“Osmarina Pernambuco não consegue esquecer” estreia-se quinta-feira no D. Maria II

Os diários de uma mulher que queria ser escritora sem nunca ter chegado a sê-lo foram o ponto de partida da peça “Osmarina Pernambuco não consegue esquecer”, a estrear-se quinta-feira, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

“Osmarina Pernambuco não consegue esquecer” estreia-se quinta-feira no D. Maria II

Os diários de uma mulher que queria ser escritora sem nunca ter chegado a sê-lo foram o ponto de partida da peça “Osmarina Pernambuco não consegue esquecer”, a estrear-se quinta-feira, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

Com texto, encenação e interpretação da atriz brasileira Keli Freitas, “Osmarina Pernambuco não consegue esquecer”, a representar na sala de cenografia, leva para o palco a história da brasileira Maria Leopoldina Félix Pinheiro da Silva, nascida em 1919, em Pernambuco, no nordeste brasileiro, que relatou a sua vida em diários aos quais a atriz e encenadora teve acesso através do neto daquela, em 2014, disse Keli Freitas à agência Lusa.

“Colecionadora de cartas alheias há muitos anos, sobretudo de gente desconhecida”, como se classificou Keli Freitas, a atriz, que frequentou laboratórios de escrita para teatro do D. Maria II, cedo se deixou fascinar pelos diários escritos por aquela brasileira que sem a ter conhecido alguma vez chegou a morar numa casa no Rio de Janeiro, onde “Osmarina passou a maior parte da vida”, perto de uma das escolas frequentadas por Keli Freitas, indicou.

Elaborada a partir dos diários daquela mulher natural de Pernambuco — que ainda viveu em Vitória (Espírito Santo) antes de se ter mudado para o Rio de Janeiro, os diários de Maria Leopoldina chegaram às mãos de Keli Freitas, em 2014, através do neto daquela, Alexandra Pinheiro.

“Fascinada” desde o início com a escrita daquela mulher, que não tinha nada a ver com “relatos de elite ou de acontecimentos sublimes, mas com factos do dia-a-dia, como o que comia, a que horas o fazia ou até quando se sentava ao sol”, Keli decidiu pôr em palco a história daquela mulher que “ao longo de décadas e décadas escreveu sobre as pequenas coisas da vida”.

A escrita “aparentemente banal de Osmarina leva-nos a pensar por que motivo diferenciamos tanto o banal do extraordinário”, sublinhou Keli Freitas, para, de imediato, se interrogar: “Que valor é esse que pomos nas coisas?”

Iniciado o trabalho com os diários de Maria Leopoldina, em 2014, Keli Freitas chegou, em 2016, a uma primeira versão do texto, juntamente com o neto da autora com quem pretendia também pô-lo em cena.

Em 2017 após ter-se mudado para Portugal e ingressado no laboratório de escrita do D. Maria II chegou à conclusão de que iria transformar a versão inicial da peça num monólogo, de forma a poder interpretá-la e possibilitando que também o neto de Maria Leopoldina pudesse fazê-lo mesmo que um estivesse em Portugal e o outro no Brasil.

“Se cheguei a esta peça, devo-o ao Alexandre Pinheiro e à relação que com ele estabeleci. Foi também para ele que a escrevi e ainda gostava de vir a fazê-la com ele”, frisou.

Só que, entretanto, “chegou o convite do Nacional para pôr em cena e eu achei que era altura de fechar este ciclo tão longo de biografar esta mulher desconhecida”.

Na vida de “Osmarina Pernambuco”, cem anos depois de esta ter nascido, Keli Freitas diz que “pode ver-se a vida das mulheres, o lugar de onde vieram e o lugar que têm hoje na sociedade”.

Num século onde as mulheres “não tinham voz, Maria Leopoldina teve-a, nos seus diários, onde admitiu que queria ser escritora sem nunca ter conseguido sê-lo”.

“O desejo dela era maior que tudo, mas na realidade isso não cabia”, disse Keli Freitas, acrescentando pretender que esta peça “ponha as pessoas a pensar sobre si próprias”.

“Não apenas sobre as mulheres ou sobre os homens, mas sobre todos nós. Nenhum cidadão se pode excluir porque isso seria extremamente redutor. Até porque as coisas às quais damos importância têm de ser revistas”, sustentou.

Osmarina é “uma mulher perfeitamente esquecida e esquecível, mas ela não se esquecerá. E nós faremos o quê”, questionou-se.

Na sala de cenografia, “Osmarina Pernambuco não consegue esquecer” está em cena até 01 de dezembro, com espetáculos às quartas, sextas-feiras e domingos, às 19:00, e, aos sábados, às 21:00.

A peça — uma produção da Associação Cultural Truta em conjunto com o D. Maria II – tem música original de João Bittencourt, apoio musical de Mariana Ricard, cenografia e figurino de Elsa Romero, desenho de luz de Anaísa Guerreiro e apoio à criação de Cláudia Gaiolas.

No domingo, após o espetáculo, haverá uma conversa com a equipa artística, e, em 01 de dezembro, haverá uma sessão com interpretação em língua gestual portuguesa.

CP // TDI

By Impala News / Lusa

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