Pode ser oportunidade para acrescentar algo do século XXI a Notre-Dame – João Pinharanda

O conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em França, João Pinharanda, disse hoje, sobre a Catedral de Notre Dame de Paris, danificada por um incêndio, que “seria uma oportunidade extraordinária para acrescentar algo do século XXI” ao icónico monumento.

Pode ser oportunidade para acrescentar algo do século XXI a Notre-Dame - João Pinharanda

Pode ser oportunidade para acrescentar algo do século XXI a Notre-Dame – João Pinharanda

O conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em França, João Pinharanda, disse hoje, sobre a Catedral de Notre Dame de Paris, danificada por um incêndio, que “seria uma oportunidade extraordinária para acrescentar algo do século XXI” ao icónico monumento.

Contactado pela agência Lusa, o historiador de arte e curador recordou que a catedral, com mais de 800 anos, “já não era atualmente o edifício original, mas o resultado de várias intervenções que foram sendo feitas ao longo dos séculos”.

O incêndio na catedral de Notre-Dame, um dos edifícios icónicos de Paris e da arte gótica, que começou ao fim da tarde de segunda-feira, foi declarado extinto pelas autoridades francesas, pouco antes das 10:00 de hoje (09:00 em Lisboa).

“Acho que os franceses não vão reinterpretar a Idade Média. Vão limitar-se a copiar o que lá estava. Mas o que lá estava não é o original porque foi tendo alterações ao longo dos séculos”, apontou o adido cultural português.

Pinharanda recordou que o monumento, com origem no século XII, tece alterações ao longo do tempo, nos séculos XIV, XVII e XIX, com várias intervenções que alteraram a sua imagem, nomeadamente o pináculo que caiu, concebido há cerca de um século.

“Na verdade, esta catedral é uma memória viva da cultura europeia – e, em particular, francesa -, política e social, por todas as épocas que atravessou”, desde os casamentos reais, a sagração de Napoleão como imperador, e a própria Revolução Francesa, que lhe retirou a sua atividade original como local de culto para a transformar num mercado.

João Pinharanda acredita que os franceses não irão fazer grandes alterações ao monumento na sua futura recuperação, e que irão optar por uma “postura conservadora”.

“Primeiro têm de fazer uma avaliação técnica ao próprio estado do edifício, o que se faz sempre nestas circunstâncias, e principalmente quando há incêndios e a estrutura é sujeita a temperaturas altíssimas. A pedra pode aparentemente estar boa, mas não estar em condições de aguentar um restauro, com risco de desfazer-se”, comentou.

Depois dessa fase, disse, “terão de fazer estudos, pensar nas várias etapas do projeto”, que irá demorar muitos anos a ficar concluídos.

“Mas os franceses já estão habituados a estas situações porque estão permanentemente a restaurar edifícios deste género, e sujeitos a situações parecidas”.

Recordou o caso da catedral de Reims, no norte da França, que foi bombardeada pelos alemães, na primeira guerra mundial, e que ardeu totalmente.

“Ficou em pior estado do que a Notre Dame de Paris, e não se nota hoje nada”, na sequência dos trabalhos de restauro de que foi alvo.

João Pinharanda disse que atualmente “existem capacidades técnicas muito sofisticadas para reproduzir totalmente o que foi perdido” no edifício.

Quanto às obras de arte no interior, o ministro francês da Cultura, Frank Riester, garantiu hoje que ficou a salvo o tesouro do interior da Catedral de Notre-Dame.

Numa entrevista à radio France Inter, o responsável indicou que as relíquias do tesouro, nomeadamente a coroa de espinhos que os cristãos acreditam ter sido usada por Jesus Cristo na crucificação, e a túnica de São Luís, foram resgatadas, e “estão seguras na Câmara Municipal” de Paris.

“Quanto ao órgão, parece ter sido bastante afetado, e os grandes quadros no interior, aparentemente não, mas podem ter sido também danificados pela água. Ainda é cedo para avaliar. Falta entrar lá dentro e retirar as peças que foram atingidas pelo fogo, fazer um diagnóstico para começar a restaurar”, disse o ministro da Cultura.

Sobre este diagnóstico, o responsável indicou que deverá ainda levar meses a avaliar toda a extensão do sinistro, que se tornou num “drama” acompanhado em todo o mundo.

O órgão da catedral de Notre-Dame, conhecido pelo Grande Órgão, é um dos mais célebres e antigos do mundo, com os seus cinco teclados e cerca de mil tubos, remontando a origem da sua estrutura ao século XIII e aos compositores iniciais da chamada Escola de Notre-Dame – precursora da polifonia – Léonin e Pérotin.

A relação do património da catedral dá conta ainda de mais dois órgãos: o do coro, do século XIX, de dois teclados e dois mil tubos, e ainda um pequeno órgão positivo, móvel, de inspiração barroca, destinado a assegurar o acompanhamento de pequenos ensembles e vozes solistas.

Quanto aos quadros, têm origem na tradição dos ourives da capital francesa que, nos séculos XVII e XVIII, doavam pinturas sacras a Notre-Dame, encomendadas aos principais artistas da época, em honra da padroeira, sempre no primeiro dia de maio, como destaca o ‘site’ da catedral.

Conhecidas por isso como as “Mays”, as pinturas constituem um núcleo representativo do Barroco e do Classicismo em França, segundo a catedral, que destaca telas como “São Tomás de Aquino e a Fonte da Sabedoria”, de Antoine Nicolas, e “A Visitação”, de Jean Jouvenet.

Muitos dos quadros desta coleção foram, ao longo dos séculos, partilhados com outras igrejas de França e o Museu do Louvre, não se encontrando em Notre-Dame.

Frank Riester disse que “o Estado francês tudo fará para recuperar o património perdido”, e que “há pessoas que todo o mundo que já manifestaram disponibilidade para ajudar”.

No entanto, ainda se desconhece a extensão do impacto do sinistro nos bens patrimoniais, não apenas das chamas, mas também do fumo, da água atirada pelos bombeiros e da queda dos materiais pesados.

A catedral possui três grandes janelas circulares com vitrais em forma de pétalas que contam cenas religiosas, incluindo episódios do Novo e Velho Testamento, das vidas dos apóstolos, e da ressurreição de Cristo.

Na sequência de publicações partilhadas milhares de vezes nas redes sociais sobre estragos nas rosáceas, o porta-voz de Notre-Dame, André Finot, desmentiu essas declarações, dizendo: “Daquilo que pude ver, os vitrais não foram tocados, as três belas rosas de Notre-Dame, que datam dos séculos XII e XIII, ainda lá estão, e esta manhã não se mexeram”.

André Finot realçou, citado pela AFP, que os vitrais do século XIX, “bastante menos importantes”, é que podem ter sido atingidos.

O incêndio, que demorou cerca de 15 horas até ser extinto, começou na segunda-feira, cerca das 18:50 locais (17:50 em Portugal).

A Procuradoria de Paris disse que os investigadores estavam a considerar o incêndio como um acidente.

“Majestoso e sublime edifício”, como escreveu em 1831 o escritor francês Victor Hugo no seu romance “Notre-Dame de Paris”, a catedral foi construída em 1163 e iniciou a função religiosa em 1182.

AG // MAG

By Impala News / Lusa

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