O teatro de Enda Walsh regressa aos Artistas Unidos com a estreia de “Ballyturk”

Dois homens fechados numa sala repetem gestos do quotidiano, enquanto teorizam sobre uma cidade irlandesa inventada, “Ballyturk”, que dá título à peça de Enda Walsh, a estrear na quarta-feira, pelos Artistas Unidos, no Teatro da Politécnica, Lisboa.

O teatro de Enda Walsh regressa aos Artistas Unidos com a estreia de

O teatro de Enda Walsh regressa aos Artistas Unidos com a estreia de “Ballyturk”

Dois homens fechados numa sala repetem gestos do quotidiano, enquanto teorizam sobre uma cidade irlandesa inventada, “Ballyturk”, que dá título à peça de Enda Walsh, a estrear na quarta-feira, pelos Artistas Unidos, no Teatro da Politécnica, Lisboa.

Os toques repetitivos de um despertador, de um relógio de cuco e de um micro-ondas são o terror destas duas personagens sem nome — 1 e 2 -, e estão sempre a marcar o tempo, nesta sexta peça do dramaturgo irlandês, nascido em 1967, que os Artistas Unidos põem em cena e que, nas palavras do encenador, Jorge Silva Melo, é “a peça mais louca” do dramaturgo.

“Ballyturk” mantém os “temas de sempre” do autor de “Acamarrados”, a terceira de Walsh, estreada pelos Artistas Unidos em 2008.

Aqui está o grupo familiar, no caso de “Ballyturk”, composto por dois homens, que não se sabe quem são. “Sabemos apenas que estão fechados nunca casa sem exterior, da qual não querem sair, que vão inventando e descrevendo uma cidade ao mesmo tempo que vão imitando todas as personagens que habitam essa urbe inventada”, explicou o também diretor dos Artistas Unidos.

Uma peça em que as personagens e as falas podem parecer estúpidas, descontextualizadas ou até de difícil descodificação. É o caso daquela cena em que, após uns saltos, uma das personagens põe as mãos no chão a fazer de patas, semelhante a um coelho ao mesmo tempo em que ameaça esfaquear alguém, ou aquela em que, pouco depois, as duas personagens combinam entre si que os coelhinhos têm cinco patas, mesmo que não estejam convictos de que estas bastem.

A peça é “enigmática”, acrescentou Jorge Silva Melo, citando a opinião do crítico de teatro do The Guardian Michael Billington, que disse ter ficado fascinado com a obra, apesar de não ter percebido nada.

“Não percebo a peça, mas cheira a cerveja”, disse Billington. “E a serraduras, às tantas, no pub irlandês. ‘Guiness’ e serradura, que são os temas de Enda Walsh”, frisou o fundador e diretor dos Artistas Unidos.

É um lado “surpreendentemente rasca, voluntariamente rasca” de Enda Walsh, que remete também para o universo de uma peça clássica de Dylan Thomas, “Sob o bosque de leite”, adaptada para o cinema por Andrew Sinclair, que Sandra Faleiro encenou em teatro no Acarte, em 1996, recordou o encenador.

“Não é preciso perceber, porque há um ritmo de ‘slapstick’, de comédia americana, inicial, grosseira, ordinária, de taberna irlandesa”, aquela coisa de que Enda Walsh “gosta e já não existe”, disse Silva Melo, sublinhando remetê-lo para os anos 1969-1970 quando estudava na London Film School e vivia em Earl Court, nos arredores de Londres, “onde só havia irlandeses a beber cerveja e a falar de coelhos”.

“Conversa de bêbados. Se os coelhos têm quatro [ou cinco] patas, só um bêbado ou um ator é que pode entregar-se a essas discussões como o Beckett [Samuel] queria”, referiu.

Além de ter sido um “sarilho” para traduzir, “Ballyturk”, segundo Silva Melo, é também “complicadíssima”, porque vive toda “de marcações”, em que tudo é “minutado”.

Para mais, em termos de som, o que se escuta de fora são os sons de uma cidade, de pessoas que se intrometem na vida das personagens, enquanto o que se vê em palco é estar “num idílio da morte”. Um idílio da morte que, para Enda Walsh, é a paisagem irlandesa, acrescentou Silva Melo.

Para o encenador, importante nesta peça é “perceber que as personagens fazem o mesmo todos os dias” e cada vez que o fazem “combinam um com o outro”, uma combinação “tácita”, sem a qual não se entenderia a peça ou, a acontecer, seria percebida como “uma estupidez”.

Uma peça onde entra o “Godot”, de Beckett, já que as personagens interpretadas por Américo Silva e Pedro Carraca estão sempre à espera de que apareça alguma coisa, e “aparece o [ator] António Simão [a terceira personagem] que é o Godot”, sublinhou Silva Melo.

Uma personagem que “diz umas coisas sobre moscas e sobre a brevidade da vida, a anonimidade da vida”, mas que acaba por transportar a ação para um universo real.

“Ballyturk” acaba, assim, por nos pôr frente a gestos do quotidiano “tirados da sua funcionalidade quotidiana”, já que as personagens interpretadas por Américo Silva e Pedro Carraca não saem de casa.

Uma peça que é “muito a versão ‘Malucos do Riso’ do Beckett”, disse Silva Melo. “É tirar o Beckett da universidade e pô-lo perto das tabernas”, assinalou.

Em cena até 04 de maio, “Ballyturk” pode ser vista às terças e quartas-feiras, às 19:00, às quintas e sextas, às 21:00, e, aos sábados, às 16:00 e às 21:00.

Esta peça do dramaturgo nascido em Dublin, em 1967, tem tradução de Nuno Ventura Barbosa, interpretações de Américo Silva, António Simão e Pedro Carraca, cenografia de José Manuel Reis e Rita Lopes Alves, que também assina o figurino.

A luz é de Pedro Domingos, o som de André Pires. Inês Pereira é assistente de encenação.

A peça conta ainda com a personagem de uma criança, que será representada por três que se revezam: Matilde Penedo, Melissa Matos e Beatriz Mendes. A elas juntam-se as vozes de Inês Pereira, Isabel Muñoz Cardoso, Pedro Baptista e do próprio Jorge Silva Melo.

CP // MAG

By Impala News / Lusa

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