Covid-19: Pandemia agrava situação irregular de milhares de guineenses em Cabo Verde

O embaixador da Guiné-Bissau em Cabo Verde estima que até 10.000 guineenses estejam a viver e trabalhar no arquipélago, mas 60% em situação irregular, por falta de documentos, quadro dificultado pela covid-19 e pela crise.

Covid-19: Pandemia agrava situação irregular de milhares de guineenses em Cabo Verde

Covid-19: Pandemia agrava situação irregular de milhares de guineenses em Cabo Verde

O embaixador da Guiné-Bissau em Cabo Verde estima que até 10.000 guineenses estejam a viver e trabalhar no arquipélago, mas 60% em situação irregular, por falta de documentos, quadro dificultado pela covid-19 e pela crise.

Em entrevista à agência Lusa, o embaixador da Guiné-Bissau na Praia, M’Bála Fernandes, recordou que a comunidade imigrante guineense é a maior em Cabo Verde, repartida essencialmente pelas ilhas turísticas da Boa Vista e do Sal, onde trabalham na restauração. Também trabalham em Santiago e São Vicente, na construção civil, em empresas de segurança ou na venda ambulante.

“A maioria dos guineenses residentes em Cabo Verde estão numa situação irregular, estima-se que estejam a viver nesta condição de irregularidade documental mais de 60% dos imigrantes oriundos da Guiné-Bissau. Apesar de todas as dificuldades documentais, vivem em segurança, numa terra que lhes acolheu, onde trabalham, constituem famílias e na sua maioria enviam remessas para as famílias na Guiné-Bissau”, explicou o diplomata.

O excesso de burocracia, com a listagem de documentos necessários para uma legalização, “acaba por afugentar” os imigrantes guineenses, conduzindo, admite o embaixador, a uma “desintegração documental e não social”, apesar dos processos extraordinários de legalização lançados por Cabo Verde em 2010 e 2015.

Para agravar a situação, M’Bála Fernandes explica que o fecho das fronteiras nos dois países, devido à covid-19, condicionou também o envio de Bissau para Cabo Verde de passaportes emitidos desde o início do ano. “O passaporte é a peça essencial no processo de regularização”, sublinhou, acrescentando que a situação que só começou a ser ultrapassada desde finais de setembro.

Entretanto, para minimizar os problemas de documentação, a embaixada está a articular com o Governo da Guiné-Bissau a deslocação de técnicos às ilhas da Boa Vista e do Sal, para garantir a emissão local de passaportes, explicou M’Bála Fernandes.

Além da documentação, a pandemia de covid-19 deixou cabo-verdianos e guineenses sem empregos em Cabo Verde, em grande medida afetados pela crise económica e ausência de turismo desde março, o que levou a embaixada a distribuir cestas básicas e medicamentos junto dos imigrantes.

Por outro lado, considerados “povos irmãos”, o embaixador recorda uma “união secular transmitida não só pela identidade linguística quase similar”, mas também pela “confiança” dos cabo-verdianos.

É por isso, diz, que os guineenses se sentem “seguros em Cabo Verde e vivem como se fosse nas suas terras de origem”.

“Um sentimento de pertença forte e de segurança familiar”, assume.

Estão inscritos na Embaixada na Praia 6.528 imigrantes guineenses, mas M’Bála Fernandes admite que na realidade esse número será superior, podendo oscilar entre 7.000 e 10.000 pessoas, a maior comunidade estrangeira em Cabo Verde, depois dos senegaleses.

“Todos estes dados pecam por defeito, tendo em consideração fatores tais como a sazonalidade migratória, meios financeiros para custear inscrição consular na embaixada, fuga de institucionalização pública por parte dos nossos imigrantes, estereotipada pelo medo, o que acaba por constituir num processo de ‘guetização’ dos mesmos”, aponta M’Bála Fernandes.

Depois de uma primeira vaga de funcionários públicos em 1980, após o golpe de Estado de 14 de novembro, em Bissau, seguiu-se, em meados da mesma década, a atração de professores guineenses por Cabo Verde, até, recorda, a “explosão total” dessa imigração para o arquipélago cabo-verdiano após a o conflito de 1998 na Guiné-Bissau.

“A partir dos anos de 1998, até à data presente, assiste-se a uma vaga migratória sem precedentes dos imigrantes oriundos da Guiné-Bissau para Cabo Verde, na sua maioria vindos do leste do país”, como Bafatá e Gabu.

Segundo o embaixador, “esta situação conduz a uma alteração significativa em termos de percentagem religiosa no seio da comunidade guineense residente em Cabo Verde, constituída por uma maioria muçulmana, que coabita pacificamente e em segurança num país maioritariamente cristão”.

“É uma comunidade bem integrada socialmente, sem problemas de criminalidade. A título de exemplo, apesar de ser a maior comunidade imigrada em Cabo Verde, em termos de reclusão é a menor população prisional estrangeira em Cabo Verde”, concluiu M’Bála Fernandes, sublinhando a envolvência comunitária dos imigrantes guineenses.

PVJ // VM

By Impala News / Lusa

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