Governo do Brasil deveria dialogar com povos indígenas e não impor seus pensamentos – sacerdote

O único padre indígena brasileiro que colaborou na documentação preparatória do Sínodo da Amazónia, Justino Sarmento Rezende, considera que o Governo do seu país deve dialogar com os povos indígenas e não impor seus pensamentos.

Governo do Brasil deveria dialogar com povos indígenas e não impor seus pensamentos - sacerdote

Governo do Brasil deveria dialogar com povos indígenas e não impor seus pensamentos – sacerdote

O único padre indígena brasileiro que colaborou na documentação preparatória do Sínodo da Amazónia, Justino Sarmento Rezende, considera que o Governo do seu país deve dialogar com os povos indígenas e não impor seus pensamentos.

“É preciso que o Governo brasileiro esteja disposto a dialogar com os indígenas e não somente impor seus pensamentos (…) O Governo tem ouvido apenas aqueles que vão de acordo com os seus interesses. Seria muito interessante que ele ouvisse os indígenas” afirmou o sacerdote, 58 anos.

“Os indígenas têm muito a contribuir com o Estado brasileiro porque são pessoas que conhecem a região onde moram” e “são possuidores de muitas coisas, não são pobres”, acrescentou.

Questionado sobre declarações do Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que já comparou os povos originários do país que moram dentro de reservas ambientais a animais de circo, o religioso afirmou que este tipo de discurso mostra uma visão colonial que precisa ser ultrapassada.

“Quando se diz que o índio é como um selvagem expressa-se uma visão colonial. Hoje numa visão democrática diria que os indígenas são cidadãos do país, que precisam interagir de igual para igual com o Governo para buscar o bem comum”, apontou.

Sobre a preocupação do Governo brasileiro com o Sínodo da Amazónia, alvo de críticas de Bolsonaro e do ex-comandante do Exército e atual assessor do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), o general Eduardo Villas Bôas, padre Justino avaliou que o encontro da Igreja Católica cria um certo desconforto porque poderá contrariar interesses do setor agropecuário e militar.

“O Sínodo da Amazónia trata de temas importantíssimos, como o território, os direitos dos povos indígenas, dos povos quilombolas [descendentes de negros que fugiram da escravidão], dos povos ribeirinhos, que querem ser respeitados”, explicou.

“Como a Amazónia ainda não é muito explorada e nela se concentram muitas riquezas, o Governo brasileiro e dos de outros países [amazónicos] temem que a Igreja, uma instituição histórica, possa estar posicionando-se contra os seus projetos governamentais”, acrescentou.

Originário do povo tuyuka, Justino Resende nasceu na região do Alto Rio Negro, numa aldeia pertencente a cidade de São Gabriel da Cachoeira, localizada na fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela, no estado do Amazonas.

O agora sacerdote entrou em contacto com a Igreja Católica ainda jovem, na década de 1970, quando estudou num internato Salesiano, e a sua vocação teve de enfrentar resistências junto da hierarquia católica e da sua própria família.

“Minha vontade desde jovem era ser padre para falar na nossa língua, para que os meus parentes entendessem. Os padres da época falavam em língua portuguesa e quem não tinha estudado não entendia nada. Quando eu via essa cena, pensava que queria ser padre para que eles entendessem”, lembrou.

Suas primeiras missas foram realizadas em tukano, a língua dos tuyukas, que ele usa para até hoje nas cerimónias que celebra.

Justino Resende participa no Sínodo da Amazónia, colaborou no processo de escuta realizado pela Igreja Católica junto aos povos da região amazónica e na formulação de documentos de preparação.

Convocado no dia 15 de outubro de 2017 pelo papa Francisco, o Sínodo da Amazónia é apresentado com o nome “Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”, acontecerá em Roma, entre os dias 6 e 27 de outubro.

As atividades contarão com participação do papa, bispos dos nove países que abrangem a região Pan-Amazónica (Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), representantes dos povos originários da floresta, personalidades, cientistas e ambientalistas.

CYR // PJA

By Impala News / Lusa

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