Portugueses em Malaca querem identificar todo o património imaterial deixado por Portugal

Dois portugueses em Malaca querem identificar todo o património imaterial deixado por Portugal, desde o século XVI na cidade costeira da Malásia, onde ainda vive uma forte comunidade que diz ser portuguesa.

Portugueses em Malaca querem identificar todo o património imaterial deixado por Portugal

Portugueses em Malaca querem identificar todo o património imaterial deixado por Portugal

Dois portugueses em Malaca querem identificar todo o património imaterial deixado por Portugal, desde o século XVI na cidade costeira da Malásia, onde ainda vive uma forte comunidade que diz ser portuguesa.

Joana Bastos e Bruno Rego, dois bolseiros Fernão Mendes Pinto, um projeto de parceria entre a associação Coração de Malaca e o instituto Camões, disseram à Lusa que estão, desde que aterraram em Malaca, há cerca de três meses, a desenvolver um mapeamento cultural que vai abranger toda a comunidade luso-malaia com o objetivo de enviar estas informações à UNESCO, para que esta organização reconheça este património único.

“Pretendemos trabalhar todo o património cultural que ainda existe em Malaca, quantificá-lo e qualificá-lo, inseri-lo numa base de dados e posteriormente processar toda essa informação num sistema de base geográfica”, explicou o português de 25 anos licenciado em arqueologia, em declarações à Lusa na cidade malaia conquistada pelos portugueses em 1511.

A informação recolhida centra-se em vários domínios culturais que agregam expressões e tradições orais, que “neste momento ainda é aqui bem vivo”, como o papiá kristang (o crioulo de matriz português existente em Malaca), mas que está a desaparecer “visto que as famílias estão a falar mais o inglês em casa”, explicou Bruno Rego.

“Por outro lado, temos as artes performativas que agregam, o folclore, elementos ligados à natureza, como a atividade piscatória, festividades e rituais como por exemplo o Natal e as festas de São Pedro” que se realizam na cidade entre sexta-feira e domingo.

“Vamo-nos basear num sistema porta a porta, vamos interagir com cada família presente no bairro e não só, visto que existe ainda uma parte da comunidade portuguesa fora do Bairro Português de Malaca”, disse.

O objetivo passa depois de concluído o projeto, que se estima para 2021, enviar as informações para instituições e organizações, como a UNESCO “de forma a reconhecer este património” de uma comunidade que tem vindo a sofrer “certas problemáticas” que se têm vindo a agudizar ao longo dos anos.

“Eles vão ficar sem acesso ao mar em pouco tempo”, disse Bruno Rego, numa referência aos aterros que estão a ser construídos em frente ao Bairro Português de Malaca.

As autoridades malaias pretendem construir uma estrada “em frente do Bairro Português de Malaca, o que vai impedir os pescadores de terem o seu próprio sustento”, numa comunidade altamente dependente desta atividade, explicou Joana Bastos.

Em paralelo, e de forma complementar, os dois portugueses estão a trabalhar ainda num projeto de fotografia documental, o Nos Papiah.

“Contar histórias, curiosidades da comunidade”, a religião e outros aspetos culturais como as danças folclóricas é o objetivo deste projeto, complementar ao mapeamento, difundido nas redes sociais, apontou Joana Bastos.

A licenciada em relações internacionais, de 28 anos, afirmou que o futuro passa por registar novas comunidades portuguesas pela Ásia, exemplos do Sri Lanka, Mianmar (antiga Birmânia), Índia ou Tailândia e ainda fazer uma exposição fotográfica em Portugal para que as pessoas “tenham maior conhecimento” sobre o legado português, desconhecido da maioria dos portugueses.

A relação de Portugal com Malaca remonta a 1509 quando Diogo Lopes Sequeira, enviado do Rei D. Manuel, aportou em Malaca para estabelecer relações com o soberano local e dois anos mais tarde Afonso de Albuquerque desembarcou em Malaca, demoliu a Grande Mesquita, e levantou no local uma fortaleza que seria um importante entreposto comercial.

Na mesma altura surge o crioulo de matriz portuguesa Kristang, uma língua agora ameaçada de extinção, que emprega a maior parte do seu vocabulário do português, mas a sua estrutura gramatical é semelhante ao malaio e extrai as suas influências dos dialetos chinês e indiano.

Malaca, que foi descrita na época pelo segundo capitão, Jorge de Albuquerque, como não tendo “nada de seu e tem todas as coisas que há no mundo”, foi ainda uma importante base para os missionários que depois se deslocariam para as Molucas, China e Japão.

Depois de 100 anos de domínio português, a cidade foi tomada pelos holandeses, depois pelos ingleses, até à independência da Malásia em 1957.

MIM // VM

By Impala News / Lusa

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