Mutilação genital feminina: Portugal registou 63 casos em 2018

A prática da mutilação genital feminina poderia ser erradicada em cinco anos, se a causa conseguisse angariar financiamento para lançar uma campanha global, afirma Jaha Dukure.

Mutilação genital feminina: Portugal registou 63 casos em 2018

Mutilação genital feminina: Portugal registou 63 casos em 2018

A prática da mutilação genital feminina poderia ser erradicada em cinco anos, se a causa conseguisse angariar financiamento para lançar uma campanha global, afirma Jaha Dukure.

A prática da mutilação genital feminina (MGF) poderia ser erradicada em cinco anos, se a causa conseguisse angariar financiamento para lançar uma campanha global, disse à Lusa Jaha Dukureh, que hoje recebe no parlamento português o Prémio Norte-Sul. A embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas para o continente africano, que recebe hoje na Assembleia da República o prémio do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa relativo a 2018, numa cerimónia onde estará presente Marcelo Rebelo de Sousa, considera que o objetivo estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para 2030 para a erradicação da prática que vitimou já mais de 200 milhões de mulheres em todo o mundo poderia ser encurtado. Portugal registou 63 casos de mutilação genital feminina em 2018.

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Ativista acredita que “a defesa dos direitos não deve ter um preço”

“Se conseguíssemos arrecadar 20 milhões de dólares [18 milhões de euros] para uma campanha global sobre a MGF, acho que não teríamos que esperar até 2030 para erradicá-la”, afirmou Jaha Dukureh. Dukureh, atualmente a viver nos Estados Unidos, é fundadora da organização não-governamental ‘Safe Hands for Girls’ e a “motorista” principal de um autocarro cor-de-rosa adquirido pela organização no início de 2018 que tem percorrido as estradas da sua terra natal, a Gâmbia.

“Se pudéssemos ter um autocarro rosa em cada país em que se pratica a MGF, tenho a certeza de que mais pessoas saberiam sobre os seus efeitos nocivos e as coisas poderiam mudar” mais rapidamente, considerou. Um autocarro por país seria “suficiente”, sublinhou. “Não precisamos de muitos”. A ativista acredita que “a defesa dos direitos não deve ter um preço” e também que o dinheiro não deve ser desperdiçado.

Portugal registou 63 casos de mutilação genital feminina em 2018

A chegada de Jaha Dukureh a Portugal para receber o prémio do Conselho da Europa coincidiu com a divulgação dos últimos dados do instituto de estatísticas gambiano, que apontam para uma queda de cerca de 25% do número de raparigas vítimas de MGF nos últimos cinco anos.

“A MGF é praticada no nosso país em meninas entre os 0 e 14 anos. Depois dos 14 anos já não é feita. Em 2018, a percentagem de meninas vítimas que qualquer tipo de MGF foi de 50,6%. No último estudo era de mais de 74%. Isso quer dizer que baixámos a MGF em 25% no nosso país num período de menos de cinco anos. […] Se estes números mostram o que estamos a pensar, a diferença é enorme. Acho que nunca se viu nada como isto em África”, disse à Lusa.

Portugal registou 63 casos de mutilação genital feminina em 2018, mas até meados de agosto deste ano o número de registos ascendia já a 54 casos, de acordo com os dados do projeto Práticas Saudáveis, de prevenção e combate ao fenómeno, centrado nas estruturas de saúde nacionais. “Estou realmente surpreendida que vocês tenham tantos casos de MGF em Portugal”, afirmou à Lusa, inibindo-se de avançar qualquer sugestão para a mitigação da prática. “Preciso de compreender exatamente o que se passa em Portugal e quais são as tendências para que possa oferecer qualquer tipo de conselho”, justificou.

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