Centenário do “Incêndio de Esmirna” em plena retórica nacionalista entre Ancara e Atenas

O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, recordou na semana passada o destino trágico da grande cidade da Ásia menor que os gregos designam por Esmina (Izmir)

Centenário do

Centenário do “Incêndio de Esmirna” em plena retórica nacionalista entre Ancara e Atenas

O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, recordou na semana passada o destino trágico da grande cidade da Ásia menor que os gregos designam por Esmina (Izmir)

Redação, 09 set 2022 (Lusa) — O incêndio de Esmirna, hoje Izmir, assinalou há cem anos o início duma “Grande Catástrofe” para os gregos, uma efeméride que decorre em novo período de tensão entre Atenas e Ancara com um imparável regresso da retórica nacionalista.

“Ó gregos, olhem para a História. Se assim continuarem, pagarão um preço elevado. (…) Temos uma palavra para a Grécia. Não esqueçam Izmir”, recordou o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, num discurso a 03 de setembro em Samsun, junto ao Mar Negro, evocando o destino trágico da grande cidade da Ásia menor que os gregos designam por Esmina (Izmir).

As relações entre os dois países voltaram a agravar-se na disputa pelas ilhas gregas do mar Egeu, junto às costas turcas.

Em 1922, poucos dias bastaram para destruir uma das cidades mais cosmopolitas e multiétnicas de um império otomano em desagregação após o final da I Guerra Mundial.

Um marinheiro aliado deixou o seu testemunho em 13 de setembro de 1922: “O incêndio foi declarado no bairro arménio da cidade, ajudado por um vento violento, e propagou-se rapidamente…”. Depois, dirigindo-se para oeste, devastou os bairros grego e europeu, atingiu o bairro judeu mas deixou quase intacto o vizinho bairro muçulmano.

“O cheiro da carne humana queimada era insuportável e nas ruas empilhavam-se cadáveres de homens, mulheres, crianças e cães”, indicou outra testemunha, numa referência ao trágico epílogo de mais de três anos de infrutíferas manobras militares e diplomáticas para impor a paz nesta região turbulenta.

Após a assinatura do armistício de Moudros — concluído com os aliados vencedores do conflito e que iniciam a ocupação da Anatólia turca –, a questão crucial era saber quem governaria esta região após a guerra, na sequência da derrota das “potências centrais” e do aliado otomano.

Os receios de novas violências religiosas entre cristãos e muçulmanos impelem os aliados a decidir que a Grécia, na guerra desde 1917 ao lado da Entente, deveria assumir o controlo da costa oeste da Anatólia, habitada desde há longos séculos por populações de língua grega e onde os cristãos eram maioritários.

As tropas gregas, apoiadas pelos britânicos, invadem a região de Esmirna em 1919 e surgem relatos de atrocidades, que exacerbam as violências entre cristãos e muçulmanos. Um ano depois, o tratado de paz de Sèvres assinado entre os Aliados e a Turquia implica o desmembramento do império otomano, legitima as conquistas gregas, impõe a presença de tropas francesas na Cilícia, a sul, e reduz a Turquia à uma restrita região da Anatólia.

Esta ocupação, na origem de um novo conflito entre a Grécia e a Turquia, galvanizou os nacionalistas turcos liderados por Mustafa Kemal (futuro Ataturk), que acusam o governo de traição, organizam a resistência e bloqueiam a aplicação do tratado de Sèvres, que apenas deixava ao império otomano um Estado falido e sem viabilidade. Nunca será ratificado.

Os nacionalistas turcos instalam-se em Ancara, centro da Anatólia. Os exércitos gregos avançam pela região, e não escondem que o seu objetivo tem um nome: a antiga Constantinopla (Istambul), tomada pelos otomanos em 1453, a capital multiétnica do extinto império.

Em agosto de 1922 Mustafa Kemal lança uma vasta ofensiva que força à retirada do exército grego, enquanto os civis cristãos se refugiam em Esmirna. As tropas kemalistas entram nesta cidade em 09 de setembro dando início à “Grande Catástrofe”, e a destruição de uma cidade que muitos comparavam ao paraíso.

Após o incêndio iniciado no bairro arménio no dia 13 de setembro, numerosas testemunhas afirmam ter visto soldados turcos a atearam fogos, incendiando barris de petróleo e percorrendo casa a casa, com tochas na mão.

Quando o fogo se extingue, no final de setembro, pelo menos 100.000 cristãos estão mortos e 160.000 concentrados no cais da cidade, despojados de tudo e vigiados por soldados turcos.

O êxodo será penoso e violento. Das ruínas de Esmirna surge a nova cidade de Izmir, totalmente muçulmana, e uma nova nação turca quando Mustafa Kemal proclama a República da Turquia em 20 de outubro de 1923.

Menos de um ano após o incêndio, os aliados e a Turquia partilham os despojos com o tratado de Lausanne, firmado em 24 de julho de 1923. A Turquia garante o conjunto da Anatólia mas renuncia ao Médio Oriente, em benefício de britânicos e franceses que se apoderam da região.

O tratado também organiza a transferência de populações entre a Grécia e a Turquia. Entre 1922 e 1924, cerca de 1,5 milhões de “gregos do oriente”, também designados “microasiáticos”, onde se incluem arménios e assírios, refugiam-se na Grécia continental, e perto de 500.000 turcos fazem o percurso inverso, em particular a partir da Trácia ocidental grega.

Um dos principais bairros da capital grega Atenas, designado “Nova Esmirna”, será erguido por estes refugiados. Em termos diplomáticos, o tratado de Lausanne significará o fim da I Guerra Mundial.

No momento em que a Grécia se prepara para as comemorações dos 100 anos do incêndio, as declarações inflamadas do Presidente turco confirmam a quase total rutura do diálogo entre os dois países vizinhos, ambos membros da NATO, e que agora trocam acusações sobre a crescente militarização das ilhas gregas do mar Egeu junto às costas turcas, e que Ancara insiste em reclamar.

“A vossa ocupação das ilhas [do mar Egeu] não nos vincula. No momento próprio, faremos o necessário. Podemos chegar subitamente durante a noite”, referiu ainda Erdogan no seu discurso de Samsun. Acusou ainda o primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, de promover uma campanha contra a venda de armas norte-americanas a Ancara.

As declarações de Erdogan estão associadas aos decisivos desafios eleitorais que vão decorrer nos dois países em 2023. A Turquia confronta-se com uma crise económica sem precedentes, com uma inflação galopante e forte desvalorização da lira turca.

Em simultâneo, Mitsotakis está numa posição frágil após a revelação de um vasto escândalo de escutas de membros da oposição e jornalistas, e tem acusado Ancara de incentivar os migrantes que se encontram na Turquia a atravessarem o rio Evros para pressionar a Grécia. O ministério das Migrações grego disse que desde o início de 2022 já foi bloqueada a entrada de mais de 150.000 migrantes junto às suas fronteiras terrestres e marítimas.

Neste cenário de forte tensão, as celebrações do “Incêndio de Esmirna”, para Atenas o início da “Grande Catástrofe” e para Ancara a sobrevivência e afirmação da “nova Turquia”, são o pretexto para acentuar um longo e irresolúvel diferendo.

// APN

By Impala News / Lusa

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