Única presidente de Câmara quer mudar mentalidades a partir do “celeiro de Cabo Verde”

Jassira Monteiro é a única mulher presidente de câmara no arquipélago cabo-verdiano, assumindo querer “mudar mentalidades” e “influenciar”, a partir do “celeiro de Cabo Verde”, mostrando que faz tão bem como os homens.

Única presidente de Câmara quer mudar mentalidades a partir do

Única presidente de Câmara quer mudar mentalidades a partir do “celeiro de Cabo Verde”

Jassira Monteiro é a única mulher presidente de câmara no arquipélago cabo-verdiano, assumindo querer “mudar mentalidades” e “influenciar”, a partir do “celeiro de Cabo Verde”, mostrando que faz tão bem como os homens.

“Se conseguir mudar mentalidades, tanto de quem elege como de quem vai ser eleita, será sem dúvida uma grande vitória”, começa por contar em entrevista à Lusa a autarca de Santa Catarina, o terceiro mais populoso município de Cabo Verde, a única presidente de Câmara no atual mandato autárquico no país, iniciado em 2020.

Entrou para a política apenas em 2016, como vereadora com pastas como Cultura e Género, naquele mesmo município, com mais de 43.000 habitantes, mais de 80% dedicados à agricultura, e nas eleições de outubro de 2020 concorreu como número dois de José Alves Fernandes, reconduzido no cargo de presidente da Câmara de Santa Catarina.

Menos de dois meses depois das eleições autárquicas, a vida da Jassira Monteiro, 40 anos, deu uma volta. O presidente eleito, conhecido localmente como ‘Beto’ Alves, morreu tragicamente em 24 de dezembro, Jassira refletiu e decidiu aceitar ocupar o lugar, passando a ser a primeira mulher presidente de câmara na história da ilha de Santiago, a maior e mais populosa do arquipélago.

“Foram dias de muita tristeza, de muita insegurança. Foram dias em que foi necessária alguma firmeza, alguma resiliência, muito encontro comigo mesma. No fundo foram dois momentos, a morte do presidente, mas também decidir assumir ou não a presidência de uma Câmara que por si só tem muitos desafios”, recordou.

Passou a gerir um dos mais importantes municípios do país e, em última instância, a mandar em mais de 700 trabalhadores e um orçamento municipal de mais de mil milhões de escudos (nove milhões de euros).

Sem rodeios, assume a realidade: “É uma sociedade que, mesmo que não queiramos assumir, é machista”.

Isto aliado o facto de se tratar de um município no interior de Santiago, sobretudo agrícola, com 243 quilómetros quadrados, daí ser conhecido como o “celeiro de Cabo Verde”, em que a mulher é mais vista como a “executarem, não na liderança”.

E também sem rodeios, não esconde que em pouco mais de meio ano como presidente de Câmara há se sentiu condicionada nas ordens que tem de dar no dia a dia, só por ser mulher.

“Não vou aqui com palavras bonitas. É claro que se sente. Mas eu sou fruto desta sociedade, eu não vou dizer que a transição devia ser natural, é claro que isto choca as pessoas, causa alguma surpresa às pessoas. Mas o que nós devemos fazer é, onde está a chocar e a causar desconforto, trabalharmos no sentido de mostra às pessoas que a figura do presidente podia ser assumida tanto por um homem como por uma mulher”, afirma.

“A mulher faz também como o homem, é preciso é ter as oportunidades, as condições. Nós é que temos que lutar todos os dias e combater as mentalidades, no sentido de daqui a uns anos termos mais mulheres na política e nos lugares de decisão, mas confortáveis com esta posição, não se sentirem como o elo mais fraco”, acrescenta.

Assume que “não imaginava ser presidente nesta altura” quando entrou na política, e que só pensava ainda “aprender mais”, apesar de admitir outros voos na política no futuro. Mas encara o facto de não ter liderado nas eleições a equipa que hoje conduz os destinos do município como uma possibilidade que teve de mostrar que também sabe fazer, como os seus restantes 21 colegas, homens, presidentes de câmara em Cabo Verde.

“Eu sou presidente, no fundo, devido a uma vacatura. Mas devemos ter presidentes que vão nas listas como cabeças-de-lista, defendem a sua plataforma eleitoral e são eleitas. É isso que eu quero e que eu quero representar, ter essa oportunidade de influenciar, no fundo”, garante.

Licenciada pela Universidade Autónoma de Lisboa em linguística, chegou a ser ativista social, também em Portugal, do entretanto extinto Alto Comissariado para as Migrações e Minorias Étnicas.

Mãe de dois rapazes, de 12 e 16 anos, reconhece que há coisas que mudaram desde que assumiu o cargo, como “de comportamento ou de estilo de vida”, mesmo na esfera privada.

“Acho que o que mais mudou foi a minha convivência, com os amigos. Hoje tenho menos tempo, tenho menos tempo para dedicar à minha família. Tenho de fazer melhor gestão do tempo e mesmo cá no Município há que saber estar aqui dentro, resolver as coisas que vão aparecendo no dia a dia da câmara, mas também gerir lá fora, porque eu tenho de estar na comunidade, tenho que visitar pás pessoas, perceber quais são os desafios e ao mesmo tempo estar nas reuniões”, explica.

E “trabalhar mais” do que se fosse um presidente homem, para se poder afirmar nas funções: “É claro que sinto, eu sou presidente pela primeira vez, nas condições que fui, sou mãe, tenho que fazer um esforço redobrado, está claro. Porque nós ainda temos o peso de sermos nós, as mais e as mulheres, quem têm mais responsabilidade em casa”.

“Se eu chegar cá muito tarde, ninguém quer saber se eu estive a dar o pequeno-almoço ao um filho antes ou se ele está doente ou se o levei ao médico. Querem é que esteja cá para trabalhar. Mas no fundo o que faz falta às pessoas é perceberem que presidente é ser humano, tem família, tem dias menos bons”, desabafa.

As próximas eleições autárquicas em Cabo Verde serão só em 2024, até lá diz que há ainda muito tempo para falar sobre a sua candidatura à frente da lista do Movimento para a Democracia (MpD) a Santa Catarina, mas garante que a decisão, por vontade do partido e dela própria, não será condicionada por ser mulher.

“O meu papel aqui é sobretudo influenciar. Eu tenho que fazer bem, para deixar uma herança, no fundo, para daqui a três anos e tal, quando forem as próximas eleições, termos mais mulheres com coragem e garra de irem a uma lista, como cabeça-de-lista”, atira.

Até lá, pela frente, assume que tem ainda muito trabalho no desenvolvimento do concelho, na definição das políticas para a família e para o empoderamento da mulher, a par do emprego do jovem, mas também da continuidade das obras de requalificação urbana e ambiental no município.

“Mas eu gostava de pensar que findos estes três anos e meio muitas mulheres se reviram em mim e que haverá mais mulheres em 2024 a dizer ‘sim, eu vou para a lista porque vi que é possível’. Mas acima de tudo perceber que as pessoas começam a acreditar que a mulher também pode fazer”, conclui.

PVJ // PJA

By Impala News / Lusa

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