Moçambique/Ataques: Ação em Palma visa dividir meios militares de Maputo – Fernando Jorge Cardoso

O investigador Fernando Jorge Cardoso considera que o ataque a Palma constitui a ação de maior visibilidade dos insurgentes no norte de Moçambique e visa desviar os recursos militares de Maputo da reconquista de Mocímboa da Praia.

Moçambique/Ataques: Ação em Palma visa dividir meios militares de Maputo - Fernando Jorge Cardoso

Moçambique/Ataques: Ação em Palma visa dividir meios militares de Maputo – Fernando Jorge Cardoso

O investigador Fernando Jorge Cardoso considera que o ataque a Palma constitui a ação de maior visibilidade dos insurgentes no norte de Moçambique e visa desviar os recursos militares de Maputo da reconquista de Mocímboa da Praia.

A vila de Mocímboa da Praia está ocupada há vários meses pelos insurgentes, cujas ações têm sido reivindicadas pelo movimento terrorista Estado Islâmico, e este ataque a Palma, irá colocar novos problemas aos militares moçambicanos que já anunciaram o início de ações no terreno após o fim da época das chuvas, que se verifica agora, explicou à Lusa Fernando Jorge Cardoso.

A reconquista de Mocímboa da Praia, palco do primeiro ataque do grupo em 2017 e a maior localidade do norte da província de Cabo Delgado, “foi anunciada pelos próprios chefes militares moçambicanos”, salientou o investigador, admitindo que o ataque a Palma, pela sua visibilidade, “é uma forma também de desviar a atenção e efetivos daquilo que aparentemente tinha sido anunciada como um dos objetivos principais por parte das Forças Armadas moçambicanas”.

Segundo as imagens divulgadas pela agência do Estado Islâmico, o ataque foi feito por “um grupo que se aproximará pelo menos de cem combatentes extremistas” que terão feito ataques em várias localidades, como Nangade ou Naumanga, do interior de Cabo Delgado, à medida que se aproximavam da vila portuária de Palma.

“O ataque a Palma é um ataque particularmente importante do ponto de vista de visibilidade porque ele aparece colocado nos órgãos de informação internacionais dos principais países ocidentais particularmente nos Estados Unidos”, considerou Fernando Jorge Cardoso.

A isso se soma a proximidade da plataforma de exploração de gás natural de Afungi, gerida pela francesa Total, pelo que é “muito natural que, após três ou quatro meses em que o Estado Islâmico não faz pronunciamentos sobre aquilo que se está a passar no nordeste de Cabo Delgado”, aparece agora a “dizer ‘nós tomamos Palma'”, apontou o especialista.

Para o investigador do ISCTE — Instituto Universitário de Lisboa, esta reivindicação do Estado Islâmico “pode ser um pronunciamento de natureza oportunista”, do estilo: “Nós estamos vivos”.

Uma das razões do ataque a Palma na quarta-feira pode estar relacionada com a chegada de um navio, fretado por comerciantes e pela petrolífera Total, com mantimentos para as localidades fronteiriças da Tanzânia.

“Este ataque a Palma coincide com a chegada deste navio fretado” e existem testemunhos de que os “combatentes estavam em dificuldade de sobrevivência”, com falta de mantimentos, frisou.

Em Moçambique, acrescentou, assiste-se a uma mudança do modelo de gestão do conflito, passando as Forças Armadas a terem um papel mais ativo em relação à polícia e forças de segurança.

A presença de militares estrangeiros no terreno não é considerada essencial para o sucesso das operações por Fernando Jorge Cardoso. “Por razões de eficácia não faz sentido”, disse.

O apoio marítimo, que já existe por parte da África do Sul, a formação e o reforço de suporte logístico — armamentos, informações, vigilância — serão os mais adequados para a cooperação militar, que deverá sempre privilegiar ações de forças especiais.

“Os fuzileiros moçambicanos perderam Mocímboa da Praia porque, pura e simplesmente, acabaram as munições”, exemplificou Fernando Jorge Cardoso, que minimizou as críticas à falta de abertura de apoio internacional para o combate aos rebeldes.

“Independentemente da má governação de Moçambique, da existência de abusos de autoridade e independentemente do desleixo por parte das autoridades locais que existe, não estou a ver que o Governo moçambicano esteja interessado em perder esta guerra”, vincou.

O analista português referiu que estes insurgentes são considerados uma seita pela maioria islâmica da província e não são acarinhados pela população. Prova disso é o facto de raptarem rapazes para formarem soldados ou raparigas para fins sexuais, acrescentou.

Dezenas de civis, incluindo sete pessoas que tentavam fugir do principal hotel de Palma, no norte de Moçambique, foram mortos pelo grupo armado que atacou a vila na quarta-feira.

A violência está a provocar uma crise humanitária com quase 700 mil deslocados e mais de duas mil mortes.

O movimento terrorista Estado Islâmico reivindicou hoje o controlo da vila de Palma.

A agência oficial do movimento, a Amaq, divulgou imagens da vila e reivindicou a ocupação do capital do distrito, junto à fronteira com a Tanzânia.

Vários países têm oferecido apoio militar no terreno a Maputo para combater estes insurgentes, cujas ações já foram reivindicadas pelo autoproclamado Estado Islâmico, mas, até ao momento, ainda não existiu abertura para isso, embora existam relatos e testemunhos que apontam para a existência de empresas de segurança e de mercenários na zona.

PJA // LFS

By Impala News / Lusa

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