Al-Qaida renasce e é mais política e militar, mas mantém identidade 'jihadista'

Al-Qaida renasce e é mais política e militar, mas mantém identidade ‘jihadista’

A Al-Qaida, criada há 30 anos, não conseguiu acompanhar a ascensão do grupo Estado Islâmico e assumiu uma postura mais política e militar, mas não perdeu a identidade extremista e ‘jihadista’, defendeu o especialista Alexandre Guerreiro.

“A Al-Qaida acabou por ser ultrapassada, do ponto de vista ‘jihadista’, pelo Estado Islâmico […] e assumiu durante muito tempo, sobretudo desde a morte de [Usama] bin Laden, um vazio de poder que acabou por congelar a agenda ‘jihadista’ extremista”, disse à Lusa o especialista em direito internacional e ex-analista do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), a propósito do 30.º aniversário da rede terrorista.

“O que é certo é que a Al-Qaida acabou por assumir uma postura mais branda, limitando-se ao campo estritamente militar, e, não digo abandonando, mas pelo menos não dando prioridade a uma agenda ‘jihadista’, antes tornando-se muito próximo de um grupo armado ou de uma milícia tradicional. Mas não perdeu essa componente”, explicou.

Segundo este especialista, observa-se agora, com o filho e sucessor de Bin Laden, Hamza, que a Al-Qaida “está novamente a emergir como uma ameaça global, não só do ponto de vista ‘jihadista’, porque quer recuperar a falange de simpatizantes que teve e quer reorientar a sua estratégia em termos de uma agenda mais global”.

Guerreiro explica que a rede terrorista quer “chegar ao poder, não só nos locais onde está, mas também noutros”, referindo que antes de o Estado Islâmico (EI) aparecer, “a Al-Qaida tinha filiais na Nigéria, Filipinas ou Somália, palcos que acabou por perder para o EI”.

Essa estratégia ganha com os acordos instrumentais que vão sendo realizados em conflitos em que a Al-Qaida pode ajudar a derrotar o principal inimigo, como no Iémen, onde a Arábia Saudita utiliza a Al-Qaida na Península Arábica (AQPA) contra as milícias xiitas apoiadas pelo Irão.

“Isto pode ser uma ameaça, porque a Al-Qaida não perdeu a sua identidade ‘jihadista'”, afirmou, criticando “o oportunismo” e “a forma irresponsável” deste tipo de condução das relações internacionais.

O especialista acha improvável que a “nova” Al-Qaida ressurja semelhante ao que era há dez anos, com grandes ataques terroristas, até porque “foi aprendendo a reconstruir-se face à agenda do EI”, mas isso “não inviabiliza outro tipo de ações, como raptos, sequestros, outro tipo de atentados ou incursões pontuais que possam assemelhar-se a atentados terroristas”.

“Mas não deixa de ser uma ameaça, porque a visão ‘jihadista’, a visão fundamentalista do Islão, está lá”, insistiu, citando, noutro passo, grupos como o Boko Haram, na Nigéria, ou as milícias al-Shabab, na Somália, que, quando têm poder, “implementam leis fundamentalistas que acaba por comprometer e por inviabilizar qualquer tipo de modernização e de abertura face ao exterior”.

“Todos estes grupos tomam decisões de uma forma muito fria, muito objetiva. Eles não aderem de uma forma genuína ao Islão, o que eles pensam é que têm a possibilidade de receber financiamento, treino e apoios que permitem que depois, no terreno, possam continuar a executar a sua agenda de conquista territorial”, explicou.

“Aqui na Europa, claramente, [o maior risco] é ainda o Estado Islâmico, que aproveita sempre algum tipo de oportunidade para fazer um ataque”, disse à Lusa o especialista em segurança e terrorismo e ex-presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), a propósito do 30.º aniversário da rede terrorista fundada por Usama bin Laden.

Enquanto o Estado Islâmico (EI) ganhava território, financiamento e militantes, a Al-Qaida era “criticada por todos” os extremistas, que a comparavam a “um grupo de velhos que já não tinha capacidade operacional” e que consideravam o Estado Islâmico “a verdadeira vanguarda do islamismo radical”.

Mas, depois das recentes perdas territoriais do EI no “califado” que proclamou em 2014 em partes da Síria e do Iraque, e a consequente perda de poder, a “Al-Qaida saiu mais ou menos incólume da situação e está aí”, explicou Anes, admitindo que a organização “não tem a capacidade operacional que o EI chegou a ter, mas está perfeitamente capaz de fazer atentados e de atuar, já com mais racionalidade”.

“A Al-Qaida está a renascer, não digo das cinzas, porque ela não foi destruída, mas está a renascer e a posicionar-se nas suas diversas áreas de intervenção”, prosseguiu o especialista, apontando como principais palcos da rede terrorista nos próximos anos o norte e centro de África, o Afeganistão e o Paquistão, onde o movimento Talibã do Paquistão (Tehrik-i-Taliban Pakistan), se mostra como “um braço da Al-Qaida muito forte e com muitos atentados no Paquistão e no Afeganistão”.

Além da Al-Qaida na Península Arábica (AQPA), que reivindicou o último atentado da Al-Qaida na Europa, o ataque à redação do jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris, a 7 de janeiro de 2015.

Antes considerada a mais perigosa “filial” da Al-Qaida, a APQA é atualmente instrumental no conflito no Iémen para aliados dos Estados Unidos como a Arábia Saudita na luta contra as milícias ‘Huthi’, apoiadas pelo Irão, o “inimigo principal”.

A rede terrorista não conhece “um período de expansão tão pujante e tão forte como o EI teve, mas vai recuperando e, portanto, pode atacar. Mais nesses locais extra-europeus, menos na Europa”, explicou.

Há uma “juventude entusiasmada” com a “ideologia apocalíptica do EI” que “não deixa muito espaço para que a Al-Qaida respire aqui na Europa”.

Esses jovens “sentem-se parte de um movimento mundial que vai resgatar a honra perdida do Islão e, nesse sentido, essa ideologia apocalíptica entusiasma-os. [Pensam:]’Estamos a acelerar o fim do mundo e, mesmo que morramos, vamos para o céu e esta civilização há de acabar'”, explicou.

Mas “as coisas podem mudar”, advertiu. “Porque essa imagem de um grupo de velhos, que pouco faziam, está a passar, devido à crise do EI […] Se a Al-Qaida tiver uma ação espetacular, que entusiasme os seus seguidores na Europa, também pode ser que a situação mude”.


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