Ucrânia: Cada um é a sua guerra numa resistência de todos seis meses depois

Seis meses após o início da guerra na Ucrânia, os habitantes de Odessa tentam reaver as suas vidas, num desafio diário contra o cansaço e na busca de uma normalidade que todos sabem não ser totalmente possível.

Ucrânia: Cada um é a sua guerra numa resistência de todos seis meses depois

Ucrânia: Cada um é a sua guerra numa resistência de todos seis meses depois

Seis meses após o início da guerra na Ucrânia, os habitantes de Odessa tentam reaver as suas vidas, num desafio diário contra o cansaço e na busca de uma normalidade que todos sabem não ser totalmente possível.

Para Iryna, 44 anos, essa luta já dura na verdade há oito anos, quando eclodiu a guerra no Donbass, no leste do país, e começou a repartir o tempo entre as aulas de Filologia ucraniana, na Universidade de Odessa, onde é professora, o cuidado dos dois filhos e uma intensa atividade de voluntariado, no apoio a militares feridos em combate.

Ao fim de semana, as ruas da cidade portuária do sul da Ucrânia vibram com pessoas em movimento, os cafés, esplanadas e parques estão cheios, há música em toda a parte, mas para Iryna o descanso não tem lugar. A Lusa encontra-a num grupo de voluntários que fabrica artesanalmente redes de camuflagem: “Isto é algo que faço também pela minha alma.”

É um desafio diário combater a fadiga de guerra, animando os outros à sua volta quando se desalentam ou procurando ajuda quando é ela própria quem se vai abaixo. Anda nisto deste 2014, mas foi o dia da invasão russa da Ucrânia que marcou o ponto de viragem do seu longo ativismo.

“Senti-me aliviada, porque finalmente haverá um fim lógico”, desabafa, justificando este sentimento desconcertante com a indiferença que sentia prevalecer na Ucrânia, quando “a guerra continuava, os militares eram mortos e o resto do país vivia normalmente tentando esquecer o que se estava a passar”.

Tudo mudou naquele dia 24 de fevereiro e agora sabe que, oito anos após o Donbass, a estagnação e falta de evolução da crise deu lugar a um cenário em que “tudo é movimento” e isso dá-lhe esperança de que a guerra acabe e com a vitória de Ucrânia: “É para isso que eu vivo”.

E o fim pressentiu-o logo no começo desta crise, quando nos primeiros dias da invasão a propaganda de Moscovo era tão forte que Iryna pensava que “tudo tinha falhado”, ao ouvir que Odessa tinha caído. Até ela já achava que era verdade, embora não vislumbrasse qualquer russo por perto. Viu outras coisas.

“Quando vinha para a rua, via gente que não sabe nada da cultura ucraniana a fabricar ‘cocktails molotov’, redes de camuflagem, a encher sacos com areia do Mar Negro, mais filas gigantescas de pessoas a doar sangue. Estavam a fazer aquilo que havia a fazer. Foi tão espantoso que percebi, por fim, que é impossível a Rússia vencer”.

Foi à sua volta que a professora foi buscar as suas forças e robustecer o seu voluntariado nas visitas aos militares feridos “e fazê-los sentir em casa e que o seu sacrifício não era em vão”, na participação em projetos de alimentação de deslocados e desfavorecidos, atividades culturais e recolha de donativos, envolvendo também os seus filhos e encontrando nos mais jovens um patriotismo diferente do seu: “Nós, mais velhos, passámos por muito para chegarmos até aqui. Nos jovens, já vem com o DNA”.

Dentro de dois dias, a Ucrânia assinala o dia da sua independência, mas também seis meses do início da invasão russa e Iryna não encontra motivos para celebrações, até porque as canções patrióticas chamam as lágrimas e mais uma vez “não são tempos de fraquezas”, nem quando vê que são “os melhores dos ucranianos” que morrem todos os dias.

“Isso dá que pensar no preço a pagar mas não há outra opção. Quando me perguntam o que vou fazer no dia da vitória, respondo sempre o mesmo: luto”.

Num país em guerra, Odessa procura em cada esquina o seu sossego e enganar as circunstâncias, quando as linhas russas estão a distância incerta, mas Kherson, a pouco mais de 200 quilómetros a leste, foi tomada logo nos alvores da invasão e Mykolaiv, a cerca de 100 a norte, é alvo de ataques intensos há várias semanas.

É de ambas que chegam à “Pérola do Mar Negro” muitos deslocados e que vagueiam entre a monumentalidade do centro da cidade, músicos de rua, meninas que vendem beijos e abraços. Há até um casamento, num cenário em que tudo parece normal menos a gritaria diária dos alarmes de ataque aéreo ou as notícias recorrentes de bombardeamentos, como aquele que aconteceu na quarta-feira num ‘resort’ próximo.

“As pessoas vêm à procura de ‘peças de paz’, assim mesmo, ‘peças de paz’. Perderam filhos, mães, pais, casas e empregos. Mas esta não é uma paz real quando se ouve todos os dias ‘alarme, alarme, alarme’ e não se sabe o que vai na cabeça daquele… não sei o que lhe chamar, mas já se percebeu quem é”, observa, numa alusão a Vladimir Putin, Presidente russo, Larissol Lora, guia turística, junto de um ‘tuk tuk’ estacionado na praça Gorsad, no coração da cidade.

Os deslocados tornaram-se nos novos clientes de Larissol Lora, que, embora já tenha testemunhado muita coisa na sua condição de “uma velha mulher” e dos seus conhecimentos de História, nunca tinha visto nada assim: “Parece um filme, mas não é, está a acontecer, hoje, agora. Há dias ofereci uma viagem a umas pessoas de Mariopol que tinham perdido várias familiares. E quando falava com elas, as minhas pernas tremiam, os olhos choravam. É impossível não chorar.”

Antes da guerra, aquele ‘tuk tuk’ fazia cerca de 25 viagens por dia. “Agora, cinco com sorte e são quase todos deslocados ou jornalistas estrangeiros”, conta Alexsei, um aluno de História e Sociologia de 20 anos, que partilha os estudos com esta atividade. Não precisa puxar muito pela memória para apontar que o último turista que se sentou ao seu lado foi há muitas semanas.

“Diria que foram cinco turistas no total desde o início da guerra. Não é suficiente mas mantemos o negócio para mostrar que somos fortes e para responder ao apelo do Presidente Zelensky de que a economia não pode parar”, prossegue Alexsei, concordando com a sua colega Larissa: a normalidade não pode ter lugar numa terra que já sofreu vários bombardeamentos desde o início da guerra. “Costumamos dizer agora ‘paz no céu’, porque é daí que as bombas caem”.

HB // NS

By Impala News / Lusa

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