“O Barco” de Grada Kilomba é uma metáfora para “produzir nova memória da escravatura”

A instalação performativa “O Barco”, da artista Grada Kilomba, em Lisboa, foi criada como “metáfora para produzir um novo futuro”, no qual a História da escravatura “seja contada de forma correta”, sem apagar o sofrimento de milhões de pessoas.

“O Barco” de Grada Kilomba é uma metáfora para “produzir nova memória da escravatura”

A instalação performativa “O Barco”, da artista Grada Kilomba, em Lisboa, foi criada como “metáfora para produzir um novo futuro”, no qual a História da escravatura “seja contada de forma correta”, sem apagar o sofrimento de milhões de pessoas.

A obra multidisciplinar – descrita como escultura, instalação e performance – foi hoje apresentada aos jornalistas na Praça do Carvão do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), com a presença da artista, da diretora do museu, Beatrice Leanza, e de John Romão, diretor artístico da BoCA – Bienal de Arte Contemporânea, em cuja programação também se insere, como um dos momentos de abertura.

“Este projeto tem muito significado para mim, porque é uma metáfora para 500 anos de História da escravatura em que a política, a filosofia e as artes confirmaram a prática da escravatura e fizeram um apagamento dos escravizados”, disse a artista, na apresentação da obra.

Na praça, estão dispostos precisamente na forma da estrutura de um barco, com mais de 30 metros, 140 blocos de madeira queimada, em homenagem aos corpos desaparecidos no mar ou vítimas da escravatura, um comércio à escala global, que, lembrou Grada Kilomba, “foi liderado pelos portugueses” a partir de 1444, e ao longo de 70 anos, juntando-se depois outras nações à mesma atividade.

Kilomba lembrou os 12 milhões de pessoas que foram deslocadas das suas terras para serem vendidas nas rotas da escravatura ao longo de cinco séculos, segundo as pesquisas que realizou para criar esta sua primeira instalação de grande escala.

A residir em Berlim, a artista portuguesa tem tratado, no seu trabalho, as questões do racismo, do trauma colonial, das vozes silenciadas e das questões de género, e foi uma das cinco criadoras convidadas a apresentar uma proposta de criação de um memorial da escravatura em Lisboa, concurso que haveria de escolher a do artista angolano Kiluanji Kia Henda.

As questões do racismo e da descolonização de espaços públicos viriam a ganhar maior visibilidade devido ao movimento “Black Lives Matter”, surgido nos Estados Unidos, e com o derrube de estátuas de figuras históricas do chamado período dos Descobrimentos e do colonialismo.

“Os monumentos do período colonial que se encontram em várias cidades europeias, e também em Lisboa, são como icebergues. Mostram apenas uma parte da História, fazem uma glorificação de um período, de uma aventura, e, no fundo, estão os oprimidos, os corpos que viajaram aos milhares no fundo dos barcos”, reiterou.

A ideia de criar esta peça multidisciplinar tem cerca de três anos e foi preparada com “uma pesquisa intensa, da História, da linguagem, que tem muita importância na criação das identidades, imagens, sons e movimentos”, e, por essa razão, Grada Kilomba contactou com a comunidade da diáspora africana em Portugal, para criar uma performance em torno da cerimónia e do ritual, com produção musical de Kalaf Epalanga.

No centro do barco, também inseriu outra linguagem artística, a poesia, escrevendo frases em 18 dos blocos, que foram traduzidas do português para mais seis línguas, além do inglês e do árabe: crioulo, ioruba, quimbundo e tsuana.

“Uma dor é uma revolução”, “Uma alma uma memória”, “Uma morte, uma dor”, “Uma alma uma memória”, “Uma ferida, uma morte, um esquecimento” são algumas das frases inscritas a dourado, que sobressaem na madeira queimada, totalmente negra.

Grada Kilomba sublinhou que não está a falar só do passado para o recordar, mas que o seu trabalho tem o objetivo de “criar um futuro para produzir nova memória”, contra o apagamento.

“Para isso temos de atuar no presente. Há feridas que nunca foram devidamente contadas e se isto continua a acontecer, a barbárie repete-se, o fascismo, a desumanização, a opressão repete-se”, alertou a também escritora com formação em psicologia e autora da obra “Memórias da plantação: episódios de racismo quotidiano”, publicada em 2008, e já traduzida para várias línguas.

Questionada pela agência Lusa sobre como as obras de arte sobre matérias complexas, traumáticas e dolorosas podem ir ao encontro da sociedade e chamar a atenção, a artista respondeu: “Só com a beleza e a poesia se consegue abraçar as pessoas”.

“O meu trabalho é criar essa poesia e estética para que qualquer pessoa fique tocada, através da contemplação e das perguntas que podem surgir. O que me interessa mais é suscitar essa reflexão”, acrescentou, dizendo que o barco “é como um jardim mágico”.

A performance da peça “O Barco”, em três atos, na qual participam vários intérpretes de diversas gerações das comunidades afrodescendentes, vai acontecer hoje, às 18:00.

“O Barco”, comissionado e produzido pela BoCA, ficará instalado no MAAT até 17 de outubro, também numa parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, no âmbito do Lisboa na Rua.

AG // TDI

By Impala News / Lusa

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