Realocação de monumentos na África do Sul divide académicos

O académico sul-africano Thulasizwe Simpson defendeu que o reposicionamento de estátuas e monumentos preconizado pelo Presidente Ramaphosa não visa a inclusão social após mais de 40 anos de segregação racial e três décadas de partido único no país.

Realocação de monumentos na África do Sul divide académicos

Realocação de monumentos na África do Sul divide académicos

O académico sul-africano Thulasizwe Simpson defendeu que o reposicionamento de estátuas e monumentos preconizado pelo Presidente Ramaphosa não visa a inclusão social após mais de 40 anos de segregação racial e três décadas de partido único no país.

“Não se destina a servir a inclusão”, sublinhou o historiador da Universidade de Pretória, rejeitando ainda a ideia de ‘parques temáticos’ como solução para a conservação e preservação da História da África do Sul, apelidada pelo novo regime pós-apartheid como “o país do Arco-Íris” em reconhecimento da sua diversidade multicultural.

“Depois de visitar os parques de estátuas na Europa do Leste, julgo que os seus objetivos são semelhantes aos zoológicos humanos, não têm como objetivo cultivar o respeito pela história ou cultura preservada ali”, adiantou.

De acordo com este académico, os nomes e estátuas a preservar pela África do Sul pós-apartheid “deve ser uma decisão de painéis apartidários, reunindo todas as partes interessadas relevantes”, defendendo que as decisões “devem resultar da negociação”.

“Obviamente que não se pode deixar os monumentos como estão”, adiantou à Lusa, por seu lado, o historiador Clive Glaser, diretor do departamento de história da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo.

“É extremamente político e é ofensivo para os sul-africanos terem figuras-chave do passado racista da África do Sul homenageadas em espaços públicos. Dito isto, precisamos de nos prevenir contra a imposição por uma nova elite da sua própria visão de monumentação, da lista tediosa dos chamados ícones da luta de libertação de uma corrente política específica, entre outros”, afirmou.

Este académico defendeu ainda uma “consulta local genuína” junto das comunidades locais por forma a identificar se preferem que um determinado monumento “fique, ou que fique, mas com notas contextuais, ou que seja totalmente removido, isso deve ser levado muito a sério”.

“As pessoas precisam de sentir que essas decisões são tomadas com base num processo consultivo e não simplesmente imposto”, afirmou à Lusa Clive Glaser.

O historiador sul-africano considerou os ‘parques temáticos’ para estátuas e monumentos como locais “fastidiosos”, mas que “bons museus”, como o Museu do Apartheid, em Joanesburgo, “são essenciais”.

“Novamente, é importante consultar a população local e os historiadores, em vez de permitir que o Estado dite o conteúdo, o Museu do Apartheid foi um sucesso, eu acho, porque o Estado quase não teve papel na determinação do conteúdo”, frisou o académico sul-africano.

O revisionismo à luz do que a investigação possa trazer com a descoberta de testemunhos de fontes primárias ou até secundárias é, na opinião de Daniel Muralha, licenciado em história da antiguidade pela Universidade da África do Sul (UNISA), uma “mais valia que faz alargar o espetro da História”.

“Revisionismo à luz do que possa ser politicamente correto a um dado momento da linearidade temporal afasta-se da interpretação correta inerente à época em que esse facto histórico se tenha verificado, o que só lhe pode emprestar uma interpretação contemporânea que nada de histórico lhe traz”, adiantou à Lusa.

Daniel Muralha considerou também que a remoção ou modificação da toponímia “dá-se em alguma medida sempre que haja um golpe de Estado, ‘putsch’ ou revolução” e relembrou que no caso específico da África do Sul, um dos exemplos “mais emblemáticos” deu-se logo a seguir à queda do ‘apartheid’ quando Verwoerdburg, cidade vizinha a Pretória, a capital administrativa e presidencial, passou a ser denominada Centurion.

“O nome de Hendrik Verwoerd, o antigo primeiro-ministro considerado de principal arquiteto do ‘apartheid’, assim celebrado na edificação desse centro urbano, foi pronta e inexoravelmente removido com a queda do regime”, frisou.

Na sua ótica, a modificação dada à nomenclatura ou remoção de estátuas, “porém, em nada modifica factos históricos”, questionando “onde se demarca o limite a ser traçado no processo dessa modificação ou remoção, e quais são os critérios ou justificações” uma vez iniciado tal processo.

“Ao serem removidos de pontos focais de uma urbe ou zona rural, todavia, esses monumentos e estátuas perderão em muitos casos o simbolismo que à partida lhes foi atribuído”, referiu o investigador, para quem a edificação de ‘Parques Temáticos’ terá de “ser cuidadosa”, por forma a servir de “repositório temático autenticamente simbólico da História do país”.

“Ou em pouco mais se tornará do que em autêntico cemitério de estátuas e monumentos assim desarrumados para um canto”, salientou.

Daniel Muralha considera que ao ser dada uma continuidade aleatória à remoção de estátuas e monumentos, a África do Sul corre o risco de perpetuar um processo que “pode resvalar no exagero e/ou no desnecessário” à medida que “desliza o cursor do tempo”.

CYH // VM

By Impala News / Lusa

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