Moçambique: Entre o desespero e a fuga, somam-se relatos do terror em Palma

A tia de Arnaldo Júlio, 27 anos, foi degolada no ataque de quarta-feira a Palma, norte de Moçambique, conforme lhe relatou o tio, ao telefone, quase em tempo real.

Moçambique: Entre o desespero e a fuga, somam-se relatos do terror em Palma

Moçambique: Entre o desespero e a fuga, somam-se relatos do terror em Palma

A tia de Arnaldo Júlio, 27 anos, foi degolada no ataque de quarta-feira a Palma, norte de Moçambique, conforme lhe relatou o tio, ao telefone, quase em tempo real.

“A minha esposa… degolaram-na agora, na machamba [horta].” Estas são as últimas palavras que Arnaldo ouviu do familiar, que fugia e tentava esconder-se numa cova, pedindo ao sobrinho que não ligasse mais, com medo de que o telemóvel o denunciasse perante os insurgentes armados que passavam, ao invadir a vila, no Norte de Moçambique.

Seguiu-se o corte nas comunicações móveis, que perdura até hoje, e Arnaldo não soube mais nada de dois tios, um residente na vila e outro contratado por uma das empresas que trabalham para o consórcio liderado pela petrolífera Total. Arnaldo mora em Pemba, capital provincial de Cabo Delgado, 250 quilómetros a sul de Palma e da península de Afungi.

Três dias após o ataque à sede de distrito ouve-se o tom de desespero por parte de quem tem familiares a residir na zona e a trabalhar para os projetos de gás de Cabo Delgado. Arnaldo emociona-se quando diz que ainda esperava ver os seus familiares.

“A minha esperança é a de que eles voltem vivos para Pemba. Principalmente o meu tio, que viu a esposa ser degolada. Não sei o que aconteceu com ele”, afirma. A cova de que o tio lhe falou era um esconderijo previamente preparado pelo casal, medida de quem vive numa zona de risco. O relato do jovem junta-se a outros retratos de terror ouvidos desde quarta-feira.

Um residente que fugiu de Palma, juntamente com outros, disse na sexta-feira que são visíveis corpos de adultos e de crianças assassinados nas ruas da sede de distrito.

Segundo o relato, ele e outras pessoas foram avançando às escondidas, de rua em rua, evitando as zonas onde se ouvia tiroteio, para assim saírem do perímetro de Palma, chegando a Quitunda, aldeia construída de raiz junto ao recinto do projeto de gás, na quinta-feira à tarde. Um número incalculado de pessoas está desde quarta-feira a fugir para a península de Afungi.

Um grupo mais restrito, de cerca de 200 cidadãos de diferentes nacionalidades, refugiou-se no hotel Amarula, de onde muitos foram sendo resgatados por terra e por mar para a área controlada pela petrolífera Total.

Uma das caravanas foi atacada na noite de sexta-feira e pelo menos sete pessoas morreram. Fontes que acompanham as operações admitem no entanto que o número de baixas esteja subavaliado.

Houve ainda muitos feridos no incidente e um deles é cidadão português, posteriormente transferido por via aérea de Afungi para Pemba. O ataque desencadeado na quarta-feira é o mais grave junto aos projetos de gás após três anos e meio de insurgência armada à qual a sede de distrito tinha até agora sido poupada.

Várias fontes dizem que Palma continuava neste sábado ocupada por rebeldes armados, enquanto prosseguiam operações para evacuar a vila e também a zona dos projetos na península de Afungi.

O Ministério da Defesa moçambicano anunciou na manhã de quinta-feira que estava no terreno a reprimir a ofensiva rebelde, mas não voltou a dar informações.

A violência que grassa desde outubro de 2017 está a provocar uma crise humanitária com quase 700 mil deslocados e mais de duas mil mortes. Algumas das incursões foram reivindicadas pelo grupo jihadista Estado Islâmico (EI) entre junho de 2019 e novembro de 2020, mas a origem dos ataques continua sob debate.

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