cérebro se desligasse completamente. Encontrei várias teorias que tentam explicar por que a vida estaria a passar perante os olhos de alguém enquanto o cérebro se prepara para morrer. Talvez seja um efeito completamente artificial, associado ao súbito aumento da atividade neural quando o cérebro começa a desligar-se” suspeita Guillaume Thierry. “Talvez seja um último recurso, um mecanismo de defesa do corpo a tentar superar a morte iminente. Ou talvez se trate de um reflexo profundamente enraizado, geneticamente programado, para manter a nossa mente ‘ocupada’ à medida que o evento mais angustiante de toda a nossa vida se desenrola”, acrescenta.

“A minha teoria é um ligeiramente diferente. Talvez o nosso impulso existencial mais essencial seja entender o significado da nossa própria existência. Se sim, então, ver a vida de passar perante os olhos pode ser a nossa tentativa final – por mais desesperada que seja – de encontrar uma resposta, necessariamente acelerada, porque estamos a ficar sem tempo”, suspeita.

“E, quer tenhamos sucesso ou não, ou tenhamos a ilusão de que o fizemos, isto deve resultar numa absoluta bem-aventurança mental. Espero que experiências futuras na área, com medições mais longas da atividade neural após a morte, talvez até com imagens do cérebro, forneçam suporte para esta ideia – quer dure minutos ou horas, pelo bem do meu irmão e de todos nós”, deseja Guillaume Thierry, levando-nos a crer que a resposta ainda não nos chegou…

Luís Martins

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