Bósnia-Herzegovina vai hoje às urnas sem alternativas à clivagem étnica

Bósnia-Herzegovina vai hoje às urnas sem alternativas à clivagem étnica

As eleições gerais de hoje na Bósnia-Herzegovina deverão voltar a confirmar a hegemonia dos “partidos étnicos” que dominam a cena política da ex-república jugoslava desde 1990, e quando se adensam os sinais de crise nesta volátil região dos Balcãs.

Num escrutínio muito complexo, à semelhança do país, os cerca de três milhões de eleitores são convocados para renovar de quatro em quatro anos as duas câmaras do parlamento central, os parlamentos das duas “entidades”, a Federação da Bósnia-Herzegovina e a Republika Srpska (RS, a entidade sérvia bósnia), dez assembleias cantonais da Federação e o cantão do distrito de Brcko, eleger os três membros da presidência colegial rotativa da Bósnia-Herzegovina (um bosníaco muçulmano, um sérvio e um croata) e ainda o Presidente da RS.

Neste contexto, as perspetivas oferecidas aos eleitores pelas forças “cidadãs” e anti-nacionalistas são quase nulas, após ter fracassado a perspetiva de uma aliança eleitoral que desafiasse os partidos “étnicos” de muçulmanos (bosníacos), sérvios e croatas que se impuseram desde o fim violento da Jugoslávia e o início da guerra civil nesta antiga república, entre 1992 e 1995 (100.000 mortos).

O escrutínio de hoje já foi definido como “histórico” por existir a possibilidade real de Milorad Dodik e Dragan Covic, os dirigentes nacionalistas sérvio e croata bósnios, ocuparem dois dos três lugares da presidência colegial, à qual também concorre o muçulmano Sefik Dzaferovic, num contexto internacional pouco animador, assinalado pela crise de legitimidade da União Europeia (UE) e o aumento das tensões no espaço da ex-Jugoslávia.

Os bósnios são cidadãos da Bósnia-Herzegovina (3.531.159 habitantes segundo o censo de 2013), sejam bosníacos muçulmanos (50,1%), sérvios ortodoxos (30,8%) ou croatas católicos (15,4%).

Os partidos étnicos continuam a dominar o cenário político interno.

Na RS, impõe-se a Aliança dos sociais-democratas independentes (SNSD) de Dodik, apesar de ameaçada pela coligação da oposição Aliança para a Vitória.

E o mesmo sucede com a União Democrática Croata da Bósnia-Herzegovina (HDZ) do ultranacionalista Dragan Covic, e o Partido de Ação Democrática (SDA, muçulmano bosníaco), liderado por Bakir Izetbegovic, filho de Alija Izetbegovic, que liderou a secessão da Bósnia em 1991, antecâmara da guerra civil.

A complexidade do escrutínio na Bósnia-Herzegovina, em profunda crise económica e social, poderá ainda acentuar-se nos próximos escrutínios, e quando na Federação croato-bosníaca o HDZ tem exigido uma entidade própria para os croatas.

As duas entidades dispõem de larga autonomia, nas forças de segurança, educação, economia ou saúde. O governo central é responsável pelas Forças Armadas, finanças, justiça, comércio externo e diplomacia, mas as contradições no seu interior são permanentes, conduzindo à paralisia.

Os croatas católicos são um dos “povos constitutivos” da Bósnia, com os sérvios ortodoxos e os bosníacos muçulmanos. Os sérvios são maioritários na RS (81,5%), mas os croatas são minoritários (22,4%) na sua federação com os bosníacos. Assim, têm exigido uma “reorganização territorial” recusada pelos muçulmanos, um outro foco de tensão interno.

Diversos analistas descreveram esta campanha como “a mais suja” na Bósnia desde o final da guerra, com um abundante discurso do ódio dirigido contra os opositores políticos da mesma “etnia”, e não contra os representantes políticos dos dois outros “povos constitutivos”.

Em 1995, o Conselho de segurança da ONU designou um “Alto representante” mandatado para garantir a paz e a estabilidade. Teoricamente, pode demitir eleitos e intervir na legislação, mas há vários que não utiliza estes poderes.

A dissolução desta função, admitida desde 2007, tem sido sucessivamente adiada.

PCR // EL

By Impala News / Lusa


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