Violência sexual contra mulheres na Coreia do Norte faz parte do dia-a-dia

Violência sexual contra mulheres na Coreia do Norte faz parte do dia-a-dia

A violência sexual contra as mulheres realizada por homens é tão comum na Coreia do Norte que passou a ser aceite como parte do dia-a-dia.

A organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch diz no relatório «You cry at Night, but Don’t Know Why (Chora-se à noite, sem se saber porquê)» que os responsáveis norte-coreanos atuam com impunidade. Isto porque o governo não investiga denúncias nem oferece proteção às vítimas.

«Embora a violência sexual seja motivo de preocupação em todo o lado, existem cada vez mais provas a sugerir que ela é endémica na Coreia do Norte», refere a Human Rights Watch (HRW).

Segundo a HRW, quando um funcionário numa posição de poder «escolhe» uma mulher ela tem de obedecer a qualquer pedido.  «Quando lhes apetecia, guardas do mercado ou polícias pediam-me que os seguisse para uma sala vazia fora do mercado ou outro sítio qualquer», disse Oh Jung-hee, uma antiga comerciante que abandonou a Coreia do Norte em 2014 e que contou ter sido abusada várias vezes.

«Eles consideram-nos brinquedos. Estamos à mercê dos homens.»

Por ser uma atitude tão comum, os homens não pensam que o que estão a fazer é errado e as mulheres passaram a aceitá-la. Mas «às vezes, do nada, chora-se à noite sem se saber porquê», confessa Oh Jung-hee.

Segundo o marido da comerciante, as mulheres «têm de aceitar que a coerção sexual (por homens numa posição de poder) faz parte da dinâmica social e de mercado. É a única maneira de sobreviver».

«A violência sexual na Coreia do Norte é um segredo notório, sem resposta e amplamente tolerado», disse o diretor executivo da HRW, Kenneth Roth, citado no comunicado de divulgação do relatório.

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Este é baseado sobretudo nos testemunhos de 54 norte-coreanos que deixaram o país depois de 2011, quando o atual líder Kim Jong-un subiu ao poder.

Segundo as entrevistadas, “os predadores sexuais incluem dirigentes de alto nível do partido, guardas e interrogadores de prisões, responsáveis da polícia, procuradores e soldados”.

Yoon Su-ryun, antiga contrabandista de ervas medicinais para a China, com cerca de 30 anos, esteve detida em agosto de 2012 e foi violada por um polícia. Declarou à HRW: «Pensei que estava a oferecer o meu corpo para poder sair de lá e ir ter com a minha filha. Na altura nem sequer estava perturbada. Até pensei que tinha sorte. Agora que moro aqui (na Coreia do Sul), (eu sei que) é violência sexual e violação».

Violência Sexual na Coreia do Norte | «As mulheres não deviam correr o risco de serem violadas quando deixam as suas casas para ganhar dinheiro para alimentar as suas famílias”

As norte-coreanas raramente denunciam qualquer abuso, num dos países mais repressivos e pobres do mundo. Além do medo das represálias e da vergonha social, faltam apoio social e serviços legais.

A HRW recomenda no relatório que o governo norte-coreano deve reconhecer o problema da violência sexual, exigir que a polícia investigue os casos independentemente da posição ou estatuto dos alegados autores e penalizar os infratores. Pede ainda a criação de condições que permitam a existência de denúncias anónimas sobre violência sexual por parte de funcionários do governo e a recolha estatística das queixas.

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A organização de defesa dos direitos humanos apela ainda à Coreia do Sul, Estados Unidos, Japão, União Europeia, agências da ONU e organizações não-governamentais com presença na Coreia do Norte para pressionarem Pyongyang a realizar as reformas recomendadas no relatório.

«As mulheres norte-coreanas não deviam correr o risco de serem violadas por responsáveis governamentais ou trabalhadores quando deixam as suas casas para ganhar dinheiro para alimentar as suas famílias», assinalou Kenneth Roth.

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