Bielorrússia e Ucrânia em “luta comum em duas frentes”, diz Svetlana Tikhanovskaia

A Bielorrússia e a Ucrânia travam uma “luta em duas frentes”, porque sem liberdade num país não haverá liberdade no outro, disse hoje em entrevista à Lusa a líder da oposição bielorrussa, Svetlana Tikhanovskaia.

Bielorrússia e Ucrânia em

Bielorrússia e Ucrânia em “luta comum em duas frentes”, diz Svetlana Tikhanovskaia

A Bielorrússia e a Ucrânia travam uma “luta em duas frentes”, porque sem liberdade num país não haverá liberdade no outro, disse hoje em entrevista à Lusa a líder da oposição bielorrussa, Svetlana Tikhanovskaia.

“Antes do início da guerra na Ucrânia lutávamos contra o regime na Bielorrússia, mas após a guerra compreendemos que também tínhamos de apoiar os ucranianos, porque os destinos dos dois países estão profundamente relacionados, porque sem liberdade na Ucrânia não haverá liberdade na Bielorrússia”, indicou a ativista, 39 anos, que na quinta-feira iniciou uma visita de dois dias a Lisboa a convite do ministro dos Negócios Estrangeiros português, João Gomes Cravinho.

“Por isso desencadeámos um movimento antiguerra, diversos ativistas sabotaram linhas de caminho de ferro para impedir o envio de material militar russo para a Ucrânia através da Bielorrússia e foram organizados dois batalhões para defender a Ucrânia”, assinalou a principal opositora ao regime do Presidente da Bielorrússia Alexander Lukashenko, que na tarde de quinta-feira foi recebia pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

“Assim, neste momento estamos a lutar em duas frentes”, prosseguiu a ativista, distinguida em 2020 com o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, atribuído pelo Parlamento Europeu, e que hoje tem encontros com o presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, com o ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, e com o presidente da câmara de Lisboa, Carlos Moedas.

Numa sala de um hotel de Lisboa, com ar discreto e pouco antes da deslocação ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, entende-se que a líder da oposição da Bielorrússia, exilada em Vilnius há quase dois anos, foi adquirindo experiência política como candidata da oposição às presidenciais e após substituir o marido, Sergei Tikhanovsky, preso a 29 de maio de 2020.

Lukashenko, no poder desde 1994, renovou o mandato presidencial nas eleições de 09 de agosto de 2020, cujos resultados não foram reconhecidos pela oposição interna, e pelos países ocidentais, após diversas denúncias de fraude eleitoral.

Tikhanovskaya reclamou a vitória sobre Lukashenko nessas eleições presidenciais e viu-se obrigada a fugir para a vizinha Lituânia, em pleno período de repressão às massivas manifestações de protesto após a divulgação dos resultados oficias.

“A repressão nunca parou na Bielorrússia desde 2020. Todos os dias há notícias de novas prisões, até à manifestação antiguerra de 27 de fevereiro cerca de 1.100 pessoas tinham sido detidas”, indica a ex-professora de inglês num liceu de Minsk, com dois filhos, e que nos dois últimos anos conheceu uma mudança radical na sua vida, na sequência do despertar inédito da sociedade civil no seu país.

“Muitos foram condenados a pesadas penas e recentemente foram aprovadas novas leis, incluindo a pena de morte por tentativa de terrorismo. Qualquer pessoa pode ser acusada de tentativa de terrorismo e estar sujeita à pena de morte. Destina-se a apavorar as pessoas”, acrescenta Tikhanovskaia, que desde a sua ascensão à ribalta da política tem efetuado inúmeras deslocações a diversas capitais europeias com o objetivo de consolidar a sua rede diplomática e procurar soluções para a crise política interna.

Atualmente, e mesmo que admita existirem números contraditórios sobre o número de presos políticos no país, socorre-se do Centro de Defesa, uma organização de direitos humanos na Bielorrússia, que refere existirem 1.237 pessoas detidas. “Mas amanhã o número será mais elevado”, assegurou.

Apesar da nova geração que emergiu no país com capacidade de contestação, a opositora admite que a sociedade bielorrussa permanece fraturada.

“No entanto, durante os protestos de 2020, os reformados também saíram à rua. Claro que existem pessoas pró-União Soviética, que têm nostalgia dos antigos tempos, mas cada vez mais pessoas têm acesso a informação alternativa, entendem como se vive em outros países, e que também podemos viver de forma diferente”, indicou.

“Assim, é por isso que pedimos aos jovens que expliquem aos seus pais e avós a verdadeira situação da guerra na Ucrânia, etc., para que se consiga abranger toda a gente”.

Numa referência à “percentagem da população bielorrussa que apoia o regime”, Tikhanovskaia identifica-os como provenientes, na maioria, da ‘nomenclatura’ e das forças de segurança.

“Isto porque durante 27 anos [Alexander] Lukashenko conseguiu garantir um enorme poder político, as pessoas estão confrontadas com o medo, com chantagem…, mas o regime não é tão monolítico como pretender mostrar, existem constantes conflitos em diversas esferas… Cada vez mais pessoas percebem que Lukashenko não é o líder que pode liderar o nosso país e garantir a nossa independência”, garantiu.

A ex-candidata presidencial, apesar de afastada do país há dois anos, sente que algo está a alterar-se, e sem retorno.

“A situação está a mudar, e a guerra na Ucrânia também está a mudar e podem surgir diversos cenários no desenvolvimento da situação”, assinalou.

“Não tenho a esperança que a situação vá mudar, antes tenho a certeza que a situação vai mudar. Porque vejo que as pessoas continuam a lutar, a não desistir, e o regime de Lukashenko sente o mesmo. Não posso prever a tendência, mas sinto que em cada dia que passa, os nossos presos políticos acreditam na vida, na liberdade. A nossa primeira tarefa consiste em libertá-los”.

Um desejo de libertação obviamente extensível a Sergei Tikhanovsky.

“O advogado encontra-se uma vez por semana com o meu marido e pode entregar-me alguma informação e eu envio também alguma informação, mas não podemos comunicar diretamente com ele. As crianças podem escrever cartas ao pai, e ele responde-lhes. Mas a maioria das cartas escritas para os presos políticos não lhes são entregues, para demonstrar que estão abandonados, esquecidos, convencê-los que já ninguém necessita deles”, concluiu.

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By Impala News / Lusa

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