Igreja promove canonização de “testemunhas incómodas” da guerra civil em Moçambique

A diocese de Tete, centro de Moçambique, vai iniciar o processo de canonização de dois jesuítas, um português e um moçambicano, mortos na missão de Chapotera em 1985 por serem “testemunhas incómodas” da guerra civil, disse à Lusa o bispo de Tete.

Igreja promove canonização de

Igreja promove canonização de “testemunhas incómodas” da guerra civil em Moçambique

A diocese de Tete, centro de Moçambique, vai iniciar o processo de canonização de dois jesuítas, um português e um moçambicano, mortos na missão de Chapotera em 1985 por serem “testemunhas incómodas” da guerra civil, disse à Lusa o bispo de Tete.

“Eram testemunhas dos acontecimentos e, evidentemente, tendo ligações com a igreja em Moçambique, com pessoas que tinham acesso ao poder”, denunciaram “a violência, das duas partes”, disse Diamantino Antunes, acrescentando: “Por isso eram vozes incómodas”.

Em confronto estavam a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), partido no poder desde a independência, e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), oposição.

O padre Sílvio Moreira, português de 44 anos, e o padre João de Deus Gonçalves Kamtedz, moçambicano, 54 anos, foram assassinados a tiro e com baionetas a 30 de outubro de 1985 por um grupo armado que os tirou de casa, em Chapotera, na zona de Angónia.

Os corpos foram abandonados no mato, a 200 metros da residência. 

Quase 36 anos depois, a igreja católica em Tete está numa fase preliminar do processo de canonização, acreditando que os dois missionários são “mártires”.

Eles “eram contrários à guerra e sentiam o sofrimento do povo como sofrimento deles”, denunciando a tragédia da guerra baseados numa virtude cristã. 

Os sacerdotes tinham “fé, coragem e caridade”, defendeu Diamantino Antunes.

“Eu posso ter fé, mas se não tenho coragem a minha fé é vã”, referiu, acrescentando que os sacerdotes podiam “calar, fechar o olho e dizer que aqui não há condições para continuar”, mas não o fizeram. 

Baseado nos relatos documentais e orais recolhidos em Moçambique e em Portugal, o bispo Diamantino Antunes sublinha as virtudes dos dois missionários que colocaram em risco a sua própria vida, que ajudaram a sepultar os mortos que encontravam espalhados, enquanto garantiam serviços de saúde, educação e outros.

Também realizavam missas e casamentos, às vezes às escondidas para não atrair a atenção dos militares.

“Eles decidiram: vamos ficar, custe o que custar. E naquela zona as pessoas ficaram enquanto os padres lá estavam. Mas depois da morte deles houve uma debandada generalizada para o Maláui”, explicou o bispo.

Imediatamente a seguir à independência de Moçambique, em 1975, a vizinha missão de Lifidzi foi ocupada pela Frelimo e os jesuítas aí residentes ficaram sem a grande igreja e as demais instalações da missão: internatos masculino e feminino, hospital, oficinas de carpintaria, serralharia e outras dependências.  

Criar uma nova missão no lugar de Chapotera afigurou-se como alternativa. 

Mas Diamantino Antunes referiu que o impacto da morte dos dois missionários se refletiu mesmo depois dos acordos de paz, em 1992, quando a população resistiu a regressar de imediato à região, por ainda recear a insegurança. 

Na ocasião, continuou, como estratégia, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) teve de patrocinar a reconstrução das missões, concretamente de Lifidzi para permitir o regresso de padres e consequentemente da população. 

“Em 1992 eu já cá estava. Trabalhei no Niassa e não vi o ACNUR reabilitar as missões para a população do Niassa regressar”, como aconteceu em Angónia.

Os dois sacerdotes estavam em Chapotera há pouco mais de um ano, quando se deu o ataque, em 1985. 

Um comunicado de imprensa emitido na altura das mortes pela Companhia de Jesus indica que na noite de 30 de outubro um grupo armado levou os jesuítas para um lugar incerto. 

Alguns cristãos da aldeia deram pela sua ausência e julgaram-nos raptados pela Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), oposição, mas a 04 de novembro os corpos foram encontrados trucidados e escondidos numa mata a 200 metros da residência. 

Nessa mesma tarde os corpos foram levados e sepultados no cemitério da vila Ulongue. 

Segundo o bispo de Tete, todas as informações recolhidas levam a crer que o alvo principal do ataque seria o padre João de Deus, que estava a traduzir a bíblia para a língua local. 

Mas quando os atacantes pegaram nele para o levar, o padre Sílvio terá dito: “Se vai o meu colega, eu também vou”. 

Ainda hoje há uma um movimento anual, espontâneo, de cristãos que realizam vigílias no lugar onde foram sepultados os missionários.

A causa de canonização já teve o aval para avançar por parte da Companhia de Jesus e da Conferência Episcopal e aguarda outras consultas e pareceres, incluindo da Santa Sé. 

Um dos passos pretende verificar a inexistência de qualquer inconveniente ou impedimento devido ao contexto político: “Não queremos ajustar contas com ninguém, mas apenas – e o mais importante é isto – evidenciar o testemunho”.  

O bispo de Tete disse ter provas de que nenhum dos autores materiais está vivo e, mesmo que estivesse, “era muito importante o testemunho, não para julgamento”, mas clarificar a causa de canonização.

A abertura da fase diocesana da causa de canonização está marcada para 14 de agosto no seminário de Zobué, onde o padre Sílvio foi professor e onde o padre João de Deus deu assistência durante a guerra, sendo que a data vai coincidir com uma peregrinação organizada pela diocese.  

Na data será feito o juramento público da comissão diocesana que vai conduzir o processo.

AYAC // JH

Lusa/Fim

By Impala News / Lusa

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