Veículo da PSP choca contra carro civil e condutora é considerada culpada

Condutora e testemunhas afirmam que carro da PSP tinha marcha de urgência indevidamente assinalada. No entanto, a seguradora considera a condutora culpada, após alegadas «declarações falsas» por parte das autoridades.

Veículo da PSP choca contra carro civil e condutora é considerada culpada

Condutora e testemunhas afirmam que carro da PSP tinha marcha de urgência indevidamente assinalada. No entanto, a seguradora considera a condutora culpada, após alegadas «declarações falsas» por parte das autoridades.

Maria Helena Dias Jorge, de 59 anos, saiu do emprego em Porto Salvo, Oeiras, no dia 9 de dezembro. Como era habitual, entrou no carro e arrancou para casa. Atualmente, encontra-se de baixa e está sem carro há quase de três meses, devido a alegadas «declarações falsas» prestadas à seguradora por parte dos agentes da PSP.

O incidente deu-se na Rua Henrique Maia, por volta das 15h50. Uma viatura de patrulha da PSP colidiu «a alta velocidade» frontalmente, e em «sentido proibido», contra o carro de Maria Helena, junto ao local onde trabalha.

«A estrada é de sentido único e quando vou a passar a lomba levo com o carro da polícia em cima, com quatro agentes», explica Maria Helena.

Agente da PSP pede desculpa em lágrimas

Após o embate, rapidamente surgiram no local vários elementos da PSP da Esquadra de Trânsito de Oeiras para tomar conta do acidente. Maria Helena foi de imediato imobilizada e encaminhada para o Hospital São Francisco de Xavier. Dois dos agentes que se encontravam no carro patrulha também foram posteriormente transportados para a mesma unidade hospitalar.

«Um dos agentes chegou a falar comigo no hospital. Passaram pelo serviço de urgências de trauma, onde estava, e o tal agente veio pedir desculpa e começou a chorar», garante a condutora.

Acreditando que o pedido de desculpas por parte do polícia demonstrava que este assumia a culpa do acidente, Maria Helena explicou que na altura não ficou preocupada com questões relativas à seguradora.

«Disseram que estavam em marcha de urgência e que a culpada era eu»

Alguns dias após a participação do acidente, Maria Helena foi contactada pela seguradora. Foi informada nessa altura de que, no auto, os agentes envolvidos tinham declarado que estavam em marcha de urgência no momento do embate e que Maria Helena era declarada culpada pelo acidente. «Os agentes envolvidos no acidente disseram que estavam em marcha de urgência e a que a culpada era eu», explicou, indignada.

Maria Helena dirigiu-se à Esquadra de Trânsito de Oeiras para contrapor o auto. Na instalação policial, garante que os agentes da PSP a «tentaram dissuadir de prosseguir com a contraposição», afirmando que o procedimento «só podia ser feito na companhia de seguros».

«Estiveram ali a empatar até que disse que não saía da esquadra sem fazer a  contraposição do auto e sem falar com alguém responsável. Só assim é que me trouxeram o impresso para eu preencher a contraposição.»

Maria Helena ainda pediu o livro de reclamação da esquadra, uma vez que, ao contrário do que diz, no auto estava referido que tinha sido sujeita a teste do álcool no local do incidente. «Nunca fui submetida a qualquer teste.»

Condutora e testemunhas prestam declarações diferentes das dos agentes da PSP

De acordo com o alegado depoimento dos agentes da PSP, o carro patrulha estava em marcha de urgência quando colidiu com o veículo de Maria Helena. No entanto, a dona de um restaurante e um agente da Polícia Marítima testemunharam que o veículo da PSP «não vinha com a marcha de urgência assinalada».

«Depois do embate, a testemunha que estava no veículo atrás diz que o carro da PSP apenas levava luzes azuis dentro do tablier, sem qualquer sinal sonoro. Se as luzes dentro do veículo já são difíceis de serem perceptiva à luz do dia, sem som é impossível. Não vi nada. Aliás, quando me deparo tenho o carro já em cima de mim», queixa-se Maria Helena.

Contactada pela Impala, uma das testemunhas confirma que a marcha de urgência do carro patrulha «não estava devidamente assinalada» e que considerava que «a PSP é culpada».

Depois de ter feito a contraposição ao auto e uma reclamação, Maria Helena foi chamada, em janeiro, a depor no Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, em Moscavide. Fez-se acompanhar de advogado, desta vez.

Dias depois, foi informada pelo representante legal de que tinha sido movida acção disciplinar aos agentes envolvidos no acidente. A investigação para determinar se os polícias prestaram declarações falsas ainda está a decorrer.

Sem carro e de baixa há quase 3 meses, Maria Helena não consegue dar apoio à mãe acamada

Sem qualquer resposta da PSP, Maria Helena Dias Jorge decidiu recorrer aos tribunais e interpor uma ação contra a PSP. Contudo, nada resolve o facto de, neste momento e «desde o acidente», estar de baixa devido a «lesão na coluna vertebral na sequência do acidente» e de «não ter viatura» para se deslocar.

Para além de «precisar do carro» na vida profissional, Maria Helena tem a mãe acamada num lar. «Não tenho como deslocar-me» e é «a única cuidadora» da idosa.

«Preciso do carro para trabalhar e para dar assistência à minha mãe, que está ao meu cuidado. Está acamada. Teve três AVC e está num lar. Tenho de me deslocar ‘dia sim, dia não’ para levar fraldas e medicamentos que me pedem no lar. Tenho de dar assistência à minha mãe e não consigo.»

A seguradora considera o carro como «perda total». A reparação ficaria em «mais de 8 mil euros». Contactámos a PSP e as seguradoras em causa, mas nunca obtivemos resposta.

Texto: Mafalda Tello Silva | Fotos: D.R.

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