Maiores partidos timorenses em silêncio sobre soluções para crise política

Os dois maiores partidos timorenses, Fretilin e CNRT, mantiveram-se hoje em silêncio sobre possíveis soluções para a crise política no país, desencadeada com o ‘chumbo’, na sexta-feira, da proposta de Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2020.

Maiores partidos timorenses em silêncio sobre soluções para crise política

Maiores partidos timorenses em silêncio sobre soluções para crise política

Os dois maiores partidos timorenses, Fretilin e CNRT, mantiveram-se hoje em silêncio sobre possíveis soluções para a crise política no país, desencadeada com o ‘chumbo’, na sexta-feira, da proposta de Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2020.

Contactados pela Lusa, os secretários-gerais da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin), Mari Alkatiri, e do Congresso Nacional da Reconstrução Timorense (CNRT), Francisco Kalbuadi, optaram por manter “o silêncio”.

Outras fontes partidárias garantiram que o assunto está, no entanto, a ser debatido internamente, antes do início, na quinta-feira, de uma ronda de reuniões convocadas pelo Presidente de Timor-Leste, Francisco Guterres Lu-Olo, com os líderes políticos do país.

As mesmas fontes sugeriram que a posição da Fretilin assenta numa solução que passe por um Governo de grande inclusão, enquanto o CNRT mostra maior abertura à realização de novas eleições.

Fontes partidárias da Fretilin, do CNRT, do Partido Democrático (PD) e do Partido Libertação Popular (PLP) admitiram à Lusa desconhecer soluções para a crise que vai deixar o país por tempo indefinido com um apertado regime duodecimal, com grande impacto numa economia, que em 2019 não conseguiu recuperar de dois anos de contração.

Formalmente, o Governo liderado por Taur Matan Ruak continua em plenas funções, apesar do primeiro-ministro ter admitido esta semana que a Aliança de Mudança para o Progresso (AMP) — a coligação que o apoia — “já não existe”.

Taur Matan Ruak instruiu o executivo para cumprir as funções com normalidade, não tendo sido ainda dado qualquer passo que marque, formalmente, o fim do VIII Governo saído das eleições antecipadas de 2018.

A crise política é consequência de dois anos de divergências políticas e de intransigência de posições que acabaram por condicionar a governação.

Uma situação que se arrasta em Timor-Leste desde 2017, quando a Fretilin venceu as eleições por pouco mais de 1.000 votos e acabou desafiada por três partidos — o CNRT, de Xanana Gusmão, o PLP, de Taur Matan Ruak, e o Kmanek Haburas Unidade Nacional Timor Oan (KHUNTO) de José Naimori.

Nasceu assim a coligação da AMP, com forças que se criticaram mutuamente durante a campanha de 2017. A AMP acabou por travar o orçamento e o programa do Governo liderado por Mari Alkatiri, o que levou à dissolução do parlamento e a eleições antecipadas.

A AMP apresentou-se como coligação pré-eleitoral — ainda que os partidos-membros se tenham depois dividido em bancadas no parlamento — venceu com maioria absoluta, mas enfrentou depois o Presidente timorense, que 19 meses depois continua sem dar posse a uma dezena de membros do Governo, a maioria do CNRT, o maior dos três partidos da AMP.

Esta posição do chefe de Estado timorense levou Xanana Gusmão a decidir não tomar posse, traduziu-se na subida a primeiro-ministro de Taur Matan Ruak, “número dois” da AMP, e criou um Governo cheio de ‘interinos’, com a voz do CNRT a tornar-se minoritária.

Várias medidas implementadas desde aí extremaram as posições dentro da coligação com um crescente mal-estar do CNRT, com dirigentes a questionarem, em declarações à Lusa, a alegada falta de veemência de Taur Matan Ruak na defesa da tomada de posse dos seus membros junto do Presidente.

A situação cresceu de intensidade e a primeira proposta de OGE foi recebida com forte contestação de todas as bancadas do Governo, o que levou Taur Matan Ruak a apresentar uma nova proposta orçamental, que acabou por ser ‘chumbada’.

Ouvidos pela Lusa, dirigentes do PLP e membros do Governo admitiram surpresa pela abstenção ou voto contra a proposta de OGE pelos deputados do CNRT, o que agudizou a tensão no seio da AMP.

O CNRT é o maior partido da AMP, mas tem menos dois lugares no parlamento que a Fretilin, partido com maior representação parlamentar.

O cenário de um Governo de grande inclusão obriga a resolver a dúvida sobre quem assumiria as funções de primeiro-ministro — se um dirigente do CNRT, da Fretilin ou uma alternativa exterior — e que papel teriam os restantes partidos da coligação que venceu as eleições.

Daí que dirigentes ouvidos pela Lusa tenham admitido que o cenário final acabe por passar por eleições antecipadas, um voto de consequências imprevistas, mas que poderá manter o regime duodecimal até à segunda metade do ano.

 

ASP // EJ

By Impala News / Lusa

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