Éden Pastora, símbolo da revolução da Nicarágua e dos “Contra”, morreu aos 83 anos

O lendário “Comandante Zero” Edén Pastora Gómez, um dos líderes da revolução armada que derrubou a ditadura de Somoza na Nicarágua em 1979, morreu hoje aos 83 anos, anunciaram fontes da família.

Éden Pastora, símbolo da revolução da Nicarágua e dos

Éden Pastora, símbolo da revolução da Nicarágua e dos “Contra”, morreu aos 83 anos

O lendário “Comandante Zero” Edén Pastora Gómez, um dos líderes da revolução armada que derrubou a ditadura de Somoza na Nicarágua em 1979, morreu hoje aos 83 anos, anunciaram fontes da família.

O ex-guerrilheiro sandinista e anti-sandinista morreu de paragem cardíaca após oito dias de internamento em estado crítico na unidade de cuidados intensivos do Hospital Militar, em Manágua.

Pescador de tubarões e estudante de Medicina, o mítico “Comandante Zero” foi um controverso personagem que passou de ícone da revolução sandinista a um dos seus críticos mais ferozes na década de 1980.

Com o regresso do líder sandinista Daniel Ortega ao poder em janeiro de 2007, foi designado delegado na comissão de desenvolvimento do rio San Juan, junto à fronteira com a Costa Rica, e converteu-se num acérrimo defensor do Presidente nicaraguense, que definia como “guia” da revolução.

Com um longo percurso de combate que remonta a 1957, Pastora liderou em 22 de agosto de 1978 o grupo de 25 guerrilheiros que tomou de assalto o Palácio Nacional de Manágua, uma ação que concedeu projeção internacional à Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN).

Nesse espetacular assalto, que ocorreu quase um ano antes da derrota total de Anastasio Somoza Debayle em 19 de julho de 1979, o comando sandinista tomou como reféns os parlamentares afetos ao ditador, numa ação de três dias concluída com a libertação de dezenas de presos políticos.

Após o derrube pelas armas do Governo de Somoza, Éden Pastora teve uma efémera participação no Governo revolucionário dos sandinistas, afastado do poder em 1990 num processo eleitoral.

A partir de 1979 desempenhou diversos cargos políticos governamentais e militares, incluindo vice-ministro do Interior, membro da Assembleia sandinista das FSLN e do Conselho de Defesa e Segurança da Revolução.

Foi ainda chefe da Brigada Militar “Comandante Ezequiel”, comandante guerrilheiro e comandante de brigada, e chefe das Milícias populares sandinistas.

Em 07 de julho de 1981 renunciou a todas estas funções, à exceção do título de Comandante Guerrilheiro, e abandonou o país, após manifestar desacordo com a condução do processo revolucionário, e numa carta dirigida à direção nacional da FSLN e ao povo nicaraguense.

De seguida iniciou um percurso internacional que o conduziu ao Panamá, onde consolidou a sua relação política com o general Omar Torrijos, mas a súbita morte deste dirigente força-o a passar por Cuba, onde foi temporariamente detido pelo então líder Fidel Castro a pedido da direção sandinista.

Pastora também forneceu apoio logístico a uma fação da guerrilha guatemalteca, a Organização Revolucionária do Povo Armado (ORPA), por considerá-la de tendência social-democrata.

Em 15 de abril de 1982 Éden Pastora rompe o seu silêncio e criticou o “desvio” do processo revolucionário sandinista, ao considerar que tinha sido entregue a soviéticos e cubanos.

No final de 1982 fundou a Aliança Democrática Revolucionária (ARDE), ao lado de Alfonso Robelo, Fernando Chamorro e Donald Castillo, com o objetivo de enfrentar política e militarmente os sandinistas.

A ARDE era uma das fações da “Contrarrevolução” que enfrentou os sandinistas na guerra civil da década de 1980 com um balanço de pelo menos 50.000 mortos dos dois lados.

Na sequência de violentos combates e de contínuos apelos a diversas entidades internacionais, e na sequência de um 14.º atentado, segundo referiu, contra a sua vida em La Penca, Nicarágua, em 30 de maio de 1984, decide abandonar a luta armada em meados de 1986, quando não foi reconhecido como chefe militar por quatro dos seus comandantes de campo.

Pastora regressou à pesca artesanal até 1989, e regressou à Nicarágua em 1990, para participar no processo político que três anos depois deu origem ao Movimento de Ação Democrática (MAD).

Em 05 de novembro de 1995, o congresso do Partido de Ação Democrática (PAD) designou-o candidato presidencial, mas em 05 de julho de 1996 o Conselho supremo eleitoral proibiu-o de concorrer por manter a cidadania da Costa Rica, uma decisão que denunciou.

Em maio de 2006 Pastora volta a apresentar-se às presidenciais, mas pelo partido Alternativa para a Mudança (AM), atual aliado dos sandinistas.

O “Comandante Zero” ocupou a última posição no escrutínio de 2006, que Ortega venceu, mantendo-se desde janeiro de 2007 até hoje no poder.

Com a sua designação como delegado no rio fronteiriço San Juan, Pastora defendeu as reeleições de Ortega e apoiou os civis armados que desbloquearam à força estradas no decurso dos protestos antigovernamentais iniciados em abril de 2018 com um balanço de centenas de mortos.

O “Comandante Zero” teve 21 filhos — 11 mulheres e 10 homens — produto de “quatro casamentos e seis romances” no México, Costa Rica, Honduras e Nicarágua, segundo referiu o próprio.

PCR // EL

By Impala News / Lusa

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