Portas a cair e assentos “no ferro”, receios nos transportes coletivos em Moçambique

Uma viagem junto a portas que não fecham ou em assentos sem estofo, em que o ferro rasga a roupa, são recordações de passageiros de transportes coletivos relatadas à Lusa no centro de Moçambique.

Portas a cair e assentos

Portas a cair e assentos “no ferro”, receios nos transportes coletivos em Moçambique

Uma viagem junto a portas que não fecham ou em assentos sem estofo, em que o ferro rasga a roupa, são recordações de passageiros de transportes coletivos relatadas à Lusa no centro de Moçambique.

“Às vezes, quando subimos para um carro com a cadeira estragada, descemos já com a capulana [tecido de vestidos tradicionais] rasgada” conta à Lusa Memory Marcos.

“As portas estão estragadas. A pessoa senta na porta e tem que sentar com cuidado, por ter medo de cair”, refere.

A degradação do parque automóvel salta à vista, especialmente agora, em plena época das chuvas, que dificulta a circulação, com o desconforto e receios acerca da segurança das viaturas a encabeçarem as queixas dos utentes.

Os velhos e estafados “chapas” de 15 ou mais lugares – levam tantos clientes quantos caibam – ainda enchem as ruas que ligam os bairros de pó e barro à zona de cimento de Chimoio, capital de Manica, centro de Moçambique.

Ao compasso da chiadeira de amortecedores e chaparia já gasta, neste tipo de viatura que é a mais usada para transportar de pessoas em cada região, a insegurança dos passageiros começa por saltar à vista com os esqueléticos e rotos assentos onde já só resta ferro e napa.

Depois, a viatura ligeira de passageiros enche e a superlotação torna-se evidente.

Na hora de se fazerem à estrada, faltam piscas e às vezes nem os faróis acendem.

A degradação é idêntica à que se vive no resto do país e reflete o défice de investimento em infraestruturas e serviços naquele que continua a ser um dos países mais pobres do mundo.

As autoridades referem não haver registo de qualquer acidente de vulto com “chapas”, mas muitos ferimentos, muitas vezes, nem são divulgados, refere Claudionor Marques, outro passageiro.

“Esta cadeira pode vir a aleijar-me, mas o motorista não se responsabiliza” diz à Lusa este passageiro, apertado, dentro de um “chapa”, enquanto mostra ferros soltos num assento sem encosto, salientando que aquelas condições são um atentando à sua saúde.

Salomão Maputo, igualmente utente dos transportes coletivos, explica que, por falta de opções, sujeita-se a viajar naquelas condições, mas apelou aos proprietários para recondicionarem as viaturas.

“Chegamos ao fim das viagens com costelas estragadas” conta à Lusa Benedito Francisco, outro passageiro, considerando que a degradação de algumas viaturas é um sinal evidente de que já não têm condições para circular.

“Quando chegam a uma lomba, tudo levanta e até as tripas sofrem”, descreve.

Com mais de 350 mil habitantes, Chimoio, que já ostentou o título de cidade mais limpa de Moçambique, enfrenta um problema de desordenamento territorial, além de acentuada degradação das estradas asfaltadas e terraplanadas, que dificultam as ligações entre bairros, a circulação de chapas e de outras viaturas.

Os condutores dos “chapas” justificam o estado das viaturas com a degradação das vias de acesso e dizem que as receitas só chegam para comprar algumas das peças necessárias para a manutenção das viaturas.

“Estamos a trabalhar para as peças. A receita tem servido somente para recompor o carro”, no essencial, para o manter a circular, dizem à Lusa Jorge Tadeu e Micheke Vunduki, condutores.

O responsável pela Associação dos Transportadores de Passeiros de Manica (ATPM) diz que há um contínuo trabalho de sensibilização dos associados para melhorarem as condições dos “chapas”.

“Andamos nas praças a sensibilizá-los para melhorarem as cadeiras e o interior das viaturas”, explica Alfredo Canheze, presidente da ATPM.

O porta-voz do comando provincial da polícia de Manica, Mateus Mindu, reconhece os riscos associados à insegurança, mas deixa o problema ao cuidado dos condutores.

“Respeitem a lotação e moderem as velocidades, para evitar que haja derramamento de sangue na nossa urbe”, conclui Mateus Mindu.

AYAC // VM

By Impala News / Lusa

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