Cabo-verdianos tentam lidar com preços que tornam até o óleo quase um luxo

O aumento dos preços em Cabo Verde sente-se em praticamente todas as atividades, mas de forma mais acentuada nos alimentos, onde até fritar o peixe ficou mais caro e a gordura de porco vai substituindo o óleo.

Cabo-verdianos tentam lidar com preços que tornam até o óleo quase um luxo

Cabo-verdianos tentam lidar com preços que tornam até o óleo quase um luxo

O aumento dos preços em Cabo Verde sente-se em praticamente todas as atividades, mas de forma mais acentuada nos alimentos, onde até fritar o peixe ficou mais caro e a gordura de porco vai substituindo o óleo.

Aisha Silva, 25 anos, é um exemplo dos cabo-verdianos afetados pela subida de preços das últimas semanas nos produtos alimentícios nos mercados em Cabo Verde, seja pelo contínuo aumento dos preços da energia, dos transportes e agora pelas consequências da guerra na Ucrânia em toda a cadeia de distribuição.

“Até fritar um peixe em Cabo Verde ficou mais caro. O óleo tornou-se um produto raro e para poucos”, afirmou Aisha Silva, doméstica na cidade da Praia e que a Lusa encontrou às compras no mercado do Plateau, centro da capital cabo-verdiana.

Na cidade da Praia há cinco anos, quase metade do tempo a viver outra crise, a provocada pela pandemia de covid-19, tarda em cumprir os sonhos que a levaram para a capital cabo-verdiana: “Saí de São Vicente [ilha no norte] em busca de melhores condições na cidade da Praia, mas nos últimos tempos a situação tem sido difícil”.

Ir ao mercado fazer as compras do mês, ou agora da semana, é uma situação quotidiana, mas que nos últimos meses vem testando o planeamento do rendimento familiar dos cabo-verdianos. Essas dificuldades são partilhadas por Sandra Lopes, 40 anos, que trabalha como doméstica e vendedora ambulante na cidade da Praia. Queixa-se da “subida exorbitante” dos preços dos alimentos.

“Antigamente, 5.000 escudos [45 euros] dava para fazer uma compra [alimentar a família], mas agora nem 15.000 escudos [135 euros, praticamente o valor do salário mínimo no país] chegam para fazer uma compra que dure até metade do mês”, queixou-se, igualmente durante a ida ao mercado da capital.

Entre as dificuldades no dia a dia, ainda afetado pela crise económica provocada pela pandemia de covid-19, aponta agora, sem rodeios, a subida dos preços, a começar pelo óleo, que disparou mais de 50% desde o início do mês, chegando a ser vendido em Cabo Verde, a embalagem de um litro, por 350 escudos (3,15 euros).

Um preço que Sandra Lopes diz não conseguir suportar, pelo que optou por o substituir pela “gordura de porco”, que é “mais barata e rende mais” para uma família numerosa, incluindo, no seu caso, filhos e netos.

“Não posso gastar 300 escudos na compra do óleo. Como é que vou comprar o peixe”, questiona Sandra.

De crise em crise, há quem acredite que a subida de preços já é um reflexo direto da guerra provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia e da pandemia. É o caso de Ermelindo Sanches, 55 anos, que à conversa com a Lusa no centro do Plateau, junto ao mercado da capital, defende que as entidades de regulação deviam “agir”, para travar especulações nos preços.

Como “as coisas estão”, confessa que não tem outra solução de que não seja viver de “mão apertada” e poupar em algumas compras.

“Não é só a mim, é a toda a gente”, desabafa, preocupado com os próximos tempos, que mantêm Cabo Verde em crise.

O Governo de Cabo Verde criou um gabinete de crise para analisar o aumento de preços no país e definir medidas para reduzir o impacto da crise nas famílias, anunciou na sexta-feira o primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva.

De acordo com o chefe do Governo, a decisão foi tomada em reunião do Conselho de Ministros, após análise à situação internacional e aos impactos em Cabo Verde.

“Devido às consequências da guerra na Ucrânia, da pandemia da covid-19, mas também da seca que Cabo Verde atravessa”, esclareceu o chefe do Governo.

Ulisses Correia e Silva acrescentou que o gabinete de crise “terá a missão de analisar todos os cenários do aumento de preços dos produtos”, bem como “conceber as medidas que deverão ser implementadas no país, para diminuir o impacto desse aumento na vida das famílias”.

“Em breve, devo anunciar as medidas”, afirmou.

Garantiu que o Governo está “atento” ao “aumento exponencial de preços sobre todos os produtos”, mas recorda que o país importa “quase tudo” o que consome, que tem de ser transportado até ao arquipélago.

“Se, por um lado, a pandemia da covid-19 fez com que houvesse um aumento de preço a nível internacional, que só de transporte aumentou-se cerca de quatro vezes mais, agora, por causa da guerra, este mesmo preço aumentou mais três vezes, ou seja, se era dois passou para seis”, explicou.

Os preços em Cabo Verde aumentaram 0,7% no mês de fevereiro e acumulam uma subida de 7,1% face ao mesmo mês de 2021, indicam os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatísticas (INE) cabo-verdiano.

Esses aumentos generalizados em Cabo Verde estão a ser mais visivelmente sentidos nas últimas semanas em produtos alimentares de primeira necessidade, como o pão ou o óleo.

O preço médio dos combustíveis aumentou mais de 4% este mês em Cabo Verde, conforme novos valores máximos definidos pela agência reguladora do setor, e acumularam uma subida de quase 46% em todo o ano de 2021.

Já as tarifas da eletricidade, igualmente condicionadas pelos preços dos combustíveis — Cabo Verde depende da produção de eletricidade em centrais a gasóleo -, aumentaram em média 30% em outubro passado.

PVJ // VM

By Impala News / Lusa

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