Ucrânia: De médico a paciente nas caves do Hospital de Jitomir

Durante mais de 20 anos, Vitaly Makukh adormeceu muita gente enquanto anestesista em Jitomir, na Ucrânia central, mas agora está a recuperar de uma infeção de covid-19 numa cave

Ucrânia: De médico a paciente nas caves do Hospital de Jitomir

Ucrânia: De médico a paciente nas caves do Hospital de Jitomir

Durante mais de 20 anos, Vitaly Makukh adormeceu muita gente enquanto anestesista em Jitomir, na Ucrânia central, mas agora está a recuperar de uma infeção de covid-19 numa cave

Durante mais de 20 anos, Vitaly Makukh adormeceu muita gente enquanto anestesista em Jitomir, na Ucrânia central. Mas agora é tempo de se entregar às mãos dos antigos colegas e recuperar de uma infeção de covid-19 numa cave. O Hospital 2 desta cidade não é de todo o mesmo que antigo chefe de serviço conheceu. E que, ainda há poucos meses, enfrentava a pandemia de que já ninguém fala na Ucrânia. Funciona no mesmo complexo hospitalar de várias especialidades, tem os mesmos seis pisos. Mas, desde o início do mês, apenas os três primeiros estão a operacionais.

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Os andares superiores encontram-se encerrados desde que um bombardeamento devastou casas. E um mercado informal no quarteirão fronteiro, matando pelo menos quatro pessoas. “Acordei com o toque do telefone. Eram dezenas de chamadas e mais chamadas. Comecei a receber notícias no telemóvel e era horrível”, recorda à Lusa Vitaliia, médica de clínica geral e do serviço de urgência. De um bolso da bata branca, saca do mesmo telemóvel. E começa a exibir imagens dos efeitos das ondas de choque que sacudiram a unidade hospitalar, arrancaram portas, estilhaçaram quase todas as janelas. E ainda segmentos dos tetos falsos dos corredores e rebocos das paredes depositado em pó no chão. Apesar dos estragos provocados em poucos pares de segundos, à explosão daquele bombardeamento “seguiu-se algo incrível”, conta a médica. “Apareceram voluntários de todos os lados e, em cinco, seis horas, repararam quase tudo”.

“Comecei a receber notícias no telemóvel e era horrível”

Em lugar dos vidros partidos, as janelas foram revestidas com placas de madeira. Que, para mais, mantêm a iluminação das instalações invisível. Nem todas, mas a maioria das ombreiras danificadas tem portas novas. Alguns doentes foram transportados para os outros quatro hospitais da cidade, outros para casa, outros ainda para uma ampliação suscitada pela emergência da guerra: a cave. Num bloco ao lado da unidade principal, a Dra. Vitalii abre caminho por um corredor estreito, escuro e de paredes velhas e sujas. Como se tratasse de uma passagem secreta. Ao longo do caminho sobre o chão húmido de cimento, apesar da penumbra, são visíveis as silhuetas de equipamento hospitalar obsoleto. Mobiliário fora de uso, tubagens metálicas à vista e outros depósitos de objetos inúteis. No final, junto a uma cadeira de rodas e escoltada por dois cofres pesados esquecidos, uma cortina de plástico separa o corredor de uma enfermaria.

A médica justifica a abertura deste espaço subterrâneo com a frequência dos alarmes ecoados pelas sirenes em Jitomir. “Normalmente, seis, sete vezes por dia”, descreve. O que tornava impraticável transferir os doentes. Muitos dos quais sem mobilidade, em tempo para lugar seguro. “Em vez de estarmos sempre a deslocá-los, decidimos basicamente deixá-los na cave.” Em pequenas enfermarias separadas por mais cortinas de plástico, encontram-se cerca de 30 dos 60 doentes internados no Hospital 2. E um deles, na cama de ferro junto à parede de contraplacado mais distante da unidade improvisada de covid-19, é Vitaly Makukh.

Em Jitomir, os bombardeamentos já atingiram uma escola, depósitos de gás, uma termoelétrica e instalações militares, além de dois hospitais.

