Votei na UNITA, mas tenho medo é da CNE

José Miguel saiu de Angola há mais de 20 anos, escondido num camião-cisterna até à África do Sul, e hoje votou pela primeira vez fora do país, em Lisboa, na UNITA, mas diz recear é a Comissão Nacional de Eleições

Votei na UNITA, mas tenho medo é da CNE

Votei na UNITA, mas tenho medo é da CNE

José Miguel saiu de Angola há mais de 20 anos, escondido num camião-cisterna até à África do Sul, e hoje votou pela primeira vez fora do país, em Lisboa, na UNITA, mas diz recear é a Comissão Nacional de Eleições

“Eu votei na União Nacional para a Independência Total de Angola [UNITA, na oposição], mas o medo que tenho é da CNE em Angola, está tudo manipulado, as estatísticas, o número de pessoas vivas, os mortos a votar, e a empresa contratada para fazer o processo eleitoral é a pior e toda a gente tem medo”, disse à Lusa, durante a votação no consulado de Angola em Lisboa.

“O maior problema é estarmos com medo, não me preocupa se é UNITA ou Movimento Popular para a Libertação de Angola [MPLA], o que mais me preocupa é a Assembleia Nacional, porque se não for praticamente dividida e forem sempre eles a mandar, vamos continuar a sofrer”. “Eles”, explica este angolano emigrado há três anos em Portugal, são o MPLA, no poder em Angola há 47 anos.

“Eu votei na mudança de Adalberto Costa Júnior porque nasci na guerra e ainda estou a conviver com os dramas do passado”, afirma, lembrando que foi “obrigado, com 20 anos, a emigrar para a África do Sul” através da Namíbia escondido num camião de combustível. “Para transitar da Namíbia para a África do Sul, tive de entrar numa cisterna de combustível com sete homens, durante 45 minutos só para fugir de Angola e não ser militar, porque tinha 20 anos e já havia rusgas em Angola para me obrigar a ser militar”, conta.

Muito crítico da atuação do MPLA, José Miguel diz que a ação social no país é feita com camisolas do MPLA, que confundem a população que assim fica a pensar que é o partido que realiza estas iniciativas governamentais. “A população, quando vê alguém dar comida, uma mota ou um ‘input’ para a agricultura munido da camisola, pensam que é o MPLA a fazer. A população é tão analfabeta que não tem informação sobre o que é ação social, eles confundem a população”, critica, acrescentando que o partido está no poder há demasiado tempo.

“É mesmo só alternância [que é precisa], é muito tempo para um partido estar sentado na cadeira, tem de dar oportunidade a outros, haver alternância e mudança, mas não devem ficar inimigos”, defende, deixando no ar a pergunta: “Ele [o Presidente, João Lourenço] entra com o intuito de acabar com a corrupção, mas eu pergunto quem é do MPLA e não fez corrupção, a vida que eles têm foi dada pelo homem que morreu agora [ex-presidente José Eduardo dos Santos] e eles todos sabem”.

Opinião contrária tem Rosa Almeida, radicada em Portugal há 20 anos, para quem o MPLA simboliza a continuidade de Angola no bom caminho. “Votei para o meu presidente, pela continuidade, ele em pouco tempo que está no governo, com as dificuldades económicas que passámos, em meio ano conseguiu resolver vários problemas sociais, na saúde, na educação e na agricultura”, explica, depois de sair de uma roda de amigas, que são “todas do M, nada do contra”. “Estamos no bom caminho e pensamos que ele deverá continuar a trabalhar, com o seu esforço e contando connosco, nós devemos ajudá-lo para o país começar a levantar-se”, diz esta emigrante angolana.

Questionada sobre a perceção de corrupção e de quase meio século de poder de um só partido, Rosa Almeida admite alguns problemas, mas garante que o povo continua com o MPLA.

“O presidente que morreu fez muito, deixou o seu legado para o outro presidente e esse está a dar continuidade [ao trabalho feito]. Tivemos problemas porque alguns governantes não foram sérios para o ex-presidente e este tomou algumas medidas sérias, estão a resolver os problemas e devem continuar a resolver”, diz, concluindo: “A força do MPLA é uma força que o povo tem, o povo gosta do MPLA, com todos os defeitos, mas é o nosso MPLA e ninguém mais tem capacidade de aguentar e trabalhar para o povo a não ser o MPLA”.

História diferente tem Joaquim Fernandes da Silva, que veio para Portugal no princípio da pandemia, já com a esperança de poder votar pela primeira vez no estrangeiro para as eleições no seu país. “Senti-me cidadão angolano com direito a voto e cumpri o meu dever de cidadania, aconselho os meus compatriotas a fazer o mesmo”, afirma.

Quando questionado diretamente sobre em quem votou, prefere contornar a questão, elogiando a possibilidade de os cidadãos angolanos votarem no estrangeiro pela primeira vez, mas depois lá diz que está descontente com a governação de João Lourenço. “Não estou contente com a governação porque sinto que há muitas falhas”, comentou, apontando exemplos reais na saúde, na educação, nos salários e no apoio à população mais desfavorecida.

“Outra falha é a fome, tenho parentes e colegas em Angola que com aquilo que ganham não conseguem matar a fome, têm de recorrer a esquemas e biscates, não acho justo, são estas mazelas que vamos ver se o próximo candidato melhora, é preciso corrigir o que está mal e melhorar aquilo que está bem”, afirma, recuperando um slogan do MPLA, mas quem tem como destinatário a UNITA.

A votação em Lisboa e Porto, as duas cidades onde é possível aos angolanos votarem, começou hoje às 07:00, e prolonga-se até às 17:00. Segundo o ponto focal da CNE em Lisboa, Carlos Santos, tudo está a decorrer com normalidade. “Não há problema absolutamente nenhum, temos de corrigir detalhes que precisam de ser melhorados, mas tudo está a correr na perfeição”, disse.

As quintas eleições gerais em Angola perpetuam a disputa entre os dois principais partidos do país, o MPLA (Governo) e a UNITA (oposição), que tentam conquistar a maioria dos 220 lugares da Assembleia Nacional.

No total, concorrem oito formações políticas que tentam conquistar o voto dos 14,4 milhões de eleitores. As cerca de 13 mil assembleias de voto no país e diáspora vão estar abertas entre as 07:00 e as 17:00 (mesma hora em Lisboa). O processo eleitoral, que tem cerca de 1.300 observadores nacionais e internacionais, tem sido criticado pela oposição, considerando-o pouco transparente.

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