Filhos assassinados, balas perdidas, casas invadidas: a realidade das favelas do Rio de Janeiro

Jovens assassinados, mães que perdem os filhos às mãos do narcotráfico, de polícias, ou balas perdidas, sonos interrompidos com invasões domiciliárias, são a rotina de quem reside no complexo da Maré, no Rio de Janeiro, disseram à Lusa moradoras.

Filhos assassinados, balas perdidas, casas invadidas: a realidade das favelas do Rio de Janeiro

Filhos assassinados, balas perdidas, casas invadidas: a realidade das favelas do Rio de Janeiro

Jovens assassinados, mães que perdem os filhos às mãos do narcotráfico, de polícias, ou balas perdidas, sonos interrompidos com invasões domiciliárias, são a rotina de quem reside no complexo da Maré, no Rio de Janeiro, disseram à Lusa moradoras.

O agitado comércio e a movimentação caótica nas ruas da Maré, um dos maiores conjuntos de favelas do estado brasileiro do Rio de Janeiro, não deixam perceber a onda de violência que assola a região, contudo, Neide Barcelos, 59 anos, nascida e criada naquela comunidade, nega a tese de que essa azáfama seja fruto da força daquele povo, mas sim da “necessidade”.

Neide conta à agência Lusa que, ao longo das suas quase seis décadas de vida, já presenciou todo o tipo de violência, mas há um episódio que não esquece: o dia em que a polícia ameaçou de morte o seu vizinho adolescente, para na semana seguinte a concretizar.

“Desde os meus 8 anos até agora, a violência nunca diminuiu. Uma das formas de violência que eu sofri foi há 15 anos (…). A minha vizinha trabalhava e sempre deixou o filho dela comigo. Ele acabou por se envolver no tráfico de droga com 16 anos, mas como ele ainda estava numa fase inicial, achávamos que a polícia poderia prendê-lo e levá-lo para o juizado de menores, e não fazer as ameaças que fizeram”, relatou.

“Entraram, bateram nele, e eu pedi para que parassem, que agissem em conformidade com a lei, mas o agente apontou-me uma arma, mandou-me tomar conta da minha vida. Espancaram o menino, cortaram-lhe as pontas dos dedos, e disseram-me para eu avisar a mãe que o iriam matar. Na semana seguinte, mataram-no, na rua. Estávamos a almoçar, quando nos chegou a notícia”, detalhou Neide.

A violência policial na região, nos primeiros seis meses deste ano, levou a Redes da Maré, uma organização não-governamental (ONG) brasileira, criada em 2007 por moradores e ex-moradores daquele complexo habitacional, a produzir um relatório semestral sobre o tema.

O documento, cuja periodicidade era até então anual, teve de ser antecipado, tendo em conta o aumento de mortes pelas mãos dos agentes de segurança em 2019, mas com destaque para o uso de helicópteros na emissão de disparos.

“Esta edição especial fez-se necessária diante do grave cenário em que vive a Maré, onde as dinâmicas de violência do primeiro semestre de 2019 superam os indicadores de todo o ano de 2018. No primeiro semestre deste ano, chegou-se ao número alarmante de 21 operações policiais, resultando em 15 mortes”, diz o documento.

“Outro aspeto preocupante é o uso do helicóptero, conhecido pelos moradores como ‘caveirão voador’, em operações policiais: em oito das 21 operações policiais, no primeiro semestre de 2019, ele foi utilizado. Das 15 mortes registadas em dias de operação, 14 aconteceram quando o helicóptero foi usado”, frisa o relatório.

Porém, apesar dos números deste ano serem alarmantes, os moradores realçam que a violência “não é de agora”, que sempre existiu naquele local que abriga 147 mil pessoas.

“Aos meus oito anos eu vivi violência aqui, omitida pela polícia, (…) e continuo a passar por situações semelhantes. É algo contínuo. Não temos os direitos garantidos. E agora ainda tem o helicóptero, que nos assusta, e dispara do alto, podendo atingir qualquer escola, qualquer residência, como já aconteceu”, declarou Neide.

Quem também perdeu o filho nas ruas da Maré foi Helena Vicente, de 69 anos, vítima de uma bala perdida.

O jovem, que na ocasião tinha 21 anos, saiu para comprar um lanche, mas não regressou a casa.

“Ele estava a lanchar aqui nesta esquina, entrou na lanchonete [padaria], comprou a comida, e quando ia a atravessar a rua, já estava a anoitecer, não estava a acontecer nenhum tiroteio, mas de repente foi atingido. Nunca soube de onde veio a bala”, lembrou, emocionada, a brasileira, acrescentando que duas fações criminosas atuavam na região.

Helena, de 69 anos, é uma das diretoras da Redes da Maré, e, a par de Neide, trabalha na ONG desde a sua fundação. Ambas já pensaram sair daquela favela, e irem morar numa zona que lhes proporcionasse paz, mas dizem que já “não adianta”, tentando, diariamente”, melhorar a situação de quem lá mora.

“Sempre existiu violência, a diferença é que o tráfico até nos respeitava e agora não há esse respeito. (…) Agora vêm muitos traficantes de fora, então não têm esse respeito. Quanto à polícia, antes eram violentos, mas não era isso tudo que há agora, em que batem, matam…matam primeiro para perguntar depois”, lamenta a diretora.

“Os polícias entram em qualquer casa. As pessoas estão a dormir e quando acordam eles estão na beira da cama, e dizem que entraram porque a porta estava aberta, mas ninguém vai dormir com a porta aberta. Na minha casa nunca entraram, graças a Deus, mas já entraram nos meus vizinhos. É a mesma coisa que entrassem na minha. Sinto-me violada do mesmo jeito. São muitas as violações”, denuncia Helena Vicente.

Desde que assumiu o cargo em janeiro, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, alinhado com a política de segurança do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, adotou uma forte retórica de combate ao crime, baseada no uso da violência, com o número de pessoas mortas pela polícia a aumentar significativamente em comparação com os anos anteriores.

Entre janeiro e agosto últimos, 1.249 pessoas foram mortas por intervenção policial, de acordo com Instituto de Segurança Pública.

Outro dos números que choca é o de crianças mortas por balas perdidas no Rio de Janeiro: foram seis apenas este ano.

Mas Neide Barcelos recusa classificar de “perdidas” esses projéteis, que, no seu entender, têm todos um alvo bem definido.

“Quanto às balas perdidas, eu acho que elas não são perdidas, já que Witzel disse é para apontar e atirar na cabeça (dos bandidos). A bala não é perdida, porque os polícias já entram a saber o que têm de fazer”, disse Neide, referindo-se a polémica declaração do governador Witzel após ser eleito, em outubro de 2018, quando afirmou: “a polícia vai fazer o correto, vai mirar na cabecinha e… fogo. Para não ter erro”.

Para a mulher de 59 anos, o futuro da Maré, e de outras favelas do Rio de Janeiro, passa pela Educação, que “pode salvar vidas”.

“A Educação pode salvar muita coisa, até vidas. Se um jovem tem estudos, se tem essa possibilidade de crescer, aprender e ter educação, ele vai melhorar, em tudo. Sem isso, fica difícil”, declarou a brasileira à reportagem da Lusa.

MYMM // PJA

By Impala News / Lusa

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