Quando o ex-anestesista de 66 anos foi internado, ainda não tinha começado a guerra na Ucrânia. Está internado há um mês neste hospital de Jitomir. E, desde sábado, nesta enfermaria improvisada pelas circunstâncias. Quando se deu a explosão no quarteirão vizinho, ficou surdo vários dias. E só agora começa a recuperar alguma audição. Em hora de visitas, é pela narração da mulher de Vitaly que se lembra como ambos deixaram Jitomir e se estabeleceram, em 2011, na Líbia, mesmo a tempo de se enfiarem noutro conflito. “Ao menos lá, quando a NATO bombardeava, os alvos atingidos eram militares”, conta Olega. Também antiga médica e ex-professora numa escola superior de saúde. Estão casados há 41 anos. Só que desta vez a guerra entrou-lhes pelo país dentro. E, em Jitomir, os bombardeamentos já atingiram uma escola, depósitos de gás, uma termoelétrica e instalações militares, além de dois hospitais.

Desde que regressou de Tripoli, em 2017, o casal vivia no nono andar de um prédio da cidade. De lá, era fácil observar, na amplitude das vastas planícies da região, as madrugadas iluminadas por clarões, antecedidos pelo troar das explosões ao longe. A somar às passagens ensurdecedoras da aviação das forças russas, que ocuparam posições a escassas dezenas de quilómetros. “Tornou-se demasiado perigoso e agora estou na periferia”, lamenta Olega. Enquanto acarinha e ajuda a tratar o marido, “bem tratado, alimentado e confortável”, debaixo de pesados cobertores. Embora ainda oxigenado, a sua recuperação final está por pouco. E, ao desejo de melhoras rápidas, o Dr. Makukh sorri e encosta o rosto ao ouvido da mulher: “Ele pede para dizer que espera rápidas melhoras para a Ucrânia.”

“Claro que também temos feridos de bombardeamentos e militares feridos”

No Hospital 2 de Jitomir, o padrão de chegada de doentes não se alterou de forma radical desde o início da guerra, segundo a médica que recebeu a Lusa. “Claro que também temos feridos de bombardeamentos e militares feridos”, afirma. Embora sobre estes últimos não esteja autorizada a falar e muito menos dar-lhes acesso. A debandada de parte da população da cidade – à exceção dos homens entre os 18 e os 60 anos proibidos de abandonar o país – para a região mais tranquila da Ucrânia ocidental ou para o estrangeiro, tem relação proporcional com as entradas na unidade hospitalar. Se atualmente há 60 internados. Sobretudo idosos com doenças crónicas associadas, antes da guerra o número médio provável seria entre 150 e 200 pacientes.

Nem sequer houve um aumento de procura das urgências provocada por assomos de ansiedade, ataques de pânico ou perturbações cardíacas. Algo que a própria clínica não consegue explicar. “Já me fiz a mesma pergunta e ainda não consegui entender”. Segundo a médica, parte do pessoal de saúde também abandonou a cidade a redução das equipas rondará os 30%. Mas a história continua a ser a mesma. “Tudo depende da quantidade de doentes. E, enquanto for esta, temos todos e tudo o que precisamos. Incluindo equipamentos e medicamentos”, afirma Vitalii. Acrescentando que os três pisos superiores agora sem uso estão a ser poupados e prontos a ocupar a qualquer instante.

“Tudo neste hospital está calmo e controlado”, insiste. Enquanto percorre os corredores azuis e silenciosos do piso 2, onde nem falta um aquário. “No edifício atrás, na maternidade, é igual. Estão lá cerca de 20 mulheres e também elas são bem assistidas.” Mas todos os dias, quando termina o serviço e cruza a discreta porta do Hospital 2 de Jitomir, o primeiro cenário com que se depara é o do quarteirão arrasado logo nos alvores da guerra. As instalações de uma unidade militar de forças especiais ucranianas foram também parcialmente destruídas. No que seria o alvo pretendido pela aviação russa, no mesmo local – a avenida da Paz.

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