Camberra quis em 1998 ‘congelar’ a possibilidade de um referendo em Timor-Leste

O Governo australiano tentou, no final de 1998, congelar durante pelo menos uma década a realização de um referendo em Timor-Leste, o que irritou o então presidente indonésio que acelerou esse processo, recorda um académico australiano.

Camberra quis em 1998 'congelar' a possibilidade de um referendo em Timor-Leste

Camberra quis em 1998 ‘congelar’ a possibilidade de um referendo em Timor-Leste

O Governo australiano tentou, no final de 1998, congelar durante pelo menos uma década a realização de um referendo em Timor-Leste, o que irritou o então presidente indonésio que acelerou esse processo, recorda um académico australiano.

Clinton Fernandes defende que o ex-primeiro-ministro John Howard não queria um referendo em Timor-Leste a tão curto prazo e escreveu ao presidente indonésio a dizer que preferia deixar o assunto “no congelador” durante uma década.

“A Austrália quer tirar Timor da agenda e por isso Howard escreve a Habibie a sugerir que se resolva a questão de Timor-Leste da mesma forma que se resolveu a questão da Nova Caledónia”, afirmou.

“A carta não é uma mudança de posição, não é um reconhecimento de Timor. É dizer: vamos lidar com isso daqui a 10 ou 20 anos. Se Habibie tivesse seguido a sugestão de Howard, teríamos estado a discutir Timor só em 2019 e não em 1999”, afirmou.

Para Clinton Fernandes, a política australiana era de a de “congelar” Timor-Leste, tirar o assunto da agenda imediata.

Ex-militar australiano e responsável pela Timor Desk a partir de 1998, Clinton Fernandes esteve destacado no Australian Army Intelligence Corps (AUSTINT) e é atualmente professor de Estudos Políticos e Internacionais na Universidade de NSW-Camberra, tendo publicado vários artigos e livros sobre Timor-Leste.

Numa conversa com a Lusa, Fernandes recorda o contexto em que se abriu a possibilidade de um referendo aos timorenses, com a economia indonésia a “implodir”, a redução de apoio militar norte-americano ao país e Timor-Leste a ‘contaminar’ os esforços internacionais indonésios.

É nesse contexto, recorda, que no final de 1998 o então chefe do Governo australiano, John Howard, escreve a Yusuf Habibie, então presidente indonésio.

A carta acabou por ser depois promovida pelo Governo australiano como um sinal de mudança da sua política face a Timor-Leste, tentando “criar a imagem de Howard como pai da independência”.

“A carta só queria comprar tempo. Os dois lados queriam livrar-se de Timor: Howard queria meter o assunto no congelador e Habibie não, disse para se avançar logo”, considerou.

O próprio Habibie disse, 10 anos depois do referendo, numa entrevista à televisão australiana ABC, que admitiu ter ficado zangado com o conteúdo da carta de John Howard.

“Na carta ele diz que devia resolver o assunto como os franceses fizeram na Nova Caledónia. Isso significa prepará-los durante 10 anos ou o que seja e depois dar-lhes independência. Li isso e fiquei zangado”, afirmou.

O papel de Habibie no referendo tem sido debatido nas últimas semanas em Timor-Leste, depois da decisão do Governo de dar o seu nome a uma nova ponte na parte leste de Díli, que deve ser inaugurada no dia 30 de agosto.

A decisão está a suscitar polémica, com críticas nas redes sociais ao facto de se honrar o presidente que estava no poder quando Timor-Leste viveu toda a violência antes e depois do referendo de 30 de agosto.

ASP // FPA

By Impala News / Lusa

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